sexta-feira, 14 de maio de 2021

Minha Versão - Capítulo 35 - Vida de casado, móveis de pinho – trabalho

Vida de casado, móveis de pinho – trabalho – pedagógico – Escuela Técnica –  pôsteres – cantorias – vino e mais vino – a plantação de trebol encontrando raízes de parreira.

 

Não sei como nem porque, Zezé e Jorginho se separaram deixando a casa exclusivamente para nós.

 

Foi como começar tudo do zero, ajeitamos a casa toda ao nosso gosto, consegui um aquecedor industrial à querosene que aquecia a casa toda no inverno, permitindo-me andar de calção e camiseta no pior inverno. Mas essa compra foi muito depois, estou misturando a linha do tempo.

 

Digamos que a vida se encaixou no que queríamos. 

Além das aulas no Pedagógico, tentei sem sucesso voltar à engenharia, matriculando-me na “Universidad Técnica del Estado”, que ao contrário da engenharia da “Universidad de Chile” tinha uma administração de esquerda, liderada pelo Partido Comunista Chileno. 

 

Cursei em um semestre duas cadeiras iniciais, esperando que me validassem os quatro anos de engenharia da UERJ, mas não teve jeito, o cipoal burocrático era intransponível, e desisti.

 

Através do Jones, e daquela sua amiga na CORVI – Corporación de la Vivienda consegui um trabalho de fiscal de obra na construção de um conjunto habitacional para “pobladores”, no local da própria “población”. 

 

Era um programa de construção para urbanização de favelas que utilizava como mão de obra os próprios moradores. Foi uma experiência incrível, social, técnica e antropológica na interação com os operários.

No próximo capítulo entro em detalhes sobre toda essa rica vivência.

 

Foi uma fase de “brincar de casinha” que curtimos muito. Eu trabalhava na CORVI, nós dois assistíamos às aulas no Pedagógico e Marisol arrumou um emprego para vender pôsteres. Eram gravuras lindíssimas que vendiam muito bem. Com isso nossas paredes ficaram lindas. Uma gravura que me encantava e ficou na memória foi um pôster de Valparaiso, com seus morros e casinhas coloridas.


Nos escritórios da obra usava-se uma mobília toda feita no próprio local com caibros e tábuas de pinus. Tinham um design muito bonito e eram simples de fazer.

 

Comprei ferramentas de marcenaria, descobri uma madeireira perto e me propus à mobiliar a casa.

 

Fiz todos os móveis, poltronas, sofás, camas, armários e mesas, de forma muito econômica. 

 

Uma de minhas criações foi uma mesinha com duas cadeiras que pintei de branco sendo que no tampo da mesa desenhei em vermelho um tabuleiro de xadrez.

Vim a curtir muito essa mesinha, onde jogava sempre com Rodrigo acompanhado de um bom vinho.

 

Rosi e Rodrigo ficaram nossos melhores amigos. Ela, irmã de Marisol e o marido Rodrigo Barrientos irmão de Pepe, o filósofo. Só depois de saber que Rodrigo e Pepe eram irmãos, vim a entender o carinho paterno que Pepe tinha sobre a Pollito (Marisol),

 

Nós quatro passamos muitos e bons momentos na casinha de Tres Poniente. Eles vinham sempre, antes do almoço ou do jantar eu saia com Rodrigo para comprar vinho numa “botilleria” da esquina. Ali sempre tomávamos uma antes de voltar para casa, e Rodrigo dizia: “Ese me lo llevo puesto“.

 

Fazíamos comidas chilenas, tomávamos bons vinhos, tocávamos e cantávamos musicas latino-americanas. Rosi tocava um lindo violão, Rodrigo quena, charango y bombo, e todos cantávamos. Eles vieram a se especializar no folclore e a montar mais tarde o “dúo Humanaya”.

 

Quase sempre depois do jantar, jogava xadrez com Rodrigo. Ele sempre ganhava, sabia muito. Mas eu aproveitava para aprender, aberturas e finais.

 

Rodrigo gostava de me provocar falando um “chileno”  muito rápido e cheio de gírias. No início não entendia nada, e ele ria. “Cachay weón?”.

Aos poucos fui entendendo e foi graças a essa brincadeira que consegui me comunicar bem com “los obreros” da obra em que trabalhava.

 

Eu me apaixonei por eles, meus cunhados, tanto que até hoje, cinquenta anos depois, nos falamos por chamadas de vídeo ou diretamente no WhatsApp.

