sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

Minha Versão - Capítulo 15 - A viagem de volta para o Rio – o “Merdel”.

  

A viagem de volta para o Rio – o “Merdel”.

 

A porta da cela se abriu, apareceram alguns carcereiros e começaram a chamar um lista de nomes, o meu entre eles.

 

Disseram que seríamos transferidos, mas nenhuma informação sobre o critério da chamada.

 

Lembro que senti nitidamente duas emoções fortes, alívio de sair daquela “lata de sardinha” e pavor em pensar que seria “desaparecido” ou torturado.

 

Juntaram umas dezenas num hall na entrada do presídio. Não podíamos conversar, sob ameaça de porrada. Só depois de colocados nos camburões, caminhões fechados para transporte de presos, pudemos nos identificar. Éramos todos do Estado da Guanabara. Deduzimos: ou estão nos enviando para o Rio de Janeiro, ou não gostam de cariocas. 

 

Uma coisa era certa, não iriam nos soltar, pois não tinha sentido colocarem todos em camburões, transportarem para algum lugar e abrir as portas.

 

Depois de uma longa viagem, quando pensamos que estávamos indo  amontoados como bois em caminhões de gado até o Rio, o caminhão parou. Gritos do lado de fora ordenava que saíssemos com as mãos na cabeça. 

 

Era uma noite escura, e lembrei de filmes da segunda guerra, quando judeus eram tirados dos vagões dos trens de transporte para serem, ou fuzilados na hora, ou enviados para uma Auschwitz.

 

Estávamos numa pista de aeroporto, e um avião grande da Força Aérea, estacionado ao lados dos vários  caminhões que iam chegando, nos aguardava. Pensei logo nas contradições da minha existência. Ou estava voltando confortavelmente de avião para a Cidade Maravilhosa, ou seria, aos dezenove aninhos, jogado no Oceano Atlântico, como o famoso serviço secreto da Marinha, o CENIMAR e outras ditaduras latino-americanas costumavam fazer com seus opositores.

 

Em fila indiana fomos entrando no avião, agentes em trajes civis, armados de pistolas automáticas ou sub-metralhadoras nos amarravam as mãos com os cintos de segurança das poltronas.

 

Durante o embarque, e depois de sentados em nossos lugares, os agentes provocavam:

 

“Vocês acham que vão pra casa? Vamos jogar todo mundo no mar”.

“Quem sabe nadar, aí, fala que vai primeiro”.

“Quem levantar da cadeira leva um tiro”.

 

Andavam pelo corredor gritando e mostrando suas armas, num prazer imenso, sádico, olhos inchados, cabelos despenteados, roupas decompostas.

 

Tudo isso falavam em meio a risos, gargalhadas. Pareciam transtornados de prazer. Morríamos de medo, as meninas esqueciam a dureza da militância e choravam.

 

O ambiente começou a ficar muito tenso, choros, desesperos e alguns protestos daqueles mais corajosos.

 

Um soldado da Aeronáutica fecha a porta e o frisson aumenta mais ainda.

Abre-se a porta da cabine e sai um oficial fardado. Pede silêncio e fala:

 

“Acalmem-se por favor. Ninguém será jogado no mar, é mentira desses policiais. Esta é uma aeronave da Força Aérea Brasileira, e eu sou o comandante. Sou a autoridade máxima aqui, e ordeno aos policiais que desengatilhem, travem e guardem suas armas. Estamos num ambiente pressurizado, um tiro disparado aqui e morremos todos. Estamos indo para a Base Aérea do Galeão e aqui os senhores serão bem tratados.”

 

Não podíamos aplaudir porque tínhamos as mãos atadas, mas começamos a estalar os dedos, como num aplauso.

 

Até hoje me emociono quando relembro a fala daquele Capitão. Ele mostrou que existe gente boa, honesta e humana nas Forças Armadas, diferente dos facínoras que nos foram buscar.

 

Relaxei e aproveitei a viagem para descansar, há tempo não sentava numa poltrona confortável.

 

Decolagem e aterrisagem tranquilas, chegando no Galeão, com raiva redobrada pelo discurso do Capitão, os policiais fizeram um “corredor polonês” da escada do avião até a porta do camburão. Com grandes cassetetes distribuíam porrada em quem passava, homens, mulheres, democraticamente, sem discriminação. O Corredor Polonês  tinha uns 20 metros, e passávamos correndo evitando ao máximo as cassetadas.

 

Todos dentro do caminhão, aliviados, um certo burburinho alegre. Afinal havíamos apanhado muito pouco e iríamos sobreviver, não gastariam numa viagem tão cara para nos matar depois. 

 

Já madrugada chegamos num quartel da Cavalaria da Polícia Militar do então Estado da Guanabara. Não consigo mais localizá-lo, mas ficava perto da Lapa. Desembarcamos, fomos reunidos na entrada do Quartel, no Corpo da Guarda.

