sexta-feira, 9 de abril de 2021

Minha Versão - Capítulo 30 - Natal na casa de Mario Pedrosa - Geraldo Vandré em busca de platéia - casais trocados.

 Natal na casa de Mario Pedrosa - Geraldo Vandré em busca de platéia - casais trocados.

E o Natal chegou. Nós todos, quase todos marxistas, materialistas, dialéticos, no exílio, chorávamos e nos embriagávamos no Natal, com a saudade da família e dos vários significados que a data tinha para cada um.

 

Mario Pedrosa na época com 71 anos,  resolveu fazer um “Natal dos exilados”.

Convidou sua secretária que era esposa de Jones, que me convidou, e vários outros amigos que também convidaram outros amigos. 

O número de convidados crescia em proporção geométrica, chegando praticamente a quase toda a colônia brasileira no exílio em Santiago.

 

Eu e Eliane, morando temporariamente na casa de Elígio fomos curiosos e alegres à festa, afinal íamos conhecer muitos e importantes brasileiros no exílio.

Era uma sexta-feira, e isso contribuiu para a presença maciça.

 

Um Natal estranho, sem Papai Noel, sem presentes e sem crianças. Só caras barbudos discutindo política e a apropriação comercial que a burguesia havia feito da data,  principalmente entre tantos ateus, até que, depois de bêbados, choravam lembrando dos seus Natais, suas infâncias e suas famílias.

 

Estavam na festa, Jones e sua mulher, Jorginho e Zezé, ela correspondente da Folha de São Paulo, e ele que se dizia colaborador do Pasquim, embora só tivesse publicado uma pequena coluna há algum tempo. 

 

Geraldo Vandré trouxera seu violão, pensando, como vim a saber depois, em fazer uma breve apresentação. 

 

Léo e sua esposa Helena, amigos de Jones, com já alguns anos de casados, chegam e somos apresentados, ele jornalista e ela psicóloga freudiana.

 

Roberto e sua esposa Rosane, arquitetos que trabalhavam com Jones na CORVI também nos são apresentados. 

 

Todos carinhosamente recebidos por Mario Pedrosa e Mary, ficamos no living, uma ampla sala decorada ao estilo inglês. Nos apertamos os cinco casais nos confortáveis sofás, gozando do privilégio da companhia dos anfitriões. 

 

Cada vez chegava mais gente, e felizmente como chegamos cedo, conseguimos manter nossos lugares privilegiados.

 

Excelente vinho, conversa melhor ainda, mas eu não conseguia me concentrar nos assuntos. Observava todos que chegavam, eram cumprimentados educadamente por Mario e Mary e seguiam para outros cômodos da casa.

 

Um belo Peru à Califórnia foi servido, um jantar maravilhoso embora um tanto tumultuado. Todos se servindo como num buffet e comendo com o prato na mão. Era muita gente, e todos famintos como retirantes de João Cabral de Melo Neto. 

 

Depois do jantar, voltamos a nossos lugares no sofá, e a conversa continuou, agora mais solta mais relaxada pelo vinho. A atividade nos fundos era tão intensa e tão barulhenta que resolvi conhecer. 

Pedi a Eliane que guardasse nossos lugares no living e parti com um Undurraga Carmenere na mão.

 

Passei por outra sala, também lotada de gente bebendo e conversando. Idem na sala de jantar com mais gente ainda e também na cozinha, que cruzei pedindo passagem aos grupinhos que conversavam, para chegar ao pátio traseiro da casa de onde vinha uma voz e violão.

 

Depois de um pequeno pátio, havia uma casinha como se fosse dependência de empregada, mas muito bonita, do mesmo estilo da casa principal.

 

Lá dentro, num único ambiente, que deveria fazer o papel de quarto, reconheci a voz e violão. Era Geraldo Vandré, que também estava exilado,  cantando seus sucessos dos festivais da década anterior. 

 

Ele já deveria estar na décima música, e o pessoal fazia menção de sair, mas ele insistia: “Escuta só mais essa”.

 

Depois fui saber, que Vandré, no meio de uma depressão do exílio, buscava público em todas as festas que ia, mas ninguém tinha mais saco de escutar “Caminhando e Cantando” e fugia de suas apresentações gratuitas e repetitivas. 

 

Me deu pena, mas nunca mais curti essa música tanto como eu curti no seu lançamento no Terceiro Festival Internacional da Canção.

 

Voltei para o sofá do living, pensando nas consequências da nossa diáspora, mas senti um clima meio pesado no ambiente.

 

O papo era sobre fidelidade, casais, novas experiências com pessoas diferentes, o que isso poderia ajudar ou atrapalhar a vida conjugal, etc...

 

Opa! Pensei, será que estão cantando a Eliane?

Mas não, a conversa seguia muito natural, ou tentando ser. 

Notei que Helena, a psicóloga freudiana, mulher de Leo, olhava candidamente para Roberto, marido de Rosane. 

