sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

Minha Versão - Capítulo 12 - A viagem. São Paulo, um dois, feijão com arroz

 A viagem. São Paulo, um dois, feijão com arroz  

Na segunda feira, 7 de outubro de 1968 véspera da viagem, alguém com cara de estudante,  desconhecido, me passou um bilhete em pleno restaurante da faculdade.

 

O bilhete: “Dia 8, terça – 19 horas – Rodoviária – balcão Viação Cometa – loira de jeans e revista Veja debaixo do braço esquerdo”.

 

Era minha senha e meu ponto para viajar para o XXX Congresso da UNE, que eu ainda não sabia onde seria. 

 

Facilmente distingui a loira oxigenadíssima (com certeza era disfarce) que me esperava com uma passagem Rio-São Paulo na mão. Às 22 horas partiu o “Flecha de Prata” ônibus prateado, Mercedes Monobloco da Viação Cometa. Eu adorava esse modelo, nessa época muito comum nos filmes americanos em viagens interestaduais. Quando estava na Escola Preparatória de Cadetes de Campinas, uma vez por mês pegava um desses para vir a Niterói ver meus pais.

 

A loira me entregou outro bilhete e me pediu o anterior que rasgou na hora. Dizia: “Esquina Aurora com Arouche 18 horas – casal com casaco de couro no braço esquerdo”. Naquela época, a viagem durava 8 a 9 horas. Imaginei que ficaria à toa no centro de São Paulo por horas, então relaxei, tinha muito tempo pela frente para perambular, e eu sempre gostei de momentos assim, sem compromisso com nada, passeando sem destino, apenas comigo mesmo.

 

A Rodoviária de São Paulo ficava bem perto da Estação da Luz, na chamada “Boca do Lixo”. Depois de um café e um cigarro, sai passeando. A linda Estação da Luz, com seus ares das Gares Parisienses, a Avenida Ipiranga, Praça da República, Largo do Arouche, e finalmente a Rua Aurora. Nela ficavam vários cinemas que já em decadência passavam apenas porno  chanchadas brasileiras, com direito a um striptease ao vivo entre seções, durante toda a tarde. A barra era muito pesada para que eu pensasse em entrar.

 

Já cansado, faminto, e com pouco dinheiro, cheguei às 18 horas no “ponto” indicado no bilhete da loira da rodoviária, que disse se chamar Beth, mas é claro que era codinome. Na época brincávamos com a clandestinidade e todos já tinham um codinome.

 

O casal, muito simpático, com forte sotaque do interior paulista, me informou que às 21 passaria um carro para me buscar no restaurante “Um Dois Feijão com Arroz”, ali mesmo na rua Aurora, e me ofereceram um jantar.

 

Não sei se a fome, o cansaço, ou a ansiedade da tensão de poder ser descoberto e preso durante a viagem, acalmados por encontrar alguém em quem confiar, num lugar confortável, fizeram desse jantar, um dos melhores da minha vida. Até hoje me lembro do Virado à Paulista com Tutu de Feijão e ovo frito. Uma maravilha.

 

Depois que fomos presos em Ibiúna pelo crime da fazer um congresso, 612 estudantes foram processados pela Justiça Militar de São Paulo, cujo tribunal era na Avenida Brigadeiro Luís Antônio, e tínhamos que comparecer para uma audiência a cada dois meses que era sempre adiada. 

 

Nos próximos 3 anos, 1969 a 1971, vários amigos processados vínhamos do Rio à Sampa em confortável trem noturno, bebendo e jogando no belo vagão restaurante. Eu sempre fazia questão de jantar antes da viagem de volta no saudoso “Um Dois Feijão com Arroz” da Rua Aurora. A viagem levava 12 horas e custava o mesmo que o ônibus. Só deixei de fazer essa viagem em 71 quando finalmente tive que me exilar no Chile com o processo ainda em andamento. Mas isso serão outros capítulos.

 

Pontualmente, ou quase, pára na porta do restaurante um DKW Vemag. O casal entra comigo e partimos. Volta a tensão. Depois de umas quadras, o carro para, o casal salta e eu fico só no banco traseiro, na frente dois homens com cara de poucos amigos.

 

Chovia, pensei comigo, garoa paulista, terra da garoa, etc. Ledo engano, a chuva foi engrossando cada vez mais, e só parou no sábado, quando estávamos todos presos a caminho do Presídio Tiradentes, apinhados em ônibus nem tão confortáveis assim.