 

Uns sargentos fizeram a contagem e quando verificaram que não faltava ninguém, olharam para o tenente que estava de Oficial de Dia como que perguntando o que fazer conosco. O tenente gritou: “leva pro Merdel”.

 

O local era um picadeiro onde se treinava cavalos e cavaleiros. Quase um ginásio redondo, com o solo de barro, coberto de palha que escondia a merda dos cavalos, daí o carinhoso nome “Merdel”.

 

Fomos informados que passaríamos o resto da noite ali. Tratamos cada um de juntar uma braçada de palha para fazer uma cama, evitando as bostas dos cavalos que ali estiveram durante o dia.





 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

sábado, 19 de dezembro de 2020

Minha Versão - Capítulo 14 - A prisão - Caiu Ibiúna - Ônibus para o presídio Tiradentes

 A prisão – Caiu Ibiúna – Ônibus para o presídio Tiradentes.

 

O sábado amanheceu ainda nublado, mas sem chuva. 

 

Aos poucos fomos saindo do galpão enrolados em nossos cobertores, pois fazia frio e o sol não parecia querer dar as caras.

 

Filas no “chiqueiro” para o café da manhã, no anfiteatro para mostrar as credenciais e encontrar um bom lugar e fila atrás do morrinho onde tínhamos construídos banheiros com buracos no chão, tábuas e lonas.

 

Eu tinha recém recebido meu pão com manteiga e café e me dirigia para o anfiteatro quando vi um movimento estranho no alto dos morros à volta. 

 

Na crista de todos os morros, uma linha de soldados da Força Pública, como era conhecida a Polícia Militar de São Paulo, armados com metralhadoras descia em nossa direção.

 

Rapidamente fomos cercados e amontoados como uma boiada. 

Nos ordenaram que ficássemos em fila indiana e polícias à paisana, provavelmente do DOPS, percorriam as filas procurando as lideranças. Vladimir Palmeira, Luis Travassos, José Dirceu, Franklin Martins e outros foram logo identificados, separados da “boiada” e levados para viaturas próximas. 

 

Perdi contato com a Eliane, ela tinha ido ao banheiro bem na hora da invasão e nos perdemos. Fiquei preocupado, pois os policiais estavam muito nervosos. Esperavam encontrar resistência armada e acharam um bando de jovens armados apenas com seu idealismo, rebeldia e desprendimento, mas agora já abatidos pelo frio, pela fome e também pelo medo de estar cercado por metralhadoras portáteis.

 

Em fila, com os cobertores nos ombros e os pés cheios de lama caminhamos alguns quilômetros por uma estrada de terra até encontrarmos vários ônibus e caminhões que nos esperavam.



 


Éramos enfiados nos transportes sem nenhum critério. Íamos chegando e entrando. Entupiram os ônibus como numa lata de sardinha. Em cada ônibus iam também uns três ou quatro soldados, que não entendiam o que estava acontecendo.

 

Demoramos uma ou duas horas para partir, só saiu o cortejo depois que os 700 estavam embarcados. A saída dos ônibus foi quase um alívio, pois significava que não iam nos fuzilar ou coisa parecida. No caminho voltamos a nos animar, gritar algumas palavras de ordem e cantar canções de resistência. Os soldados nada entendiam e nada podiam fazer sem a presença de seus superiores que pudessem instruí-los. Eram jovens como nós, sem noção, só que com um capacete de guerra e uma submetralhadora.




 

Era um sábado e nos levavam para o Presídio Tiradentes, hoje demolido. No caminho gritávamos para a população o que estava acontecendo, tipo 

“Caiu o XXX Congresso da UNE” , 

“Somos estudantes, estamos sendo presos por defender a democracia”, “Abaixo a Ditadura”,

“Fora o Imperialismo”,

“Avisem a imprensa”.

 

Na chegada ao presídio já havia alguma imprensa registrando a prisão. No caminho entre o ônibus e o presídio, tentávamos contato com gritos, mas os soldados nos empurravam.

 

Fomos instalados no segundo andar. Um corredor largo com muitas celas. Ficamos uns 30 a 40 por cela. Não cabiam todos deitados no chão ao mesmo tempo, então era preciso outra vez revezamento para dormir. A comida vinha duas vezes por dia e era uma pasta difícil de identificar o que tinha dentro. Era servida em potes de plástico sem talher. Tínhamos que comer com os dedos. Alguém inventou de usar a carteira de identidade como colher, e foi seguido por quase todos.

 

Os presos comuns ficavam no térreo, talvez em situação pior que a nossa, presos políticos, e tentavam estabelecer contato. Algumas lideranças que ficaram em celas próximas aos “comuns” não perderam tempo e fizeram longa doutrinação por dias seguidos. Dizem que foi a partir desse contato inicial no presídio Tiradentes que as facções organizadas do crime começaram a se estruturar como verdadeiras guerrilhas, com hierarquia, disciplina, assistência própria, etc. 