Olho comprido, sorriso recatado em boca húmida de lábios exibidos e propositalmente carnudos. 

 

Pensei comigo, isso vai dar merda...

Mas não deu.

Acho que só eu saquei o clima que surgiu entre os dois, sim entre os dois, porque Roberto correspondia aos olhares de Helena com um “sorriso de frete” como diria Jorge Amado. Super interessados. 

 

A conversa corria solta, e os dois já quase não prestavam atenção aos assuntos, quase se comiam com os olhos. Pairou um tesão avassalador no ar. 

 

Um momento, depois de uma gargalhada coletiva sobre uma série de piadas de Charles De Gaulle, que depois posso contar, Helena se levanta, cruza o living em passos leves e decididos, em seu vestido longo, acerca-se de Roberto, sem falar nada nem com ninguém, toma sua mão e o conduz para a escada que dava acesso ao piso superior onde ficavam os quartos.

 

Imagina o clima! 

Leo, o marido, permaneceu com um sorriso amarelo de “não está acontecendo nada, isso tudo é natural”. Já Rosane, afundou no sofá e olhava para o teto como que segurando um choro. 

 

Nós todos embaraçadíssimos, sem saber o que fazer nem falar. Nos olhávamos  buscando reações nos rostos dos outros, mas era só cara de “que está acontecendo?”.

 

Nossa dúvida foi logo esclarecida. Do piso superior vinham gemidos cada vez mais fortes, foram se transformando em gritos, e finalmente, Helena gozou entre gemidos, gritos e gargalhadas. Ela era do tipo que goza rindo.

 

Léo não aguentou, levantou-se, pegou Rosane pela mão e disse vamos embora. 

 

E aí, perguntamos, que dizemos para Helena e Roberto?

 

Bem, Léo e Helena, bem de vida, moravam numa casa e tinham uma Citroneta. Já Roberto e Rosane moravam num apartamento e não tinham carro.

 

Quando perguntamos, Léo deu a seguinte solução:

 

— Digam para eles que vamos morar no apartamento de Rosane, mas levamos a Citroneta em compensação. 

 

E foram embora.

 

Ninguém comentou nada. Servimos mais um vinho, 

 

— Pois é, né?

— Que coisa né?

— Legal né?

 

Sem opiniões ou observações comprometedoras, maior saia justa.

Até que Helena e Roberto descem do quarto, cabelos despenteados, roupas amassadas, caras de satisfação.

 

— E aí, cadê os dois?

 

Jones, o amigo comum a todos, e muito sério, contou o que tinham dito.

Riram achando bom o negócio, apenas Roberto perguntou:

 

— e os filhos?

 

Jones decidiu Salomonicamente:

 

— Ficam com as mães.

 

Como eu disse, “não deu merda” os dois casais, ou porque já queriam ou porque descobriram algo de novo, viveram felizes em suas novas casas com novos filhos e novos carros.

 

Voltei a pé para a casa de Elígio que ficava perto, curtindo o sol que aparecia no pico dos Andes, atrás da cordilheira nevada, e pensando no quanto a vida é surpreendente, principalmente no exílio.




 


sexta-feira, 2 de abril de 2021

Minha Versão - Capítulo 29 - Elígio - apoio para chegada da Eliane.

 Elígio - apoio para chegada da Eliane, uma semana na casa de Enrique Foster.

 

Capítulo Anterior:

Meu pai tinha feito contato com um antigo colega de IBGE que estava trabalhando na CEPAL, o Elígio. Ele deu seu endereço e prontificou-se a me ajudar no que fosse possível. Eliane trouxe o endereço para que o visitássemos...

 

                                                                ***

 

Elígio tinha um status de diplomata, pois trabalhava num órgão da ONU e com um alto cargo.

 

Morava numa belíssima casa da rua Enrique Foster em Las Condes, bairro chique de Santiago. A casa tinha um estilo e planta baixa das casas tradicionais inglesas. No térreo, um hall de entrada, uma gostosa sala de estar com poltronas e sofás fofos de couro, e lareira tradicional. Mais ao fundo uma ampla sala de jantar com uma enorme porta-janela envidraçada dando para um lindo e bucólico jardim. Um filme londrino. Tipo “Muito além do jardim”.

 

No hall de entrada uma escada de madeira escura levava para os quartos, banheiros e mezanino do piso superior. 

 

Lembro bem de todos os detalhes, por ter ficado muito impressionado com tudo aquilo, uma decoração tradicional, de extremo bom gosto com dimensões que não estava habituado, ou nunca tinha visto no Brasil.

 

Dois dias depois da chegada da Eliane, liguei para o Elígio, que foi muito simpático e imediatamente nos convidou para jantar em sua casa na noite seguinte.

 

Elígio, um pernambucano que tinha chegado para estudar no Rio de Janeiro sem muitos recursos, foi colega e confidente do meu pai quando entraram no IBGE. Sozinho na cidade grande, tinha praticamente sido adotado pela minha família e comparecia inclusive às festas de Natal e aniversários.