Mais alguma quadras, o DKW para numa esquina com 4 jovens. Dois entram e me apertam no banco traseiro. Já estão molhados da chuva que não dava trégua.

 

Seguimos sem trocar uma palavra por mais de uma hora. Lembro apenas de uma rodovia, depois uma estradinha asfaltada, outra de terra, e chegando ao lado de uma floresta de pinheiros o carro para e o motorista diz para entrarmos na floresta que há uma lona onde devemos ficar. 

 

Ficamos apreensivos, e um dos meus companheiros de banco pergunta se é isso mesmo, se o motorista tem certeza que era ali, pois com o breu da noite e a chuva constante, não víamos nenhuma tenda, ou algo parecido. O motorista insiste: “dez a vinte metros para dentro da floresta tem uma cobertura de lona onde estão nos esperando”, e diz que não pode esperar porque tem que buscar mais gente em São Paulo. Saímos protestando. Depois do longo silêncio da viagem, as primeiras palavras do meus companheiros de banco denunciam um sotaque nordestino.

 

Depois de uns minutos de caminhada pela floresta, que na verdade era uma plantação de pinos, e por isso fácil de andar, encontramos uma enorme lona entendida, presa às árvores, formando como uma grande tenda.

 

Sob a tenda, haviam umas vinte pessoas. Entramos numa fila que aguardava o transporte final para o local do congresso. Éramos levados aos poucos numa Van que ia e voltava.

 

As horas passavam sob a lona, de forma tão lenta, tão escura e tão molhada que  perdi a noção do tempo. Portanto, não sei quando chegou a minha vez e dos companheiros de banco traseiro. Enquanto isso, chegavam mais estudantes, no DKV e outros carros particulares. A tenda se enchia cada vez mais.

 

Finalmente nos mandaram embarcar numa VAN. Alguns minutos num trajeto de terra esburacada e já cheio de lama, chegamos. Uma porteira com dois sentinelas. Notei meio perplexo que estavam armados. Ai “caiu a ficha”, os caras estavam brincando, treinando ou propagandeando para os delegados a guerra de guerrilha. Na hora pensei “esse negócio vai dar merda”. E deu.






 

 

 

 

 

 

domingo, 29 de novembro de 2020

Minha Versão - Capítulo 11 - A articulação para Ibiúna - amostra da concepção “foquista”e seu futuro fracasso.

 A articulação para Ibiúna – amostra da concepção “foquista” e seu futuro fracasso. 

 

Com o sucesso dos movimentos que culminaram na passeata dos 100.000, o movimento estudantil resolveu levar à frente o projeto do Trigésimo Congresso da UNE, apesar da entidade estar proibida de funcionar e menos ainda de fazer um congresso reunindo centenas de estudantes de todo o Brasil.

 

Viriam representantes de todos os diretórios de todas as faculdades e DCEs de todas as universidades. É claro que aquelas “de direita” que concordavam com o governo, não participariam.

 

Havia duas correntes para organizar o congresso.  

Uma pensava fazer num grande Campus, como o da então “Universidade do Brasil”, depois Universidade Federal do Rio de Janeiro na praia da Urca, Rio de Janeiro. Seria um congresso aberto e divulgado, e assim esperava-se que o apoio da imprensa e da sociedade, apoio que vinha crescendo desde a morte de Edson Luis, impedisse uma repressão que acabasse com o congresso, mesmo que proibido. Seria um ato de desobediência, como foi a passeata dos 100.000.

 

Outra corrente, de concepção mais “foquista” entendeu de fazer um congresso “clandestino” num sítio ou fazenda, secretamente, de forma que a repressão não se inteirasse dos acontecimentos.

 

Hoje, concordaria com a primeira corrente, mas na época eu já estava muito convencido da necessidade da luta armada, de enfrentar militarmente a ditadura nas cidades e nos campos.

 

Venceu a concepção foquista. Parecia que estavam entusiasmados com o evento, que seria, digamos, uma prévia das guerrilhas rurais que explodiriam alguns anos depois.

 

 As lideranças começaram a se reunir secretamente com representantes dos principais DCEs de todo o país.

E começou a organização do evento, que teria mais de 600 delegados.

Era na USP onde os diretórios tinham melhor organização e infra-estrutura, e eles começaram a conceber e montar a logística necessária.

 

Como esconder, alimentar, fornecer local para dormida, apoio médico, para centenas de pessoas, num sítio perto de alguma cidade do interior, sem levantar suspeitas?