 

Diz-se que daí  teria surgido o Comando Vermelho, dedicado ao crime, mas com algum discurso anti-ditadura e libertário, como o próprio nome sugere. 

 

Não me lembro quantos dias ficamos ali jogados, talvez uma semana. Aos poucos foram nos catalogando e organizando por universidade e estado de origem. Éramos levados em grupos ao DOPS para sermos identificados, fotografados, tiradas impressões digitais e prestados depoimentos sobre o que fazíamos em Ibiúna.

 

Com o objetivo de saber onde estavam os líderes separados dos demais, iniciamos uma greve de fome, que era também para protestar pelas péssimas condições da nossa prisão. Tínhamos medo de que houvessem “desaparecido” com Vladimir, Travassos, Zé Dirceu.

 

Foram dois dias de greve até que começamos a ser removidos e enviados de volta para nossos estados, só que não diziam que estávamos sendo despachados para casa, e cada turma que saía temíamos pela sua segurança.






sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

Minha Versão - Capítulo 13 - A Construção do Anfiteatro

 A construção do Anfiteatro.

 

O sítio Murundú de noite com chuva intensa, muita lama, com caras desconhecidas e todas assustadas, sejam as que já estavam lá, ou as que chegavam, era muito sinistro.

 

Fomos levados para um galpão onde havia umas duas dezenas de estudantes, todos desconhecidos. Ali recebemos um café preto, um pão e as primeiras instruções.

 

Não me lembro mais se ainda era terça-feira ou já estávamos no dia seguinte. Um dos que nos tinha ido buscar na floresta de pinheiros explicou que todos que lá estavam até aquele momento faziam parte da comissão que iria montar a infraestrutura do congresso que começaria no sábado.

 

Os alunos de engenharia, como eu, iam trabalhar na construção/adaptação das instalações. O pessoal de medicina e enfermagem, montar um pequeno posto para atendimento de emergências, tinha gente para montar a cozinha e planejar a alimentação, etc.

 

Ao fundo do galpão, pilhas de tatames. Cada um pegou um e tratou de descansar.

 

Quarta-feira a chuva continuava impiedosa. O sítio só tinha mesmo o galpão e uma outra pequena cobertura que havia sido um chiqueiro, já há algum tempo desativado. O projeto era instalar no chiqueiro a cozinha, e dormirmos todos naquele mesmo galpão.

 

Precisávamos construir a “plenária”. Em frente ao chiqueiro, um pouco mais abaixo do galpão havia um morro, pequeno, mas suficiente para abrigar todos os delegados que chegariam para as assembléias. 

 

A nossa “engenharia” consistia em cortar, com pá e enxada o morro em grandes degraus que serviriam de arquibancadas. Devido às chuvas incessantes, construímos uma cobertura de lona e forramos o chão também com lona plástica. Durante o congresso, ficou proibido entrar com sapatos na lona, para não trazer a lama abundante do caminho. Isso depois resultou num dos episódios mais bizarros do evento, pois na entrada do anfiteatro ficavam todos os calçados, e quando chegou a polícia, saímos correndo calçando qualquer sapato que servisse, pois na pressa não era possível cada um encontrar o seu par.

 

Foram dois dias trabalhando no anfiteatro, muito cansados, poucos estavam acostumados a trabalhos braçais, e a enxada deixara calos e bolhas em nossas mãos. 

Três filas diárias no “chiqueiro” para receber a comida, café da manhã, “almoço e jantar”, e sentar no chão para comer a gororoba.

 

Na sexta-feira cedo começaram a chegar os delegados, o sítio foi enchendo. Seguiu-se um longo e burocrático processo de credenciamento dos delegados. 

 

Esse credenciamento era fundamental para os diversos partidos e organizações presentes, pois cada voto seria importante na eleição da diretoria da UNE e definição da linha e estratégia política do movimento.

Chegou tanta gente que o galpão se tornou pequeno para dormirem todos, mesmo colados uns aos outros.

 

Como não cabiam todos deitados ao mesmo tempo no galpão, foram feitos turnos de quatro horas para dormir. Você dormia 4 horas e saia para o frio e a chuva a procurar um lugar no “anfiteatro”.

 

Na sexta-feira mesmo iniciaram-se as preliminares para o congresso que começaria no dia seguinte, as discussões eram intermináveis. Discutia-se ainda como seria o processo de discussão, as eleições etc.

 

Na sexta-feira com os demais delegados da UFF – Universidade Federal Fluminense, chegou Eliane, minha namorada de Niterói com quem eu iria me casar quatro meses depois. Pelo menos nessa noite conseguimos dormir mais aquecidos, compartindo o mesmo cobertor.