 

Na frente da casa tinha um pequeno espaço de terra tomado pelo mato seco, típico da região semi-árida de Santiago. Era muito feio e abandonado desde que chegamos. Resolvi fazer um jardim.

 

A grama era muito cara e requeria regas constantes, diárias, para não morrer.

Resolvi plantar trevo. O trevo fecha e cobre todo o jardim dando uma agradável impressão e não precisa de tanto cuidado como a grama.

 

Eu só não esperava a secura e dureza da terra. O trabalho na enxada foi enorme, me sentia um camponês nordestino tentando plantar na caatinga.

Mas a grande surpresa foi quando comecei a bater com a enxada em raizes grossas e muito duras. Estavam por toda parte, e eram, para mim, impossíveis de arrancar. 

 

Consultei o vizinho sobre meu achado, e ele explicou.

 

Toda a área de Villa Santa Carolina, tinha sido uma plantação de uva da Viña Santa Carolina, que permanecia próxima. Na construção das casas e ruas, derrubaram as parreiras e lançaram uma fina camada de terra por cima.

 

O mais surpreendente, é que eram cepas bem antigas, que deveriam produzir uma ótima uva e melhor vinho.

 

Por conselho do vizinho, plantei o trevo deixando partes dessas raizes e galhos expostos. Em pouco tempo, começaram a nascer mudinhas de parreiras. Aproveitei para enfeitar a cerca e o muro do quintal com lindas trepadeiras, que chegaram a dar alguns cachinhos de uma deliciosa uva preta. 

 

No meio de todas essas realizações e curtições, comprei uma motinho velha. Uma Ducati 175 toda remendada para ir trabalhar na obra que ficava bem longe.

 

A rotina de trabalho, a viagem diária de moto, o pátio da obra, no frio e no calor, no tempo seco e abafado do verão e na fria neve e no asfalto coberto de gelo do inverno já é por si só uma nova aventura ...

 

Que fica para o próximo capítulo.




sexta-feira, 7 de maio de 2021

Minha Versão - Capítulo 34 - A separação de Jorginho - imagem de Trotsky - a malha de balé - a babá da Carla e o tombo da tábua de passar roupa.

 A separação de Jorginho - imagem de Trotsky - a malha de balé - a babá da Carla e o tombo da tábua de passar roupa.

 

Não sei como nem porque, Zezé e Jorginho se separaram deixando a casa exclusivamente para nós.

 

Curtimos muito a casinha. Para nossas expectativas, a casa era um sonho, um quarto maior para o casal, o segundo para hóspedes, e o terceiro, menor,  para um escritório. Além disso, um grande quintal cimentado com floreiras.

 

Zezé foi morar num apartamento em Ñuñoa e Jorginho aproveitou a oferta da Eliane e foi morar no terceiro quarto do apartamento de Galvarino Galhardo rachando o aluguel.

 

Eliane a essa altura já estava “casada” de novo com o exilado brasileiro de Santos, estudante de economia. Muito simpático que ficou meu amigo, a quem já me referi num capítulo anterior.

 

O apartamento tornou-se uma verdadeira “comunidade” no estilo hippie da época. Um “point” de encontro de brasileiros. 

Sempre que eu o visitava, tinha gente, exilados brasileiros conversando, ouvindo música, fumando um. 

A ampla sala, com confortáveis sofás, parecia uma festa constante, gente entrando, gente saindo, muita alegria.

 

Nessa época, minha mãe já tinha trazido a Carla para Santiago que ficara ai com Eliane, por isso eu e Marisol sempre visitávamos o apartamento, ou para ver a Carla, ou para pegá-la para passar o fim de semana conosco.

 

Como já expliquei nos capítulos pós chegada ao Chile, peguei uma certa antipatia pela colônia brasileira, e a casa de Eliane era um lugar de reafirmação do “gueto”. 

 

Por isso, quando ia buscar a Carla, ficava apenas o tempo necessário para um papo curto, que disfarçasse minha antipatia. 

Mas às vezes era inevitável uma conversa mais longa, e até algumas reuniões festivas, com vinho e música.

 

Jorginho depois da separação definitiva e mudança de 3 poniente para Galvarino Gallardo, tinha afirmado muito mais sua admiração, quase veneração por Trotsky, de tal forma intensa que começou a tornar-se seu alter-ego, até fisicamente.

 

No início deixou um cavanhaque, que já estava grisalho, um vasto bigode, trocou os óculos por um modelo retrô “aro de tartaruga” e passou a usar o cabelo estilo rebelde.