Foi muito constrangido, com minhas roupas e aparência geral de semi-hippie que chegamos para o jantar.

 

Ele e sua esposa nos receberam como da família, sentamos para um drink inicial no living. Scotch 18 anos, um vinho branco, etc... 

 

Prosseguimos com um lauto jantar regado a Cabernet Sauvignon, um verdadeiro banquete para nós, acostumados com o feijão com arroz de todo dia.

 

A conversa também começou muito agradável, Elígio contou suas peripécias de juventude com meu pai, os porres que tomaram juntos, viagens comuns, etc.

 

Eu sentia que ele nos adotaria também como foi adotado por minha família 20 anos antes em Niterói, mas contava minha história apenas superficialmente, como se tudo, inclusive a necessidade do exílio,  houvesse sido um mal entendido, sem expressar minhas posições políticas, em relação à ditadura brasileira e ao processo chileno.

 

Depois do jantar, durante o vinho do porto, ele abriu o jogo:

— Embora seu pai fosse PTB, janguista e brizolista, eu era UDN, e defendo  a “Revolução de 64”, e os militares que estão livrando o Brasil do perigo comunista.

 

Engoli em seco. Afinal de contas, minha vida, da Eliane e futuramente da Carla dependiam de um final “agradável” para esse jantar. Inclusive, meu pai já havia combinado de enviar-me 100 dólares mensais através de Elígio, que como funcionário internacional tinha o privilégio de poder, no Chile da Unidad Popular, receber dólares do exterior sem problemas.

 

Entendi a jogada, ele, um homem muito inteligente, já tinha percebido tudo e quis logo mostrar que me ajudava pela amizade com meu pai, mas não pela minha condição de exilado. Amigos amigos, política à parte.

 

 Também nada falei sobre a situação delicada do meu casamento, pois a ajuda era para um “jovem casal” com problemas que queria trazer uma filha para criar junto.

Nesse tempo, e hoje me arrependo, tinha uma concepção totalmente negativa da família tradicional, a qual contestávamos social e psicologicamente.

 

Elígio explicou que, como era fim de ano, iriam viajar de férias, mas deixariam que ficássemos na casa nas duas próximas semanas. Disse ainda que teria visto com um amigo, um apartamento para que alugássemos, e que ele serviria de fiador.

 

Voltamos para casa de Jones muito aliviados, pois mais uma vez, graças ao amor e dedicação de meus pais, estaríamos bem acomodados e com uma sobrevivência assegurada.

 

Passamos duas semanas naquela casa que para nós era uma mansão. Foram dias de curtição e muita briga, muita DR. Discutíamos a Relação revendo toda nossa história, e a fuga do Brasil com o mal entendido da saída.

 

Essa revisão da relação foi uma verdadeira terapia, e ficamos, pelo menos eu fiquei, convencidos de que a separação seria inevitável. 

 

Resolvemos esperar até o Natal que estava próximo, e a mudança para o novo apartamento para ficarmos seguros da decisão.




 

 

sexta-feira, 26 de março de 2021

Minha Versão - Capítulo 28 - Llanquiray e a chegada da Eliane numa noite fria de Novembro - empanadas com vinho no El Rápido.

Llanquiray e a chegada da Eliane numa noite fria de Novembro - empanadas com vinho no El Rápido.

 

Cansado, uma noite inteira sem dormir, a garganta e os pulmões entupidos de cigarro, vi pela expressão de Kiray que não poderia ficar em sua casa. Era semana do filho ficar com ela, e em hipótese alguma eu poderia dormir lá.

 

Voltei para casa triplamente frustado, pelo cigarro, pelo fracasso do tagliatelli e por conhecer o filho de Kiray, mais alto que eu, e mais bonito do que eu me imaginava. 

 

Mas em tudo se aprende um pouco. Me consolei pensando que no próximo fim de semana Kiray ficaria comigo na casa de Jones, dividindo meu colchãozinho no chão do quarto. Já era novembro e as noites ainda eram frias, e no sábado teria como me aquecer melhor de noite. Mas foi só um sonho. A ilusão se desfez .... no próximo capítulo.

 

***

 

Sexta-feira, depois das aulas da tarde, saímos, eu e Kiray para um jantarzinho num bistrô  chique que ela frequentava, não me lembro mais o nome do restaurante nem a comida. Lembro-me apenas do vinho maravilhoso e do bairro, era em Vitacura.

 

A volta de citroneta para minha casa (do Jones) foi de muito amor, de promessas como quando a gente se identifica depois de um belo jantar, um beijo e uma garrafa de Cabernet Sauvignon.  

 

Chegamos, conversamos um pouco com Jones e a esposa com mais uma taça, até aproximadamente meia-noite, e fomos para o quarto. Kiray não estranhou o colchão no chão como eu temia, e até achou pitoresco, excitante...

 

No pequeno colchão de solteiro curtíamos felizes o momento tão esperado, quando Jones bate na porta do quarto.