 

sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

Minha Versão - Capítulo 12 - A viagem. São Paulo, um dois, feijão com arroz

 A viagem. São Paulo, um dois, feijão com arroz  

Na segunda feira, 7 de outubro de 1968 véspera da viagem, alguém com cara de estudante,  desconhecido, me passou um bilhete em pleno restaurante da faculdade.

 

O bilhete: “Dia 8, terça – 19 horas – Rodoviária – balcão Viação Cometa – loira de jeans e revista Veja debaixo do braço esquerdo”.

 

Era minha senha e meu ponto para viajar para o XXX Congresso da UNE, que eu ainda não sabia onde seria. 

 

Facilmente distingui a loira oxigenadíssima (com certeza era disfarce) que me esperava com uma passagem Rio-São Paulo na mão. Às 22 horas partiu o “Flecha de Prata” ônibus prateado, Mercedes Monobloco da Viação Cometa. Eu adorava esse modelo, nessa época muito comum nos filmes americanos em viagens interestaduais. Quando estava na Escola Preparatória de Cadetes de Campinas, uma vez por mês pegava um desses para vir a Niterói ver meus pais.

 

A loira me entregou outro bilhete e me pediu o anterior que rasgou na hora. Dizia: “Esquina Aurora com Arouche 18 horas – casal com casaco de couro no braço esquerdo”. Naquela época, a viagem durava 8 a 9 horas. Imaginei que ficaria à toa no centro de São Paulo por horas, então relaxei, tinha muito tempo pela frente para perambular, e eu sempre gostei de momentos assim, sem compromisso com nada, passeando sem destino, apenas comigo mesmo.

 

A Rodoviária de São Paulo ficava bem perto da Estação da Luz, na chamada “Boca do Lixo”. Depois de um café e um cigarro, sai passeando. A linda Estação da Luz, com seus ares das Gares Parisienses, a Avenida Ipiranga, Praça da República, Largo do Arouche, e finalmente a Rua Aurora. Nela ficavam vários cinemas que já em decadência passavam apenas porno  chanchadas brasileiras, com direito a um striptease ao vivo entre seções, durante toda a tarde. A barra era muito pesada para que eu pensasse em entrar.

 

Já cansado, faminto, e com pouco dinheiro, cheguei às 18 horas no “ponto” indicado no bilhete da loira da rodoviária, que disse se chamar Beth, mas é claro que era codinome. Na época brincávamos com a clandestinidade e todos já tinham um codinome.

 

O casal, muito simpático, com forte sotaque do interior paulista, me informou que às 21 passaria um carro para me buscar no restaurante “Um Dois Feijão com Arroz”, ali mesmo na rua Aurora, e me ofereceram um jantar.

 

Não sei se a fome, o cansaço, ou a ansiedade da tensão de poder ser descoberto e preso durante a viagem, acalmados por encontrar alguém em quem confiar, num lugar confortável, fizeram desse jantar, um dos melhores da minha vida. Até hoje me lembro do Virado à Paulista com Tutu de Feijão e ovo frito. Uma maravilha.

 

Depois que fomos presos em Ibiúna pelo crime da fazer um congresso, 612 estudantes foram processados pela Justiça Militar de São Paulo, cujo tribunal era na Avenida Brigadeiro Luís Antônio, e tínhamos que comparecer para uma audiência a cada dois meses que era sempre adiada. 

 

Nos próximos 3 anos, 1969 a 1971, vários amigos processados vínhamos do Rio à Sampa em confortável trem noturno, bebendo e jogando no belo vagão restaurante. Eu sempre fazia questão de jantar antes da viagem de volta no saudoso “Um Dois Feijão com Arroz” da Rua Aurora. A viagem levava 12 horas e custava o mesmo que o ônibus. Só deixei de fazer essa viagem em 71 quando finalmente tive que me exilar no Chile com o processo ainda em andamento. Mas isso serão outros capítulos.

 

Pontualmente, ou quase, pára na porta do restaurante um DKW Vemag. O casal entra comigo e partimos. Volta a tensão. Depois de umas quadras, o carro para, o casal salta e eu fico só no banco traseiro, na frente dois homens com cara de poucos amigos.

 

Chovia, pensei comigo, garoa paulista, terra da garoa, etc. Ledo engano, a chuva foi engrossando cada vez mais, e só parou no sábado, quando estávamos todos presos a caminho do Presídio Tiradentes, apinhados em ônibus nem tão confortáveis assim.

Mais alguma quadras, o DKW para numa esquina com 4 jovens. Dois entram e me apertam no banco traseiro. Já estão molhados da chuva que não dava trégua.