 

Foi escolhido e alugado um sítio a poucos quilômetros da pequena cidade de Ibiúna, no Estado de São Paulo. Naquela época, Ibiúna não passava de um povoado típico. Uma pracinha, igreja, e algumas casas.

 

Primeiro foi o trabalho de eleger os representantes de cada faculdade. Durante esse processo, o local era mantido em sigilo, ou seja, os delegados eram escolhidos para um congresso que não se sabia onde nem quando, apenas sabendo que era proibido e poderia trazer sérias consequências individuais.

 

Depois foi a montagem da logística necessária para deslocamento dos mais de 600 delegados eleitos. Era um grande esquema de viagens, senhas, pontos, encontros, dormidas, caronas, refeições, pois viriam delegados de longe, sem saber seu destino final, onde dormir ou comer.

 

Cada faculdade mandaria pelo menos um representante, alem das diretorias das associações estudantis e DCEs. As várias organizações e partidos lutavam para tentar indicar o maior número de delegados para votar as resoluções e eleger a nova Diretoria da UNE.

 

Vinha gente do Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sul e Sudeste. Uma Babel de concepções políticas, sotaques, costumes, etc. E tudo isso no ano de 1968, quando se contestava tudo, religião, casamento, sexo livre, feminismo, liberação de drogas (principalmente maconha). Era um congresso estudantil com jeito do festival de música, um precursor do que seria Woodstock no ano seguinte.

 

Só que no Brasil, debaixo de uma raivosa e violenta ditadura, agora acossada pelos diversos movimentos populares que a contestavam.

 

Há alguns anos atrás, minha filha tomou conhecimento de como foi o Congresso de Ibiúna, como ficou conhecido, nas páginas dos jornais e revistas da época e me perguntou:

 

— Como vocês conseguiram montar um evento secreto desse porte para 600 pessoas de todo o Brasil sem telefone celular e sem Internet?

 

Realmente não sei como, e não consegui responder, mas a nossa ilusão quase adolescente de que seria secreto, foi só mesmo uma ilusão, como veremos nos próximos capítulos. 

 

Plim-plim.






 

 

 

sexta-feira, 20 de novembro de 2020

Minha Versão - Capítulo 10 - A passeata dos 100.000 - convocação nas fábricas, trens, escolas.

 A passeata dos 100.000 – convocação nas fábricas, trens, escolas

 

No dia seguinte ao golpe militar de 1964, a ditadura mandara incendiar o lindo prédio da praia do Flamengo onde funcionava a UNE – União Nacional dos Estudantes. Assim iniciou um longo período de repressão ao Movimento Estudantil.

 

Ali funcionava um restaurante com refeições baratas para estudantes de baixa renda. Eram na sua grande maioria secundaristas oriundos das mais diversas partes do país que vinham estudar e trabalhar no Rio de Janeiro.

 

Com o incêndio, o restaurante foi transferido para um antigo prédio situado ao lado do Aeroporto Santos Dumont, onde além do restaurante funcionava também um teatro e uma policlínica. Apesar de pertencer ao Ministério da Educação, o prédio era administrado pela UME – União Metropolitana de Estudantes. O prédio era conhecido por ter abrigado uma antiga prisão de escravos, e por isso era chamado de “Calabouço”.

 

Com a grande concentração de estudantes, o Calabouço tornou-se um ponto de organização e agitação do Movimento Estudantil, e ali ocorriam constantes manifestações com violentas reações policiais. 

 

Em 1967 iria se realizar no Museu de Arte Moderna do aterro do Flamengo, próximo ao Calabouço, uma reunião do FMI – Fundo Monetário Internacional, para nós um símbolo da dominação do imperialismo. Então o  governador do Estado da Guanabara, Negrão de Lima anunciou a demolição do Calabouço com o pretexto de urbanizar a área. Foi o estopim para uma série de manifestações.

 

No dia 28/03/1968, me lembro porque foi no dia seguinte ao  meu aniversário de 19 anos, uma tropa invadiu o calabouço para reprimir uma passeata que se iniciava, e um aspirante da polícia militar, com um tiro à queima roupa, matou o estudante Edson Luis. Outras seis pessoas também foram baleados, sendo que um deles morreu no hospital.

 

Com medo de que a polícia sumisse com o corpo, os estudantes o levaram em passeata até a Câmara de Vereadores do Município, onde foi velado após a autópsia feita ali mesmo.

 

Na passeata gritava-se “Mataram um estudante, podia ser seu filho”, “Bala não mata fome”,  e se exibía o corpo de Edson Luiz. Um menino franzino, vindo do Pará, que cursava o segundo grau numa escola pública e comia no Calabouço.