 


Lia Trotsky e Isaac Deutscher.  Recorrentemente, relia “A História da Revolução Russa”, “A Revolução Permanente” e “A Revolução Traída”. De Deutscher, toda a trilogia da biografia de Trotsky.

 

Tinha uma enorme capacidade de memorizar parágrafos dos livros, e nas discussões teóricas, seus argumentos se limitavam a citar trechos inteiros, com ar professoral de certeza definitiva, incontestável. 

 

Por isso eu desconfiava de sua capacidade de raciocínio lógico e elaboração de uma linha própria de pensamento. Se o partido desse certo, seria um perfeito burocrata do politburo, como eu brincava.

 

Mas Jorginho, embora tenha incrementado suas atividades intelectuais, não deixara de ser aquele leão sexual da casinha da Villa Santa Carolina.

 

Nenhuma das amigas, companheiras, camaradas de qualquer orientação política que visitava o apartamento de Eliane, escapava de uma cantada revolucionária, insistente, quase assédio. 

 

Porém, não sei se pelo estilo, pela insistência desagradável ou pelo próprio visual dele, todas cantadas eram fadadas ao fracasso.   

 

Uma noite, Eliane e amigos do apartamento, resolveram fazer uma festa brasileira regada a vinho e umas cachacinhas que tinham contrabandeado direto de Minas Gerais.

 

Eliane pediu que Nina, a babá que cuidava da Carla, ficasse para dormir e ajudasse na festa, servindo taças e salgadinhos. Nina era uma chileninha de uns 18 aninhos, longos cabelos negros, corpinho “ajeitadinho”, pequena como Jorginho.

 

Era muito tímida, com sorrisos envergonhados, mas tinha uns olhinhos ágeis, espertinhos. 

 

A festa transcorria calma, um vinil de jazz na vitrola, a sala à meia luz, todos estranhamente muito comportados, até então. 

 

Menos Jorginho, que com saudades da cachacinha, usava uma taça de vinho para tomá-la e entornava uma atrás da outra.

 

Vestiu-se bizarramente, com uma camiseta de malha transparente e uma malha de balé que mostrava bem o contorno de suas pernas e um “volume” meio desproporcional aos seus 1,50 metros de altura.

 

Depois de algumas doses de cachaça em taças de vinho, Jorginho entusiasmou-se e passeava pela sala lendo em voz alta, “A Revolução Traída” em apenas uma mão. Na outra levava a taça de cachaça. 

 

Um mal estar, um constrangimento espalhou-se pela sala, mas Jorginho não notava. Todos fingiam não vê-lo, mantendo conversas paralelas, sem se impressionar com a cena, menos Nina, a babá.

 

Nina entrava e saia da cozinha com pratinhos de salgadinhos, garrafas de vinho, e cada vez que Jorginho se aproximava elevando o tom do discurso trotskista, para impressioná-la, Nina soltava risinhos, gritinhos e olhava para baixo, para as “pernas” de Jorginho. 

 

Na terceira ou quarta entrada, Jorginho seguiu Nina e vimos meio de lado que ele a agarrava pelas costas dentro da cozinha.

 

Nina resignada, pegou na mão dele e o levou para o quartinho onde era passada a roupa da casa. 

 

Na sala, apesar do Jazz, que alguém teve a caridosa iniciativa de aumentar o volume, podia-se ouvir os urros masculinos e gritinhos femininos que vinham do quartinho de passar roupa. 

 

De repente, depois de um urro mais forte, ouviu-se um violento estrondo, de alguma coisa grande desabando no chão, e um grito.

Pensei maldosamente que fosse um violentíssimo orgasmo, mas não faria tanto barulho. 

 

Corremos para lá, e surpreendemos Nina no chão com Jorginho em cima. 

Acontece que mesmo sendo pequenos e leves, a tábua de passar não aguentou o peso dos dois e veio ao chão ...

 




      



sexta-feira, 30 de abril de 2021

Minha Versão - Capítulo 33 - Dividindo com Jorginho e Zezé a casinha de 3 Poniente, 2330

 Dividindo com Jorginho e Zezé a casinha de 3 Poniente, 2330

 

Voltamos de Valparaiso, e sem pensar em mais nada, sem combinar nada, com a maior naturalidade, fomos morar juntos no meu quartinho na casa de Jones. 

 

Sem conversar nada, como se fosse decorrência natural daqueles dias na mansarda da Hostal com vista para o Pacífico. Andávamos como a dois palmos acima do chão, duas crianças de 21 e 17 anos indo morar juntas sem pensar em nenhuma consequência.