 

Seguimos sem trocar uma palavra por mais de uma hora. Lembro apenas de uma rodovia, depois uma estradinha asfaltada, outra de terra, e chegando ao lado de uma floresta de pinheiros o carro para e o motorista diz para entrarmos na floresta que há uma lona onde devemos ficar. 

 

Ficamos apreensivos, e um dos meus companheiros de banco pergunta se é isso mesmo, se o motorista tem certeza que era ali, pois com o breu da noite e a chuva constante, não víamos nenhuma tenda, ou algo parecido. O motorista insiste: “dez a vinte metros para dentro da floresta tem uma cobertura de lona onde estão nos esperando”, e diz que não pode esperar porque tem que buscar mais gente em São Paulo. Saímos protestando. Depois do longo silêncio da viagem, as primeiras palavras do meus companheiros de banco denunciam um sotaque nordestino.

 

Depois de uns minutos de caminhada pela floresta, que na verdade era uma plantação de pinos, e por isso fácil de andar, encontramos uma enorme lona entendida, presa às árvores, formando como uma grande tenda.

 

Sob a tenda, haviam umas vinte pessoas. Entramos numa fila que aguardava o transporte final para o local do congresso. Éramos levados aos poucos numa Van que ia e voltava.

 

As horas passavam sob a lona, de forma tão lenta, tão escura e tão molhada que  perdi a noção do tempo. Portanto, não sei quando chegou a minha vez e dos companheiros de banco traseiro. Enquanto isso, chegavam mais estudantes, no DKV e outros carros particulares. A tenda se enchia cada vez mais.

 

Finalmente nos mandaram embarcar numa VAN. Alguns minutos num trajeto de terra esburacada e já cheio de lama, chegamos. Uma porteira com dois sentinelas. Notei meio perplexo que estavam armados. Ai “caiu a ficha”, os caras estavam brincando, treinando ou propagandeando para os delegados a guerra de guerrilha. Na hora pensei “esse negócio vai dar merda”. E deu.






 

 

 

 

 

 

domingo, 29 de novembro de 2020

Minha Versão - Capítulo 11 - A articulação para Ibiúna - amostra da concepção “foquista”e seu futuro fracasso.

 A articulação para Ibiúna – amostra da concepção “foquista” e seu futuro fracasso. 

 

Com o sucesso dos movimentos que culminaram na passeata dos 100.000, o movimento estudantil resolveu levar à frente o projeto do Trigésimo Congresso da UNE, apesar da entidade estar proibida de funcionar e menos ainda de fazer um congresso reunindo centenas de estudantes de todo o Brasil.

 

Viriam representantes de todos os diretórios de todas as faculdades e DCEs de todas as universidades. É claro que aquelas “de direita” que concordavam com o governo, não participariam.

 

Havia duas correntes para organizar o congresso.  

Uma pensava fazer num grande Campus, como o da então “Universidade do Brasil”, depois Universidade Federal do Rio de Janeiro na praia da Urca, Rio de Janeiro. Seria um congresso aberto e divulgado, e assim esperava-se que o apoio da imprensa e da sociedade, apoio que vinha crescendo desde a morte de Edson Luis, impedisse uma repressão que acabasse com o congresso, mesmo que proibido. Seria um ato de desobediência, como foi a passeata dos 100.000.

 

Outra corrente, de concepção mais “foquista” entendeu de fazer um congresso “clandestino” num sítio ou fazenda, secretamente, de forma que a repressão não se inteirasse dos acontecimentos.

 

Hoje, concordaria com a primeira corrente, mas na época eu já estava muito convencido da necessidade da luta armada, de enfrentar militarmente a ditadura nas cidades e nos campos.

 

Venceu a concepção foquista. Parecia que estavam entusiasmados com o evento, que seria, digamos, uma prévia das guerrilhas rurais que explodiriam alguns anos depois.

 

 As lideranças começaram a se reunir secretamente com representantes dos principais DCEs de todo o país.

E começou a organização do evento, que teria mais de 600 delegados.

Era na USP onde os diretórios tinham melhor organização e infra-estrutura, e eles começaram a conceber e montar a logística necessária.

 

Como esconder, alimentar, fornecer local para dormida, apoio médico, para centenas de pessoas, num sítio perto de alguma cidade do interior, sem levantar suspeitas?

 

Foi escolhido e alugado um sítio a poucos quilômetros da pequena cidade de Ibiúna, no Estado de São Paulo. Naquela época, Ibiúna não passava de um povoado típico. Uma pracinha, igreja, e algumas casas.

 

Primeiro foi o trabalho de eleger os representantes de cada faculdade. Durante esse processo, o local era mantido em sigilo, ou seja, os delegados eram escolhidos para um congresso que não se sabia onde nem quando, apenas sabendo que era proibido e poderia trazer sérias consequências individuais.