 

 


 

A repercussão foi tão grande, que a censura não conseguiu abafar, e no dia seguinte todos os jornais noticiavam a morte de Edson Luis, como na foto acima de autoria de fotógrafo do Correio da Manhã.

 

Até o dia da missa de sétimo dia em 2 de abril na Catedral da Candelária, estouraram protestos e gestos de solidariedade em todo país. Artistas, intelectuais, jornalistas, movimentaram-se em protesto contra um assassinato tão brutal. A música “Coração de Estudante” de Milton Nascimento e Wagner Tiso refere-se a Edson Luis.

 

Na missa, a catedral estava lotada, e não mais só por estudantes, representantes de toda sociedade, políticos, sindicalistas, artistas, estavam presentes. Ao final, a cavalaria cercou a igreja e quem saísse certamente seria preso. Foi aí que os vários padres presentes formaram um corredor na porta para permitir que saíssemos em liberdade, mas não foi suficiente, várias pessoas foram presas.

 

Depois dos acontecimentos de março/abril, o sentimento de revolta, de indignação com a violência e os métodos autoritários da ditadura estava generalizado, principalmente na classe média e meios intelectuais. 

 

O movimento de repúdio aumentava, e nós estudantes aproveitávamos a onda crescente e partiamos para levar adiante um grande movimento de protesto pela derrubada da ditadura, que culminou em junho na “Passeata dos Cem Mil”

 

Agora com apoio ainda insipiente de movimentos sindicais, partimos para a luta aberta. Começamos a propagandear a necessidade de uma Greve Geral de estudantes e trabalhadores que parasse o país. Com a experiência adquirida nos anos anteriores, iniciamos a convocação, retomando comícios relâmpagos, pichações e panfletagens, nas escolas, universidades e em portas de fábrica. 

 

Foi convocada para dia 26 de junho uma grande passeata para percorrer a Avenida Rio Branco, da Praça Mauá até a Cinelândia. Foi uma festa da democracia, o povo acorreu em massa. Milhares de pessoas tomaram a avenida que agora era do povo, e a polícia não tinha mais como intervir. Não era mais um movimento de estudantes, mas o protesto forte e consistente de toda a sociedade.

 

Foi a famosa “Passeata dos Cem Mil” que ficou na história da democracia brasileira. O povo marchou pacificamente por toda a avenida, ocupando todos os espaços, de calçada a calçada. 

 

O sucesso foi tão grande e definitivo como nem os organizadores imaginavam. No fim da caminhada, em frente ao Teatro Municipal a multidão aplaudia os discursos que se sucediam, principalmente dos estudantes, como o de Wladmir Palmeiras da foto abaixo, também do Correio da Manhã.




 

 Nós havíamos vencido uma batalha, mas a guerra seria longa. O ar de democratização que se respirava prosseguiu até 13 de dezembro quando a ditadura militar sentindo que perderia o controle, editou o Ato Institucional número 5, acabando de vez com o que restava de liberdades democráticas, fechando o Congresso Nacional, censurando abertamente a imprensa e prendendo qualquer opositor que pudesse vir a se manifestar contra.


 

sábado, 14 de novembro de 2020

Minha Versão - Capítulo 09 - O DCE livre e a inauguração da “Estátua da Liberdade”, quando eu quase morri na rua em que nasci.

O DCE livre e a inauguração da “Estátua da Liberdade”, quando eu quase morri na rua em que nasci.

 

Nasci no Boulevard 28 de setembro em Vila Isabel, Rio de Janeiro, e  dezenove anos depois, numa manifestação reprimida à bala pelo DOPS, quase morri a poucos metros de onde havia nascido. Naquele mesmo Boulevard. 


Explico:

Na ditadura, até o Decreto 477 que baniu definitivamente os diretórios e DCEs (Diretórios Centrais) ainda se podia eleger diretorias de forma democrática, mas para os Diretórios Centrais da Universidades as regras e limitações do processo eram tantas que era praticamente impossível para a esquerda eleger uma diretoria independente.

 

Assim foram criados os DCEs Livres, com diretorias eleitas pelos diretórios que não aceitavam a Ditadura e seus métodos para o Movimento Estudantil.

 

Foi criado o DCE Livre da UERJ em 1968, e eu com meus 19 anos, mesmo sem entender direito o movimento, fui eleito presidente. 