 

— Zé, sai um pouquinho que preciso falar contigo.

 

Levantei muito contrariado, o que poderia ser tão importante para ele nos interromper assim? Vesti-me e já na porta do quarto Jones anuncia:

 

— Tem uma mulher batendo aí na porta dizendo que é sua esposa de Niterói. Diz que se chama Eliane.

 

Deu um branco geral, a gostosa sensação do pilequinho passou na hora. Kiray ouviu, levantou-se e começou a se vestir rapidamente:

 

— Yo no sabia que este señor era casado, me voy. 

 

“este señor” era cheio de ironia, pois sabia muito bem da minha idade e expressava assim sua raiva e desilusão.

 

Aqui cabe um ligeira explicação.

 

Eliane e eu éramos realmente casados, e tínhamos tido a linda Carlinha em 1969, quando voltei para a faculdade e fiquei quieto, só estudando e trabalhando.

 

Quando estourou o episódio do assalto à Casa de Saúde, e tive que me refugiar, já estávamos separados há uns dois meses, mas ela foi muito legal e solidária e ficou comigo, me ajudando em tudo até a fuga.

 

Eu imaginava que indo para o Chile íamos continuar separados. Mas ela considerou que o tempo que ficamos juntos na casa da minha prima, durante a fuga, tinha sido um reatamento.

 

Antes de abrir a porta da frente, nos asseguramos de que a Kiray teria escapado pelo jardim de trás.

 

Eliane estava tão feliz, com tantas novidades e aventuras na viagem, que não tive coragem de contar a verdade. Quem poderia, depois de quase dois meses separados sem esclarecer a situação.

 

Na época, eu ainda não podia me comunicar com o Brasil, fosse por carta, telegrama ou telefone, porque quem recebesse, certamente seria preso e torturado para entregar o meu paradeiro.

 

Incomunicável, sem saber nada de mim depois da fuga, Eliane decidiu ir atrás do marido, deixando a Carla com minha mãe.

 

Com alegria e excitação ela descrevia toda a viagem, o que tinha acontecido sobre o meu caso (o governo dizia que tinham sido todos presos), tudo que tinham feito no Brasil para me ajudar no Chile. Dinheiro, certificados da Faculdade de Engenharia, e outros documentos para que eu pudesse voltar a estudar no Chile. 

 

Meus pais estavam bem, a Carla também, notícias de toda a família que ficara apreensiva com a minha fuga. Minha mãe ficara de trazer a Carla assim que pudesse. Isso significava que eu teria que voltar à minha vida de casado de antes. Depois de todo esforço e toda dedicação da Eliane, não poderia deixá-la sozinha com nossa filha num país estrangeiro.

 

Meu pai tinha feito contato com um antigo colega de IBGE que estava trabalhando na CEPAL, o Elígio. Ele deu seu endereço e prontificou-se a me ajudar no que fosse possível. Eliane trouxe o endereço e o número do telefone dele.

 

Passei uns três dias mostrando Santiago para Eliane, passeamos pelo centro, que eu agora me considerava um expert, e era mesmo. Minha maior diversão em Santiago era passear pelo centro da cidade, cada recanto, cada barzinho, cada “Fuente de Soda”.

 

Como já estava há dois meses em Santiago, já tinha caminhado por todas as ruas que vão da “Alameda” ao Mapocho. Já estava falando e entendendo bem o “chileno” que é uma língua um tanto diferente do Castelhano. Na realidade estava apaixonado pela cidade e pelo povo, como sou até hoje.

 

Levei Eliane à Estação Mapocho, ao Cerro Santa Luzia. Caminhamos da Plaza Itália ao La Moneda. 

 

Mas para mim, o “Ponto Alto” dos passeios ao centro sempre terminava no “El Rápido”, uma lanchonete de empanadas diferente de tudo que se conhece por aqui.

 

O El Rápido tinha uma frente toda envidraçada, uma grande vitrine por onde se viam os clientes. Acessava-se por uma porta de vai-vem também de vidro.

 

Sempre cheio, tinha um grande balcão de madeira onde se amontoavam os fregueses. Todos em pé, não tinha mesas, cadeiras ou bancos. Os fregueses entravam, pediam, comiam e saiam, alguns saiam para comer na calçada, sempre rapidamente, acho que por isso o nome.

 

O El Rápido só tinha dois tipos de empanadas, “de queso” ou “de pino”. A de pino, com um maravilhoso recheio de carne picada a facão, azeitona, uva-passa e ovo duro.

 

Para beber, apenas o vinho da casa, mas se podia optar por “blanco o tinto” como perguntavam os garçons quando você conseguia encontrar uma vaga para chegar no balcão.

 

A maioria dos fregueses chegava e pedia no balcão “de pino”, “de queso” enquanto o garçon perguntava invariavelmente: “tinto o blanco”.

 

Supunha-se que todos comiam empanadas e tomavam vinho.Eu sempre entrava e já gritava: “una de pino, una de queso y um tinto”.