 

Depois foi a montagem da logística necessária para deslocamento dos mais de 600 delegados eleitos. Era um grande esquema de viagens, senhas, pontos, encontros, dormidas, caronas, refeições, pois viriam delegados de longe, sem saber seu destino final, onde dormir ou comer.

 

Cada faculdade mandaria pelo menos um representante, alem das diretorias das associações estudantis e DCEs. As várias organizações e partidos lutavam para tentar indicar o maior número de delegados para votar as resoluções e eleger a nova Diretoria da UNE.

 

Vinha gente do Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sul e Sudeste. Uma Babel de concepções políticas, sotaques, costumes, etc. E tudo isso no ano de 1968, quando se contestava tudo, religião, casamento, sexo livre, feminismo, liberação de drogas (principalmente maconha). Era um congresso estudantil com jeito do festival de música, um precursor do que seria Woodstock no ano seguinte.

 

Só que no Brasil, debaixo de uma raivosa e violenta ditadura, agora acossada pelos diversos movimentos populares que a contestavam.

 

Há alguns anos atrás, minha filha tomou conhecimento de como foi o Congresso de Ibiúna, como ficou conhecido, nas páginas dos jornais e revistas da época e me perguntou:

 

— Como vocês conseguiram montar um evento secreto desse porte para 600 pessoas de todo o Brasil sem telefone celular e sem Internet?

 

Realmente não sei como, e não consegui responder, mas a nossa ilusão quase adolescente de que seria secreto, foi só mesmo uma ilusão, como veremos nos próximos capítulos. 

 

Plim-plim.






 

 

 

sexta-feira, 20 de novembro de 2020

Minha Versão - Capítulo 10 - A passeata dos 100.000 - convocação nas fábricas, trens, escolas.

 A passeata dos 100.000 – convocação nas fábricas, trens, escolas

 

No dia seguinte ao golpe militar de 1964, a ditadura mandara incendiar o lindo prédio da praia do Flamengo onde funcionava a UNE – União Nacional dos Estudantes. Assim iniciou um longo período de repressão ao Movimento Estudantil.

 

Ali funcionava um restaurante com refeições baratas para estudantes de baixa renda. Eram na sua grande maioria secundaristas oriundos das mais diversas partes do país que vinham estudar e trabalhar no Rio de Janeiro.

 

Com o incêndio, o restaurante foi transferido para um antigo prédio situado ao lado do Aeroporto Santos Dumont, onde além do restaurante funcionava também um teatro e uma policlínica. Apesar de pertencer ao Ministério da Educação, o prédio era administrado pela UME – União Metropolitana de Estudantes. O prédio era conhecido por ter abrigado uma antiga prisão de escravos, e por isso era chamado de “Calabouço”.

 

Com a grande concentração de estudantes, o Calabouço tornou-se um ponto de organização e agitação do Movimento Estudantil, e ali ocorriam constantes manifestações com violentas reações policiais. 

 

Em 1967 iria se realizar no Museu de Arte Moderna do aterro do Flamengo, próximo ao Calabouço, uma reunião do FMI – Fundo Monetário Internacional, para nós um símbolo da dominação do imperialismo. Então o  governador do Estado da Guanabara, Negrão de Lima anunciou a demolição do Calabouço com o pretexto de urbanizar a área. Foi o estopim para uma série de manifestações.

 

No dia 28/03/1968, me lembro porque foi no dia seguinte ao  meu aniversário de 19 anos, uma tropa invadiu o calabouço para reprimir uma passeata que se iniciava, e um aspirante da polícia militar, com um tiro à queima roupa, matou o estudante Edson Luis. Outras seis pessoas também foram baleados, sendo que um deles morreu no hospital.

 

Com medo de que a polícia sumisse com o corpo, os estudantes o levaram em passeata até a Câmara de Vereadores do Município, onde foi velado após a autópsia feita ali mesmo.

 

Na passeata gritava-se “Mataram um estudante, podia ser seu filho”, “Bala não mata fome”,  e se exibía o corpo de Edson Luiz. Um menino franzino, vindo do Pará, que cursava o segundo grau numa escola pública e comia no Calabouço.

 

 


 

A repercussão foi tão grande, que a censura não conseguiu abafar, e no dia seguinte todos os jornais noticiavam a morte de Edson Luis, como na foto acima de autoria de fotógrafo do Correio da Manhã.

 

Até o dia da missa de sétimo dia em 2 de abril na Catedral da Candelária, estouraram protestos e gestos de solidariedade em todo país. Artistas, intelectuais, jornalistas, movimentaram-se em protesto contra um assassinato tão brutal. A música “Coração de Estudante” de Milton Nascimento e Wagner Tiso refere-se a Edson Luis.