 

O meu futuro sogro, José Etcheverry ou Pepin como o chamávamos, estava viajando pela Índia, estudando Yoga. Por isso, Marisol pôde contar a estória em casa de que ía viver com “umas amigas” da faculdade.

 

A casa de Jones nas “Torres de Macul” não era muito apropriada para nós, mas logo surgiu uma oportunidade melhor. 

 

Jorginho e Zezé, com quem eu havia passado o Natal na casa de Mario Pedrosa, moravam numa adorável casinha de três quartos na “Villa Santa Carolina” estavam procurando alguém para dividir o aluguel.

 

Villa fica nos fundos da “Viña Santa Carolina” e a casinha na rua 3 Poniente número 2330.

 

Fica um pouco depois da Avenida Maratón, perto do Estádio Nacional de tétricas lembranças, e de um conjunto de edifícios conhecidos como “Villa Olímpica”.

 

Entrei nesses detalhes geográficos, porque a proximidade com o Estádio Nacional, onde foram presos milhares de opositores, inclusive brasileiros, durante o golpe de 1973, é um dado importante para quando, num capítulo adiante, descrevo minha experiência com o golpe de Pinochet e os fuzilamentos noturnos no estádio.

 

Mas na época, a proximidade com a “Viña Santa Carolina” era um fator positivo. Tinham uma pequena loja onde podia-se comprar vinho no varejo, por preços excepcionais. Gostava muito de um Cabernet Sauvignon conhecido com “Santa Carolina Tres Estrellas” com três estrelinhas douradas no rótulo.

 

A casa, que mostro na foto, era um doce, uma maravilha romântica para nós.

Jorginho e Zezé não eram muito de curtir casa, “brincar de casinha” como os casais novos. Talvez por Zezé trabalhar muito, cobrindo a realidade chilena para a Folha de São Paulo, ou por já estarem há alguns anos juntos, com uma certa antipatia latente entre os dois.

 

Nós sim, curtimos muito nossa primeira casinha, colocando móveis, tapetes, artesanato, pôsteres do nosso gosto da época. Uma estética meio revolucionária, “handmade” com um forte colorido latino-americano.

Como por exemplo, pôsteres de Valparaiso e de Che Guevara.

 

Jorginho que se dizia “freelancer” do Pasquim, trabalhava pouco, e passava a maior parte do tempo em casa lendo. Se não me engano, nesse tempo militava na “Dissidência” como era chamada a ala resultante do grande racha do PCB, mas estava cada vez mais próximo de Trotsky e do nosso grupo, o “Ponto de Partida”.

 

O Ponto de Partida, no qual eu havia entrado pelas mãos de Jones, achava-se a semente do futuro, verdadeiro, autêntico, partido Bolchevista/Leninista e o próprio representante da IV Internacional no Brasil.

Embora coubéssemos todos numa Komby e estivéssemos todos exilados, portanto fora do Brasil. 

Mas pelas suas concepções, eu via Jorginho no novo partido como uma indiscutível vocação para um futuro burocrata do politburo.

 

Jorginho e Zezé, acho que ele carioca e ela nordestina, tinham uns 1,50 m de altura cada um. Eram pequenos, magros, ativos, e não sei se os dois, ou só Jorginho, verdadeiros leões na cama. 

 

Eu sabia disso porque ficamos com o quarto ao lado, separado apenas por uma parede de um material de gesso, na época chamado “Volcanita”.

A volcanita era um bom isolante térmico, mas péssimo acústico, e quase sempre, passávamos as noites acordados ouvindo urros, que se não fosse do Jorginho, eu facilmente atribuiria a um leão no cio.

 

Fora isso, nossa vida era muito, digamos, agradável, romântica, idílica. Andávamos em êxtase com essa nova experiência de pombinhos em novo e próprio pombal.

 

Melhor ficaria, logo depois, quando assumíamos a casa inteiramente para nós, como acontece no próximo capítulo...

 

 

 


 

sexta-feira, 23 de abril de 2021

Minha Versão - Capítulo 32 - Romance em Valparaiso

  

Romance em Valparaíso

 

Nada melhor para um início de namoro do que uma viagem de trem a Valparaiso.

 

É uma cidade fantástica, cheia de encantos, mistérios, romance, ladeiras, vielas, mar, casas coloridas penduradas nas montanhas, sempre com vistas para o majestoso Pacífico.