 

Acho que foi porque era um nome novo, não comprometido com nenhuma das organizações que disputavam a hegemonia do ME (Movimento Estudantil) e tinha demonstrado combatividade nas manifestações do ano anterior.

 

Em protesto contra a política estudantil da ditadura, fazíamos constantemente pequenas greves de dois ou três dias, nas faculdades da UERJ. Eram como ensaios para uma futura greve geral que deveria ocorrer ainda naquele ano em conjunto com o resto da sociedade, em especial com sindicatos de trabalhadores.

 

Para se fazer uma greve, as faculdades mais mobilizadas e de maior impacto social e repercussão na mídia eram as de medicina, enfermagem e odontologia funcionando no conjunto universitário junto ao Hospital Universitário Pedro Ernesto, no Boulevard 28 de Setembro.

 

Com intensa mobilização nas assembleias de cada faculdade, tiramos uma greve com grande adesão dos alunos, funcionários e professores.

 

Num contexto de ebulição social surgindo por todas partes, essa greve demonstrou aos órgãos de inteligência que já tínhamos disposição, massa e organização suficiente para lutar de forma mais consequente, o que, de certa forma, acendeu um “sinal amarelo” na repressão.

 

A greve já ia pelo terceiro ou quarto dia paralisando os serviços não essenciais do hospital, e por mais agitação que fizéssemos, não saía nem uma linha nos jornais, nem uma palavra nas TVs e rádios.

 

Resolvemos então fazer uma grande manifestação de apoio às faculdades em greve, levando alunos de todas as demais, da UERJ e de outras Universidades.

 

A idéia era inaugurar a “Estátua da Liberdade” em frente à entrada do Hospital Pedro Ernesto. Construímos em pranchas de madeira e papelão, a figura de um Policial Militar com uns três metros de altura, farda, capacete e com o braço direito levantado, empunhando não a tocha da liberdade, como em Nova York, mas um cassetete de madeira de um metro de comprimento.

 

Erguemos a “estátua” apoiada numa árvore no meio do canteiro central do Boulevard, bem em frente à entrada do hospital. Logo surgiu uma pequena multidão de jalecos brancos, estudantes, médicos, funcionários. Os pedestres da movimentada avenida paravam para assistir. 

 

Como presidente do DCE, comecei a manifestação. Subi num púlpito improvisado e comecei um discurso de defesa da greve e do nosso direito de fazê-la. Sucederam-se discursos dos presidentes dos diretórios locais.

 

Depois de mais ou menos uma hora, terminados os discursos, os aplausos e os gritos de “Abaixo a Ditadura”, resolvemos sair em passeata pelo Boulevard, que já estava com o trânsito interrompido. 

 

Saímos com faixas, cartazes e palavras de ordem em direção à Praça Barão de Drumond. Eu ia na frente, de braço dado com os demais dirigentes estudantis que haviam acorrido para a manifestação.

 

Na primeira esquina, uma camionete Veraneio do DOPS foi atravessada no meio do Boulevard. Dela saíram uns poucos policiais, que pelo número reduzido, e por não serem da tropa de choque, não demos muita confiança.


Continuamos avançando aos gritos. Dispostos a enfrentá-los, afinal de contas estávamos acostumados a brigar com a policia militar e até com a cavalaria, não seriam meia dúzia de policiais civis que iriam nos amedrontar.

 

Só me assustei, quando dois policiais, acho que se sentindo encurralados, ajoelharam no chão em posição de tiro e miraram sua pistolas em nossa direção. 

 

Veio o primeiro tiro, o segundo, o terceiro, e continuávamos a acuá-los. Naquele momento eu me sentia num filme, num sonho, e me impressionava com minha falta de medo, caminhando contra tiros. Caminhando e cantando...

 

Só caí na real e me apavorei quando o colega ao meu lado, de jaleco branco, deu um gemido e caiu no chão com o jaleco ensanguentado.

 

Foi uma correria, tentamos voltar. Nessa altura a tropa de choque já ocupava a outra esquina e nós é que ficamos encurralados. A única saída era entrar no hospital, e a maioria conseguiu. Os que ficaram na rua iam sendo presos e colocados em fila indiana e levados para os camburões. 

 

No interior do hospital a batalha continuava. A polícia depois de hesitar por alguns momentos invadiu o hospital e lançava bombas de gás lacrimogênio. Doentes saiam desesperados sem poder respirar. O berçário foi atingido, salas e corredores viraram uma praça de guerra. 