 

Na missa, a catedral estava lotada, e não mais só por estudantes, representantes de toda sociedade, políticos, sindicalistas, artistas, estavam presentes. Ao final, a cavalaria cercou a igreja e quem saísse certamente seria preso. Foi aí que os vários padres presentes formaram um corredor na porta para permitir que saíssemos em liberdade, mas não foi suficiente, várias pessoas foram presas.

 

Depois dos acontecimentos de março/abril, o sentimento de revolta, de indignação com a violência e os métodos autoritários da ditadura estava generalizado, principalmente na classe média e meios intelectuais. 

 

O movimento de repúdio aumentava, e nós estudantes aproveitávamos a onda crescente e partiamos para levar adiante um grande movimento de protesto pela derrubada da ditadura, que culminou em junho na “Passeata dos Cem Mil”

 

Agora com apoio ainda insipiente de movimentos sindicais, partimos para a luta aberta. Começamos a propagandear a necessidade de uma Greve Geral de estudantes e trabalhadores que parasse o país. Com a experiência adquirida nos anos anteriores, iniciamos a convocação, retomando comícios relâmpagos, pichações e panfletagens, nas escolas, universidades e em portas de fábrica. 

 

Foi convocada para dia 26 de junho uma grande passeata para percorrer a Avenida Rio Branco, da Praça Mauá até a Cinelândia. Foi uma festa da democracia, o povo acorreu em massa. Milhares de pessoas tomaram a avenida que agora era do povo, e a polícia não tinha mais como intervir. Não era mais um movimento de estudantes, mas o protesto forte e consistente de toda a sociedade.

 

Foi a famosa “Passeata dos Cem Mil” que ficou na história da democracia brasileira. O povo marchou pacificamente por toda a avenida, ocupando todos os espaços, de calçada a calçada. 

 

O sucesso foi tão grande e definitivo como nem os organizadores imaginavam. No fim da caminhada, em frente ao Teatro Municipal a multidão aplaudia os discursos que se sucediam, principalmente dos estudantes, como o de Wladmir Palmeiras da foto abaixo, também do Correio da Manhã.




 

 Nós havíamos vencido uma batalha, mas a guerra seria longa. O ar de democratização que se respirava prosseguiu até 13 de dezembro quando a ditadura militar sentindo que perderia o controle, editou o Ato Institucional número 5, acabando de vez com o que restava de liberdades democráticas, fechando o Congresso Nacional, censurando abertamente a imprensa e prendendo qualquer opositor que pudesse vir a se manifestar contra.


 

sábado, 14 de novembro de 2020

Minha Versão - Capítulo 09 - O DCE livre e a inauguração da “Estátua da Liberdade”, quando eu quase morri na rua em que nasci.

O DCE livre e a inauguração da “Estátua da Liberdade”, quando eu quase morri na rua em que nasci.

 

Nasci no Boulevard 28 de setembro em Vila Isabel, Rio de Janeiro, e  dezenove anos depois, numa manifestação reprimida à bala pelo DOPS, quase morri a poucos metros de onde havia nascido. Naquele mesmo Boulevard. 


Explico:

Na ditadura, até o Decreto 477 que baniu definitivamente os diretórios e DCEs (Diretórios Centrais) ainda se podia eleger diretorias de forma democrática, mas para os Diretórios Centrais da Universidades as regras e limitações do processo eram tantas que era praticamente impossível para a esquerda eleger uma diretoria independente.

 

Assim foram criados os DCEs Livres, com diretorias eleitas pelos diretórios que não aceitavam a Ditadura e seus métodos para o Movimento Estudantil.

 

Foi criado o DCE Livre da UERJ em 1968, e eu com meus 19 anos, mesmo sem entender direito o movimento, fui eleito presidente. 

 

Acho que foi porque era um nome novo, não comprometido com nenhuma das organizações que disputavam a hegemonia do ME (Movimento Estudantil) e tinha demonstrado combatividade nas manifestações do ano anterior.

 

Em protesto contra a política estudantil da ditadura, fazíamos constantemente pequenas greves de dois ou três dias, nas faculdades da UERJ. Eram como ensaios para uma futura greve geral que deveria ocorrer ainda naquele ano em conjunto com o resto da sociedade, em especial com sindicatos de trabalhadores.

 

Para se fazer uma greve, as faculdades mais mobilizadas e de maior impacto social e repercussão na mídia eram as de medicina, enfermagem e odontologia funcionando no conjunto universitário junto ao Hospital Universitário Pedro Ernesto, no Boulevard 28 de Setembro.

 

Com intensa mobilização nas assembleias de cada faculdade, tiramos uma greve com grande adesão dos alunos, funcionários e professores.

 

Num contexto de ebulição social surgindo por todas partes, essa greve demonstrou aos órgãos de inteligência que já tínhamos disposição, massa e organização suficiente para lutar de forma mais consequente, o que, de certa forma, acendeu um “sinal amarelo” na repressão.