 

Um porto de longas histórias, grandes batalhas, navegações, piratas. 

Pelicanos, pinguins, focas, lobos e elefantes marinhos e muitas gaivotas. Todos eles tomando sol tranquilos na pequenas pedras e molhes do porto.

 

As ruas principais do porto com bares, hotéis e boates onde, com boa música, marinheiros do mundo todo, América, Ásia e Europa, embriagavam-se com as putas também do mundo todo. Chinesas, russas, argentinas, brasileiras e as falsas e verdadeiras francesas. 

 

Graças à fria corrente de Humbold vinda da Antártida, a costa chilena tem uma das águas mais piscosas do planeta. E aí podia-se comer todo tipo de frutos do mar. Uma enorme variedade de espécies desconhecidas para mim, que vinha do tíbio Atlântico onde eu conhecia apenas peixes, camarões, siris e mexilhões.

 

Choros, erizos, pulpos, machas, calamares, centollas, locos, piúres, jaivas e ostras. Ah, as ostras! Com finos Sauvignons Blancs ou Chardonnays chilenos que superavam Chablis franceses.

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Peixes que na época só se encontrava naquele lado da América, como o Congrio Rosa e Salmón Salvage, ainda não criados artificialmente.

 

Fomos eu e Marisol em início de namoro, Rafael o venezuelano namorando uma amiga dela, e mais um amigo. O plano era passar um dia, dormir os cinco amigos num albergue coletivo, bed&breakfast, e voltar no dia seguinte.

 

Passamos o dia caminhando pela cidade, pelo molhe, pelos morros, pelas praças e ruas centrais.

 

Em cada lugar uma novidade, uma descoberta para mim. Eu estava realmente encantado, com a cidade e com a companhia. 

 

Ela não era só a loirinha de belos olhos azuis do Pedagógico. Tinha uma inteligência, uma cultura e uma percepção de mundo surpreendentes, principalmente para uma menina de 17 anos, mistérios que tinham que ser desbravados, fiquei mais e mais envolvido.

 

Nas caminhadas de tarde pelas ladeiras da cidade, encontramos um bom albergue ao lado uma charmosa “Hostal”, que segundo a dona, tinha uma mansarda no terceiro andar, com vista para o mar, o que me deixou muito interessado, mas nada revelei aos amigos.

 

Jantamos num bar do porto, com música, vinho e gente muito animada. Tanta animação que chegamos a dançar, “Chic to Chic” o “Chic to chic” com Sinatra. E eu cantava: “Heaven, I’m in heaven”.

 

Meio constrangidos, não resolvíamos ir dormir, chegamos numa bela pracinha, onde pela primeira vez... conheci toda a educação e elegância britânica que os “Carabineros de Chile” tinham nessa época pré-Pinochet.

 

Num banco da praça, entre beijos e amassos, esquecemos que estávamos em local público, e só voltei à realidade quando um enorme e educado carabinero tocou levemente no meu ombro e disse:

 

-- Perdón caballero, no estarian mejor ustedes en un hotel?

 

Gelamos, mas pensei no que poderia acontecer se isso acontecesse no Brasil com nossa indecentemente violenta polícia. 

 

Respondi:

 

-- Gracias señor, és lo que vamos hacer.

 

E aproveitei a dica para propor: vamos deixar o albergue para eles e ficar na mansarda da Hostal?

 

Proposta aceita, fomos rindo muito da situação para o que seria o berço de um longo amor.


Em vez de uma noite, ficamos cinco.

 

Afinal estávamos de férias, e Santiago nessa época do ano é extremamente quente, seca e vazia, assim poderia esperar.

 

Cinco dias se descobrindo na mansarda. Os tênues raios de sol que entravam pela persiana de madeira revelavam o que não se via a olho nu, na luminosidade do sol. 

 

Era uma pele coberta de fina penugem loira, quase transparente que passei a chamar de “piel de durazno”.

 

Nesses cinco dias saíamos apenas à noite, para comer, dançar e tomar vinho.







 


sexta-feira, 16 de abril de 2021

Minha Versão - Capítulo 31 - Instalação no apartamento da Galvarino Gallardo e a separação definitiva.

  

Instalação no apartamento da Galvarino Gallardo e a separação definitiva.

 

O ano novo, passamos numa festinha em casa de Jones.

Ainda na primeira semana do ano, Egídio e família voltaram das férias e precisávamos desocupar a casa, não que ele pedisse, mas estávamos muito constrangidos.

 

Mais uma vez ele nos ajudou, conseguiu com um amigo, um ótimo apartamento para que alugássemos. 