 

Fui surpreendido quando me agarrou pelo braço um primo que não via há quatro anos, desde o aniversário de 80 anos de nossa avó Joanna em Corumbá MS. Eu não tinha noticias do Mario Gomes de Arruda desde então, e muito menos sabia que estudava odontologia na minha mesma universidade. 

 

Ele me agarrou pelo braço e disse “Vem comigo, corre”. No caminho disse que tinha me reconhecido desde que comecei o discurso ao lado da “Estátua da Liberdade”.  Levou-me correndo pelo terreno do hospital até os fundos, onde um alto muro o separa da Av. Professor Manoel de Abreu. 

 

Não sei como, pulei o muro e sai correndo como um maratonista. Só fui parar no Estádio do Maracanã, onde recuperei o fôlego para pegar um ônibus para a praça XV e tomar a barca para Niterói.

 

A manifestação valeu a pena. Finalmente os jornais e TVs não puderam esconder o que tinha acontecido. Sai numa foto no Jornal do Brasil ao lado da “Estátua da Liberdade”

 

Só fui voltar a ver o primo que me salvou a vida, ou pelo menos da prisão, um ano depois quando me escondia na casa de sua irmã Ney no bairro de Laranjeiras.

 

Nunca me lembrei de agradecer ao primo querido e valente que correu sério risco por ser primo de um “perigoso subversivo”. 

 

Mas nunca é tarde, aqui vai meu MUITO OBRIGADO primo MÁRIO GOMES DE ARRUDA. Espero que esse agradecimento chegue até você.




 

 

 

sábado, 7 de novembro de 2020

Minha Versão - Capítulo 08 - Reuniões intensas nos apartamentos do Flamengo, Catete e Largo do Machado

 Reuniões intensas nos apartamentos do Flamengo, Catete e Largo do Machado

 

Aos poucos, com a minha atuação no diretório e nas manifestações, fui me aproximando cada vez mais dos grupos e organizações que lideravam o movimento.

 

A maioria dos estudantes de fora do Rio de Janeiro, morava em apartamentos no Flamengo, Catete, Largo do Machado, Glória, Laranjeiras e redondezas.


Os alugueis eram mais baratos, estavam no centro do agito cultural da época e formavam “repúblicas” onde se podia rachar a aluguel.

 

Esses bairros eram cheios de bares com mesinhas na calçada, abertos até altas madrugadas com boêmios, poetas, vagabundos, estudantes, cafetões, cineastas, prostitutas e toda sorte de intelectuais contestadores dos anos 1960.

 

O ar era de Quartier Latin. Tinha a Faculdade de Direito da UERJ e os cinemas do Largo do Machado, os inúmeros bares e botecos nas ruas Paissandú, Marques de Abrantes, com o famoso e secular Café Lamas, Senador Vergueiro, Rua do Catete... 

 

A esquina da Paissandú com a Senador Vergueiro era a própria esquina dos Boulevards, Saint-German com Saint-Michel. Era no Lamas, que nomes famosos da música e teatro se encontravam depois das peças e shows, para comer seu maravilhoso e famoso bife.

 

Mas o ponto alto era o Cine Paissandú. Praticamente um cinema de arte, que exibia as novidades do cinema europeu, latino-americano, asiático, e claro, do Cinema Novo Brasileiro. Só não passava Hollywood.

 

Ali toda sexta-feira às 24 horas exibiam um dos sucessos dos filmes politicamente engajados. Godard, Glauber Rocha, Bergman, Eisenstein, Fellini.

 

Depois do seção um cineasta ou crítico conduzia uma palestra sobre a obra e abria a discussão para o público de um cinema sempre lotado, revolucionário e cheio de “verdades” para falar. O pau quebrava.

 

Depois de uma ou duas horas, cansados de brigar e satisfeitos por ouvirem a própria voz, todos continuavam a discussão, mas agora num diálogo mais ameno refrescado por um excelente chopp dos bares à volta, sempre muito bem tirados, como só no Rio de Janeiro.

 

Mantínhamos constantes reuniões noturnas nesses apartamentos. Ali estudávamos, líamos os clássicos do marxismo-leninismo fazíamos seminários que iam da Revolução Francesa à Guerra do Vietnã, passando por Rosa Luxemburgo, Revolução Russa de 17, a chinesa de 1949 e a Cultural de 1966, ainda recente. Sem falar na nossa preferida, por ser latino-americana, a de Cuba de poucos anos antes.