 

 

 
Paseo Bandera

El Rápido


sexta-feira, 19 de março de 2021

Minha Versão - Capítulo 27- Uma noite de estudos com cigarros Gauloises e café - O tagliatelli frustrado e o filho de 16 anos.

 Uma noite de estudos com cigarros Gauloises e café - O tagliatelli frustrado e o filho de 16 anos. 

 

Quem nunca fumou Gauloises, não sabe o que é ficar de porre e ressaca apenas com cigarros.

Gauloises é um cigarro francês, do tipo “negro”, isto é, fortíssimo.

 

No grupo latino-americano criado no Pedagógico continuávamos curtindo toda nossa libertária irresponsabilidade.

 

Passeios, festas, porres, paqueras. 

Estudávamos também muito, apaixonados que éramos pela Antropologia. Líamos e discutíamos muitos autores, Margaret Mead, Malinowsky, Durkhein, mas nosso norte era o Estruturalismo de Claude Lévi-Strauss, e nosso estudo preferido:  "As estruturas elementares de parentesco"

 

O relacionamento com Kiray era meio sigiloso. Como acabava de se separar, não queria se expor, principalmente no seu círculo de amigos da CEPAL. Assim eu passava como um “colega brasileiro da faculdade”, mas o pessoal da galera desconfiava e muito.

 

Uma noite, finalmente, teria a oportunidade de conhecer a casa de Kiray. 

Tínhamos um trabalho de grupo de uma das cadeiras de Antropologia e resolvemos fazer uma leitura em comum e discussão sobre o livro do trabalho. Kiray ofereceu a casa para a reunião.

 

Eu, para me exibir, prometi fazer um “tagliatelli” autêntico que tinha aprendido na casa de Nelson Pereira dos Santos, esse mesmo, o cineasta. 

 

Acontece que Nelson morava com a família na rua Mem de Sá em Icaraí, Niterói. Sua esposa Laurita, cursava comigo e Eliane as aulas de antropologia da faculdade de Ciências Sociais da UFF, e costumávamos estudar juntos. Por isso ficamos muito amigos, apesar da diferença de idade. Eu e Eliane com 20 e eles por volta dos 40.

 

A casa do Nelson era uma festa constante, e muito frequentada por atores, pintores, escritores, intelectuais...

Nessa época, estava filmando em Parati o clássico “Como era gostoso o meu francês”, onde um grupo de índias se encantam com um marinheiro náufrago francês, no caso o Arduino Colassanti, lindo, alto, jovem e loiro de olhos azuis. 

 

Como era costume nas tribos, elas se apropriam do francês, o mimam de todos os jeitos, com massagens, rede, banhos e comidas. O francês fica maravilhado com a boa vida no meio de uma meia dúzia de lindas indiazinhas, que como dizia Pero Vaz Caminha tinham suas partes “muy saradinhas”. Elas usam e abusam do seu brinquedo, até que um dia resolvem provar o gosto daquela carne tão branquinha e apetitosa. Arduino é assado na fogueira, vira churrasco e é comido em partes, como fala o título do filme.

 

Arduino e seu pai Manfredo, gordo italiano de forte sotaque, muita alegria e vastos cabelos brancos, frequentavam a casa de Nelson, e um dia Manfredo resolve fazer um tagliatelli para todos. Trabalhamos todo o dia com bom vinho italiano, cortando e pendurando para secar os longos fios da massa.

 

Descascar tomate, tirar as sementes e cozinhar num panelão preparando o molho que depois recebe a carne já cozida cortada a facão em pedaços mínimos como deve ser o verdadeiro molho bolonhesa.

 

Cheguei cedo na casa de Kiray para preparar o jantar que pretendíamos comer antes de começar a estudar. Eu abria a massa, cortava e passava as tiras para que os outros fossem pendurando nos varais de barbante que espalhamos por toda cozinha. Enquanto secava a massa, preparamos o molho e abrimos várias garrafas de vinho.

 

Molho pronto, todos já bem embalados com o vinho, escolhi uma grande panela, enchi de água, coloquei no fogo e joguei os talharins todos dentro.

 

Eu, na minha prepotência de chef, e com a cabeça feita com tanto vinho, só esqueci de esperar que a água fervesse. Resultado, a massa, cortada, pendurada e seca com duas ou três horas de trabalho, embolou toda na água fria da panela acabando com o sonho do maravilhoso “tagliatelli”.

 

Com muita vergonha, aceitei que Kiray fizesse uma panelada de arroz para comermos com o molho.

 

Pronto o jantar, desce do segundo andar onde ficavam os quartos, um belo rapaz, maior do que eu, seríssimo, com cara de poucos amigos e Kiray nos apresenta:

— Este es mi hijo.

 

Foi um choque para mim. Não podia imaginar que a minha namorada secreta tivesse um filho quase da minha idade. Ele aparentava uns 18 anos, mas ainda tinha 16.