 

A greve já ia pelo terceiro ou quarto dia paralisando os serviços não essenciais do hospital, e por mais agitação que fizéssemos, não saía nem uma linha nos jornais, nem uma palavra nas TVs e rádios.

 

Resolvemos então fazer uma grande manifestação de apoio às faculdades em greve, levando alunos de todas as demais, da UERJ e de outras Universidades.

 

A idéia era inaugurar a “Estátua da Liberdade” em frente à entrada do Hospital Pedro Ernesto. Construímos em pranchas de madeira e papelão, a figura de um Policial Militar com uns três metros de altura, farda, capacete e com o braço direito levantado, empunhando não a tocha da liberdade, como em Nova York, mas um cassetete de madeira de um metro de comprimento.

 

Erguemos a “estátua” apoiada numa árvore no meio do canteiro central do Boulevard, bem em frente à entrada do hospital. Logo surgiu uma pequena multidão de jalecos brancos, estudantes, médicos, funcionários. Os pedestres da movimentada avenida paravam para assistir. 

 

Como presidente do DCE, comecei a manifestação. Subi num púlpito improvisado e comecei um discurso de defesa da greve e do nosso direito de fazê-la. Sucederam-se discursos dos presidentes dos diretórios locais.

 

Depois de mais ou menos uma hora, terminados os discursos, os aplausos e os gritos de “Abaixo a Ditadura”, resolvemos sair em passeata pelo Boulevard, que já estava com o trânsito interrompido. 

 

Saímos com faixas, cartazes e palavras de ordem em direção à Praça Barão de Drumond. Eu ia na frente, de braço dado com os demais dirigentes estudantis que haviam acorrido para a manifestação.

 

Na primeira esquina, uma camionete Veraneio do DOPS foi atravessada no meio do Boulevard. Dela saíram uns poucos policiais, que pelo número reduzido, e por não serem da tropa de choque, não demos muita confiança.


Continuamos avançando aos gritos. Dispostos a enfrentá-los, afinal de contas estávamos acostumados a brigar com a policia militar e até com a cavalaria, não seriam meia dúzia de policiais civis que iriam nos amedrontar.

 

Só me assustei, quando dois policiais, acho que se sentindo encurralados, ajoelharam no chão em posição de tiro e miraram sua pistolas em nossa direção. 

 

Veio o primeiro tiro, o segundo, o terceiro, e continuávamos a acuá-los. Naquele momento eu me sentia num filme, num sonho, e me impressionava com minha falta de medo, caminhando contra tiros. Caminhando e cantando...

 

Só caí na real e me apavorei quando o colega ao meu lado, de jaleco branco, deu um gemido e caiu no chão com o jaleco ensanguentado.

 

Foi uma correria, tentamos voltar. Nessa altura a tropa de choque já ocupava a outra esquina e nós é que ficamos encurralados. A única saída era entrar no hospital, e a maioria conseguiu. Os que ficaram na rua iam sendo presos e colocados em fila indiana e levados para os camburões. 

 

No interior do hospital a batalha continuava. A polícia depois de hesitar por alguns momentos invadiu o hospital e lançava bombas de gás lacrimogênio. Doentes saiam desesperados sem poder respirar. O berçário foi atingido, salas e corredores viraram uma praça de guerra. 

 

Fui surpreendido quando me agarrou pelo braço um primo que não via há quatro anos, desde o aniversário de 80 anos de nossa avó Joanna em Corumbá MS. Eu não tinha noticias do Mario Gomes de Arruda desde então, e muito menos sabia que estudava odontologia na minha mesma universidade. 

 

Ele me agarrou pelo braço e disse “Vem comigo, corre”. No caminho disse que tinha me reconhecido desde que comecei o discurso ao lado da “Estátua da Liberdade”.  Levou-me correndo pelo terreno do hospital até os fundos, onde um alto muro o separa da Av. Professor Manoel de Abreu. 

 

Não sei como, pulei o muro e sai correndo como um maratonista. Só fui parar no Estádio do Maracanã, onde recuperei o fôlego para pegar um ônibus para a praça XV e tomar a barca para Niterói.

 

A manifestação valeu a pena. Finalmente os jornais e TVs não puderam esconder o que tinha acontecido. Sai numa foto no Jornal do Brasil ao lado da “Estátua da Liberdade”

 

Só fui voltar a ver o primo que me salvou a vida, ou pelo menos da prisão, um ano depois quando me escondia na casa de sua irmã Ney no bairro de Laranjeiras.

 

Nunca me lembrei de agradecer ao primo querido e valente que correu sério risco por ser primo de um “perigoso subversivo”. 

 

Mas nunca é tarde, aqui vai meu MUITO OBRIGADO primo MÁRIO GOMES DE ARRUDA. Espero que esse agradecimento chegue até você.