 

Eram vários grupos quase todos originários do antigo PCB – Partido Comunista Brasileiro. Inúmeras facções resultado de rachas contrários à estratégia legalista do PCB, e que vieram a se tornar embriões de novas organizações revolucionárias responsáveis pelas tentativas, todas derrotadas, de luta armada, rural e urbana dos anos seguintes.

 

Sentíamo-nos, e assim nos denominávamos, a vanguarda revolucionária do país e da América Latina. Já agíamos como se estivéssemos na clandestinidade, e cada apartamento de estudante fosse um “aparelho”.

 

É claro que com meus 18 anos, completados em março de 67, e a prepotência natural dessa idade, tinha todas as respostas e soluções para a derrubada da ditadura, e me dedicava única e exclusivamente a isso.

 

Morando em Niterói, naquela época sem ponte e sem ônibus diretos para o Rio, dependia de lentas barcas para cruzar a baia da Guanabara, mas a Revolução não podia esperar. 

 

Com tantas atividades político-etílico-intelectuais ficava difícil ir a Niterói,  então dormia por favor em apartamentos de colegas e ia em casa a cada dois ou três dias para trocar de roupa, dar um beijo e acalmar o coraçãozinho preocupado de minha mãe. 


É claro que não dava para estudar para o difícil primeiro ano da Engenharia, não sei como, mas passei de ano ficando reprovado em duas matérias, que naquela época chamavam de “dependência”, ou seja, o aluno teria que no ano seguinte cursar todas as novas matérias mais aquelas que não tinha passado no ano anterior. 

 

Mas o ano seguinte foi 1968, como já disseram “o ano que não acabou”...






 

sexta-feira, 30 de outubro de 2020

Minha Versão - Capítulo 07 - Comícios relâmpagos, as pichações, comícios nos trens da Central do Brasil.

 Comícios relâmpagos, as pichações, comícios nos trens da Central do Brasil.

 

Os comícios-relâmpago estavam cada vez mais constantes, a ponto de as pessoas que trabalhavam no centro do Rio e circulavam pela Av. Rio Branco estarem se acostumando e algumas participando, com intervenções, depoimentos e até algum discurso não programado.

 

Na hora do almoço e no fim do expediente, as calçadas se enchiam de gente já como é hoje, e ficava até difícil de circular. Isso dificultava sobremaneira a atuação da polícia que não podia identificar os “subversivos” no meio da multidão, a não ser pelas barbas e longos cabelos que usávamos a lá Che Guevara. Mas isso não era motivo para prender ninguém.

 

Os comícios-relâmpago não tinham maior convocação, apenas para os militantes que iriam falar, fazer a claque ou a segurança.

Já para as passeatas médias ou grandes, havia uma intensa convocação.

Além dos comícios, pichações e discursos nos ônibus e trens.

 

Pichávamos em toda parte, mas talvez ineficientemente, porque nas ruas com menos movimento, onde não passava a polícia. Saíamos de noite em grupos de três com nossos bastões. Enquanto um pichava o muro, os outros dois (seguranças) observavam as esquinas próximas para dar o alarme caso aparecesse algum carro da polícia.

 

Na época não existiam os práticos sprays de tinta, tínhamos que fabricar nossos próprios “bastões”. 

Receita: dissolve-se sebo de gado num tacho, agrega-se graxa de sapato preta, com a mistura ainda quente e derretida enche-se o rolo de papelão interno ao papel higiênico. Depois de frio, fica como um grande e grosso lápis de cera. Com isso, as pichações eram sempre em preto e branco.

 

E as palavras de ordem variavam sempre entre “Abaixo a Ditadura” e “Fora o Imperialismo”. Depois importaram-se da França, do famoso maio de 68, algumas consignas anarquistas ou simplesmente Hippies.

 

A nossa esquerda não gostava de hippies ou de anarquistas, mas alguns porra-loucas infiltrados e altamente intelectualizados, colocavam nas paredes, em panfletos ou na “Imprensa Nanica” frases como:

 