 

Passado o trauma, fomos todos para a sala ao lado começar a leitura e discussão do livro, que não lembro mais qual era.

 

Fumávamos Viceroy, LM, Marlboro, Lucky Strike. Mas de repente os cigarros acabaram. E só estávamos conseguindo permanecer acordados com muito café e cigarro. Naquela época, depois das 10 da noite não se encontrava comércio aberto onde se pudesse comprar um maço.

 

Kiray descobriu um pacote com dez maços de Gauloises numa estante. Eu não conhecia, mas todos fumamos, e muito. Fumar Gauloises só se compara a fumar charuto tragando. 

Voltei a ficar tonto, mas agora pelo efeito não do vinho, mas do Gauloises.

 

Cansado, uma noite inteira sem dormir, a garganta e os pulmões entupidos de cigarro, vi pela expressão de Kiray que não poderia ficar em sua casa. Era semana do filho ficar com ela, e em hipótese alguma eu poderia dormir lá.

 

Voltei para casa triplamente frustado, por ficar sozinho, pelo fracasso do tagliatelli e por conhecer o filho de Kiray, maior e mais bonito do que eu me achava. 

 

Mas em tudo se aprende um pouco. Me consolei pensando que no próximo fim de semana Kiray ficaria comigo na casa de Jones, dividindo meu colchãozinho no chão do quarto. 

 

Já era novembro e as noites ainda eram frias, e no sábado teria como me aquecer melhor de noite. Mas foi só um sonho. A ilusão se desfez .... no próximo capítulo.




sexta-feira, 12 de março de 2021

Minha Versão - Capítulo 26 - Os passeios de citroneta – os teatros – Astor Piazzola y su bandoneón.

 

Os passeios de citroneta – os teatros – Astor Piazzola y su bandoneón.

A chilenita da aula de arqueologia e do acampamento da “Isla Negra” era a Marisol, com quem mais tarde me juntei e vivemos por mais de 20 felizes anos. Mas ela ainda resistia.

 E, enquanto não cedia aos meus “encantos”, conheci com mais intimidade uma colega da antropologia, mulher maravilhosa a quem tenho que render homenagem especial.

 Era LLanquiray de León, uma uruguaia, na época com 35 anos, recém separada de um alto funcionário da CEPAL – Comisión Económica para América Latina y Caribe que tinha sede em Santiago.

 LLanquy, ou simplesmente Kiray, como chamávamos, era fina, erudita, alegre, inteligente, cultíssima. Tinha cabelos castanhos ondulados que emolduravam um rosto bonito de grandes olhos verdes.

 A partir das aulas de Antropologia e de umas caronas em sua citroneta surgiu um namoro. Que não era bem um namoro, pois eu com meus tontos 21 anos, achava ela muito velha nos seus 35. Vejam só, mas eu não tinha lido ainda Honoré de Balzac.

Nessa época meu coração estava partido em dois. Por um lado a charmosa senhora de 35 e por outro a loirinha de olhos azuis profundos de 17.

Mas Llanquiray levava muita vantagem, estava sempre a par de todos os eventos culturais de Santiago, era uma mulher madura, cheia de experiência e tinha uma Citroneta.

Não sei o que a levou a gostar de mim, eu devia ser muito chato, cheio de convicções profundas e opiniões definitivas. Acho que se dedicou a polir-me como se faz com uma pedra bruta.

Passeávamos por toda Santiago, dos Andes ao Mapocho, de Las Condes a La Bandera. Levou-me a teatros, shows, peñas, museus e fazíamos lindas caminhadas pelos parques e pela costanera do rio. Era primavera, e eu apreciava as mudanças na vegetação, coisa que não acontece no Rio de Janeiro, onde só tem uma estação do ano e é quente o ano todo.

Graças a ela aprendi muito e pelo menos passei a ter uma visão menos maniqueísta do mundo, das artes e da política.

Para mim, a arte tinha que ser engajada, ter significado e objetivo político-revolucionário. Não era tocado pela emoção de uma melodia, por uma cena de teatro, ou por um poema simplesmente de amor.

Minha catarse nesse sentido foi graças a Astor Piazzolla.

Quiray me convidou para ver uma apresentação de Piazzolla e orquestra de bandoneones no Teatro Municipal de Santiago.

Eu não sabia quem era Piazzolla, e muito menos o que era um bandoneón.

Ela dizia que era fantástico, que havia reinventado o tango, etc.

Concordei, para não expor tanto assim minha ignorância.

Fiquei maravilhado. Fui tomado por uma emoção sem motivo, sem explicação. Na época disfarcei e escondi, mas hoje confesso que chorei com uma emoção inexplicável. Chorei apenas com a forte melodia, a emoção do tango, expressado com intensidade pela orquestra. A partir desse dia, comecei a relativizar a arte.

Graças a Llanquiray e a Piazzolla deixei boa parte das minhas maniqueístas convicções stalinistas para trás.

 

***

 

Muitos anos depois, encontrei em Florianópolis um grande amigo que era também apaixonado por Piazzola.