 

Ficava num conjunto de edifícios muito bons na Calle Galvarino Gallardo no bairro de Providencia entre Pedro de Valdívia e Ricardo Lyon, uma ótima localização, e ainda tinha a vantagem de estar semi-mobiliado.  

 

Fizemos a mudança imediatamente, mas eu não quis caracterizar um reatamento e que moraria ali com Eliane.

 

Nas semanas que ficamos na casa de Elígio, passamos a limpo toda a relação, discutimos exaustivamente, e pela primeira vez conseguimos serenamente concluir pela inevitável separação.

 

Ficou combinado que não contaríamos a Elígio, para não criar uma frustação para quem estava nos ajudando com tudo. Eu pagaria o aluguel e uma pensão até que ela conseguisse um trabalho. 

 

O apartamento, o bairro, a vizinhança eram ideais para o crescimento da Carla que tinha acabado de fazer dois aninhos.  A saudade da nossa gordinha era enorme, e era compartilhada intensamente pelos dois, e foi o motivo para nos mantermos amigos, solidários e companheiros por todos os anos seguintes.

 

Como eu poderia pagar o aluguel e a pensão? 

Os dólares que trouxera transformaram-se numa enorme soma de dinheiro em Escudos pois a defasagem cambial era enorme, além disso, meu querido, solidário e compreensivo pai enviaria via Elígio, 100 dólares mensais, praticamente um salário de classe média nessa época de crise econômica.

 

Com a situação política devida à vitória da Unidad Popular e a eleição de Salvador Allende, a burguesia apavorada comprava dólares a qualquer preço para mandar para fora do país, e com medo de uma revolução à cubana, preparavam-se para uma fuga para Miami, como os gusanos de Cuba.

 

Mas a minha participação no pagamento do aluguel do apartamento que inicialmente era 100%, foi diminuindo rapidamente.

 

Acontece que os exilados brasileiros encontravam dificuldades para alugar   residências. Tanto pela falta mesmo de habitação de classe média no mercado, como pela pouca confiança que os proprietários, quase todos de direita, tinham nos exilados, que também não conseguiam empregos estáveis.

 

Assim, quando alguém conseguia um imóvel, logo surgiam amigos para dividir o espaço e o aluguel.

 

O apartamento, bem espaçoso, tinha três dormitórios, e Eliane logo teve a proposta de dois casais para os outros dois quartos.

Além disso, logo começou a namorar um brasileiro, estudante de economia de Santos, que ficou muito meu amigo, mas de quem, infelizmente não consigo mais lembrar o nome. E ele que já estava há mais tempo no Chile, tinha um emprego bem remunerado. 

 

Eles resolveram morar juntos, e assumiram a terça parte do aluguel que caberia a mim.

Logo no início das férias de verão de 1972 tudo tinha dado certo, como num happy end de comédia romântica americana.

 

Tudo estava se encaminhando bem, e eu resolvi voltar para casa do Jones, onde ainda tinha meu quartinho.

 

Eram tantas descobertas, na cultura, no país, nas pessoas, nas leituras, que estava maravilhado.

Resolvi curtir a liberdade, a vagabundagem e as novidades de um país e uma cultura novos pelo qual já tinha me apaixonado.

 

 

Nesse breve período de responsabilidades e coisas práticas, fiquei afastado dos colegas da faculdade e dos amigos de Macul.

Logo que pude fui procurá-los.

 

Jones já tinha superado a fase depressiva, e conversávamos muito. 

Eu adorava nossos papos, conheci os bons vinhos, a distinguir as uvas, as viñas, e os vales de cultivo, de Colchagua, do Maipo, do Maule, Central, etc.

Bons jantares na casa de Jones onde eu bebia dos bons vinhos e da sua inesgotável cultura e erudição.

 

Consegui contactar a galera do Pedagógico, alguns casais tinham se formado. Rafael Rengifo namorava uma amiga de secundário da Marisol, Pablito tinha conseguido uma namoradinha, mas felizmente, meu interesse inicial daquela aula de arqueologia ainda estava sozinha. 

 

Marisol tinha grande interesse pelo Brasil, pela cultura brasileira e pelos brasileiros, e foi por aí que me insinuei e consegui ser notado. 

 

Começamos a namorar, namorinho comportado, cinema, beijinhos, mas a coisa só pega fogo mesmo, no próximo capítulo.  

Numa viagem ao porto e aos mistérios das ladeiras de Valparaiso ...