“Abaixo a sociedade de consumo." 
"Abaixo o realismo socialista. Viva o surrealismo." 
"O agressor não é aquele que se revolta, mas aquele que reprime." 
"Amem-se uns aos outros." 
"O álcool mata. Tomem LSD." 
"Parem o mundo, eu quero descer." 
"A arte está morta. Nem Godard poderá impedir." 
"Antes de escrever, aprenda a pensar." 
"A barricada fecha a rua, mas abre a via." 
"Ceder um pouco é capitular muito." 
"10 horas de prazer já." 
"Proibido não colar cartazes." 
"A economia está ferida, pois que morra!" 
"A emancipação do homem será total ou não será." 
"O estado é cada um de nós." 
"A imaginação toma o poder." 
"A insolência é a nova arma revolucionária." 
"É proibido proibir." 
"Eu gozo." 
"A mercadoria é o ópio do povo." 
"As paredes têm ouvidos. Seus ouvidos têm paredes." 
"Nós somos todos judeus alemães." 
"A novidade é revolucionária, a verdade, também." 
"Fim da liberdade aos inimigos da liberdade." 
"O patrão precisa de ti, tu não precisas do patrão." 
"Professores, vocês nos fazem envelhecer." 
"Quanto mais eu faço amor, mais tenho vontade de fazer a revolução. Quanto mais faço a revolução, mais tenho vontade de fazer amor." 
"A poesia está na rua." 
"A política se dá na rua." 
"Os sindicatos são uns bordéis." 
"O sonho é realidade." 
"Só a verdade é revolucionária." 
"Sejam realistas, exijam o impossível." 
"Abolição da sociedade de classes." 
"Abram as janelas do seu coração." 
"A arte está morta, não consumamos o seu cadáver. " 
"Autogestão da vida cotidiana" 
"A felicidade é uma ideia nova." 
"Teremos um bom mestre desde que cada um seja o seu." 
"Camaradas, o amor também se faz na Faculdade de Ciências." 
"Ainda não acabou!" 
"Consuma mais, viva menos." 
"O discurso é contra-revolucionário. " 
"Escrevam por toda a parte!" 
"Abraça o teu amor sem largar a tua arma." 
"Enraiveçam-se!"
"Um homem não é estupido ou inteligente: ele é livre ou não é." 
"Adoro escrever nas paredes." 
"Decretado o estado de felicidade permanente." 
"Milionários de todos os países, unam-se, o vento está mudando." 
"Não tomem o elevador, tomem o poder." 

 

Dentro dos ônibus e dos trens, entrávamos em grupos de três. Um falava e os outros dois faziam a “segurança”.

Uma vez fui destacado para fazer discursos nos trens da Central do Brasil contra a ditadura e convocando para uma passeata.

 

Foi marcado um “ponto” dentro da bela estação da Central onde eu deveria encontrar meus seguranças. 

Cheguei na hora certa e fiquei procurando dois “quadros” que deveriam ter com uma determinada revista debaixo do braço.

Achei um casal com pinta de estudantes mas não acreditei que seriam meus seguranças, mas estavam com a descrição certa, a revista certa e fizeram contato comigo.

 

A companheira era uma gordinha de 1,50m da Faculdade de Direito da UEG e seu companheiro era um moleque magrinho e asmático que devia pesar uns 50 kg.

Nessa concepção foquista do movimento, todos se viam como guerrilheiros prontos para pegar em armas, e não se discriminava ninguém para uma tarefa mesmo sendo uma baixinha e um asmático.

 

Fomos.

 

Pegávamos vagões lotados de trabalhadores que vinham dos subúrbios para trabalhar no centro. Todo mundo apertado, em pé, com sono, mal humorados.

Todo mundo tinha medo de qualquer atividade política, mais ainda de discurso falando abertamente da ditadura, censura, tortura, etc.

 

A tática era esperar o ponto da viagem onde faltassem dois a cinco minutos para a próxima estação. Então meus “Seguranças” ficavam ao meu lado, eu pedia licença para um passageiro sentado, colocava o pé no banco, me pendurava nos balaústres e deitava discurso: 

 

“O movimento estudantil está promovendo manifestações contra a Ditadura, mas só teremos realmente sucesso na derrubada da Ditadura e implantação de uma sociedade mais justa, socialista, se vocês operários participarem. Só o proletariado unido pode derrubar a ditadura e expulsar o imperialismo. Dia tal, às tantas horas, participe da passeata na rua tal, ou apoiem a greve da categoria de tal categoria.”

 

Esse era mais ou menos o conteúdo dos discursos de sempre.

A ação só poderia durar no máximo 5 minutos até a chegada na próxima estação. Chegando, assim que abria a porta do vagão, pulávamos rapidamente na plataforma procurando desaparecer na multidão o mais rápido possível e esperar o próximo trem.

 

O maior risco que corríamos era ter um policial, um militar ou um direitista fanático no vagão, que inventasse nos prender ou agredir,  mas confiávamos no aperto do vagão, que impedia alguém se movimentar pelo corredor.

 

E além disso eu tinha minha “poderosa” segurança.