Laércio Duarte comentou comigo sobre sua obra e eu respondi por e-mail comentando sobre nossa paixão pelo reinventor do tango.

Mexendo nas pastas empoeiradas dos e-mails do meu computador, encontrei esse que me saiu inspirado, retrata bem o meu espírito na época.

Aqui vai:

 

Lalá, 

você sabia que eu vi um concerto de Piazzolla ao vivo no Teatro Municipal de Santiago de Chile?

Pois é, eu na ignorância dos meus 21 aninhos, em 1971, estando exilado em Chile, não sabia nada de tango, de Argentina, de bandoneón e muito menos de Piazzolla. Não sabia nem quem era esse tangueiro.

Naquela época, Santiago estava cheia de exilados de todas as ditaduras de Latino-América e era uma verdadeira feira cultural de esquerda, uma babel latina. Como diria um clichê jornalístico da época: "um efervescente cadinho cultural".

Acontece que eu estava namorando uma bondosa e paciente exilada-socióloga uruguaia (Llanquiray de León) de 35 anos, que estava se separando  e teve a revolucionária atitude de acolher um jovem clandestino/moreninho brasileiro em seus lençóis.

Kiray (como a chamava carinhosamente) tentando romper minha grosseira carcaça de ignorância marxista-leninista e dotar-me de alguma sensibilidade cultural latino-americana, levou-me em sua Citroneta ao tal concerto no Teatro Municipal de Santiago. Eu só aceitei ir àquela chatice porque vislumbrava uma profícua possibilidade sexual pós-concerto.

Embeveci-me, embasbaquei-me, adorei. Talvez essa tivesse sido uma das farpas que começaram a demolir minhas convicções sobre a arte militante e a necessidade gramsciniana de um engajamento cultural das artes revolucionárias.

 

Abração.




Teatro Municipal de Santiago de Chile

sexta-feira, 5 de março de 2021

Minha Versão - Capítulo 25 - A aula de arqueologia e a chilena de 17 aninhos. O Acampamento em Isla Negra – uma noite com Lênin. Que Hacer Em papel bíblia. Ciúmes de Pablito.

O Pedagógico ficava num amplo terreno bem arborizado, com muitos edifícios pequenos de um ou dois andares. Era como um Campus.

Numa dessas casinhas térreas ficava a sala onde assisti minha primeira aula. Era de Introdução à Arqueologia, ou coisa assim, com Don Mario Orellana.

Eu estava super interessado na aula, curtindo meu primeiro contato com esses assuntos tão interessantes, tinha que prestar muita atenção, pois além de ser uma matéria e uma ciência nova, perdia metade das palavras, pois Don Mario falava rápido, e no sotaque chileno, muito acentuado e difícil de  assimilar imediatamente.

Mas além do idioma, uma outra causa roubou o que restava da minha atenção. Uma causa de olhos azuis e longos cabelos loiros.

No meio da sala, sentava-se uma menina de 17 aninhos, loiros cabelos pelo meio das costas, uma blusinha branca com florzinhas meio hippies bordadas na beira do decote e manguinhas bufantes,  calças jeans boca de sino que se arrastava pelo chão, e já meio puída de tanto ser pisada.

Foi paixão à primeira vista, mas sem reciprocidade. Quanto mais eu olhasse, mais ela desviava o olhar com cara de poucos amigos.

Tinha entrado no Pedagógico para estudar filosofia, mas depois de uns meses resolveu passar para o departamento de Arqueologia/Antropologia.

Vários dias se passaram, com aulas e muitas conversas latino-americanas no bar em frente ao Pedagógico. Um dia, reunidos numa das mesas, um brasileiro, um venezuelano, uma uruguaia, dois bolivianos, um argentino e uns quatro ou cinco chilenos animados com “blancos y tintos”, tivemos a brilhante ideia de fazer um acampamento na costa próxima à Valparaiso e Viña del Mar.

Já tínhamos feito alguns estudos em conjunto, reuniões e trabalhos universitários, jantares. Na casa de um ou de outro, e nenhum avanço, a chileninha era dura na queda. Comecei a achar que ela era racista, porque com minha cor, comparado com a classe média de Santiago, eu era considerado um negão, e assim me chamavam: El negro brasilero.

Mas naquela tarde consegui avançar um pouco em minhas esperanças.  

Depois de algumas garrafas de Cousiño Macul, que na época era muito bom e barato, pois a vinícola ficava no fim da avenida de mesmo nome...

Um parênteses, as famosas viñas chilenas, como Undurraga, Santa Carolina, Macul, Concha & Toro e outras, ainda não tinham sido compradas por franceses e americanos, e produziam excelentes vinhos a preços honestos e sem química.

Mas voltando ao assunto, depois de algumas garrafas, voltamos à excelente idéia de fazer um acampamento, para que os estrangeiros conhecessem a praia de Neruda, em Isla Negra. Naquela época, Neruda vivia entre sua casa em Santiago, viagens ao exterior e a casa de Isla Negra. Quem sabe, teríamos até a sorte de ver a Neruda e Matilde.

Rapidamente acertamos os detalhes, um fim de semana prolongado numa floresta de pinheiros, em pequenas barracas. Pensei: “essa é a minha grande chance, como as barracas são para duas pessoas, vou convidar a chileninha para a minha.

Viagem dura de ônibus, carregando os equipamentos até a floresta, montando as barracas. Armamos  em círculo, com uma clareira no meio, viramos uma tribo, não de índios, de uma cultura estudada por antropólogos, mas de antropólogos brincando de índios.

A floresta ficava ao lado da primeira praia do Pacífico que conheci. Para mim foi uma grande novidade, pois era completamente diferente das praias brasileiras. Rochosa, areia grossa e água muito gelada. Uma beleza diferente de nossas praias tropicais.

De noite, acendemos uma bela fogueira, e foi entorno dela que tive meu primeiro contato com o Pisco. Bebida deliciosa, que lembra um vinho, mas com 40% de álcool. Tão forte e fácil de beber que rapidamente te deixa de pilequinho.

Felizmente não fui só eu a passar dos limites, ao final estávamos todos bêbados, menos Pepe que, como expliquei no capítulo anterior, não bebia.

Depois de muita conversa, o objeto da minha viagem já estava mais simpática. Conversamos muito, filosofia, história...

Os chilenos, muito formais, mesmo depois de algumas doses de pisco, continuam falando seriamente de coisas sérias.

As minhas tentativas de quebrar o climão, com as piadinhas brasileiras do meu repertório, só despertavam nela sorrisos amarelos, condescendentes.

Fomos até tarde em torno da fogueira ritual, apareceu um violão, uma quena e um bombo, cantamos músicas latino-americanas, Violeta Parra, Mercedes Sosa, carnavalitos bolivianos,

“Quena, charango y bombo, carnavalito para bailar...”

valsesitos peruanos, tangos, milongas, boleros, cuecas, e as revolucionárias de Atahualpa Yupanqui, Victor Jara, Los Quilapayuns, e tantos outros.

Era um mundo novo para mim. Nós brasileiros ao mesmo tempo que integramos fortemente e em todos os aspectos a cultura latino-americana, parece que fomos colocados de costas para ela.

Nos sentimos e agimos como se fossemos muito diferentes, mas na verdade somos a mesma coisa. Em uma noite entendi o que isso significava, e meus horizontes se ampliaram numa dimensão tão grande como uma América, “La pátria grande” de Bolívar.

Não sei como foi esse processo histórico de distanciamento de nossos “hermanos” latino-americanos, mas acredito que tenha a ver com o isolamento do império luso e, no último século, com a descaracterização cultural a que o poder e a mídia norte-americanos submeteram o Brasil e os brasileiros.

Somos tão ridículos, que a exemplo dos filmes americanos, tem brasileiros que se referem às demais nacionalidades de nosso continente como os ”Latinos”, como se fossemos Celtas ou Anglo-saxões. 

Hoje em dia, até a nossa mídia, colonizada, vira-lata, apátrida e despreparada, nas notícias e dublagem dos filmes americanos, usa ”musicista”, “antropologista”, “sociologista”, “psicologista”, para palavras tão simples e bonitas como músico, antropólogo, sociólogo, psicólogo, como usávamos antes desta lavagem cerebral a que fomos submetidos.

Voltando à nossa fogueira, eu muito empolgado, sentado ao lado da chilena, tentava acompanhar e entender as letras das músicas, cada vez mais perto...

Porém, chegou a hora que o sono dominou a todos e começamos a negociar quem dormia em que barraca. Em cada barraca dormiriam dois.

Meio que fingindo naturalidade disse para ela:

— tu te quedas comigo en la ”barraca”?

Ela não entendeu nada, pudera, barraca em castelhano é “carpa”.

Tentei explicar, e quando entendeu, fechou a cara e elegantemente respondeu:

— No huevón, me voy a la carpa de Pablito, que conosco mejor y és mucho más confiable que tu.

Foi um balde d’água fria do Pacífico. Desilusão total.

Lembro que Jones tinha me emprestado o “Que hacer” de Lenin, assim mesmo em espanhol. Grossíssimo e em papel bíblia.

Não sei se para esquecer minha frustração, afogar o ciúme de Pablito, consolar minha carência/solidão, ou para impressionar aos demais, passei o resto da noite ao lado da fogueira, de cara amarrada como uma criança birrenta tentando ler o “Que Fazer” de Lenin, sem entender nada, tendo que voltar várias vezes cada parágrafo, porque meu pensamento não saía de dentro daquela barraca.

De qualquer forma, foi uma aula de “Latino-americanidad” que prosseguiria nas semanas seguintes com lindos passeios de citroneta e descoberta tardia de algo muito raro e que causaria uma mudança profunda em minhas concepções artísticas e culturais, o “bandoneón” de Piazzola...