sábado, 29 de junho de 2019

HOMO IMBÉCILIS


Saindo hoje para a garagem, fiquei novamente impedido de acessar minha vaga porque um vizinho colocou uma camionete e duas motos ocupando sua vaga e toda a circulação em volta.
Pedi educadamente, explicando que preciso trazer compras de supermercado, 
carrinho de bebê, etc...
Ele reagiu:
  • vai tomar no ... Não vou tirar porra nenhuma, e se encher meu saco te quebro de porrada. Sou policial e não levo desaforo pra casa.
Ele é do tipo "bombadão", braços fortes, tatuados com "tribais” e uma frase "Deus acima de tudo".
A síndica, minha antiga vizinha ficou horrorizada, traumatizada, e me perguntou o que podemos fazer? Respondi: 
  • nada vizinha, não há nada o que fazer. Vou lhe mandar um e-mail explicando os motivos.
Segue o e-mail:
Cara vizinha, sei que ficou decepcionada com a minha reação, mas explico.
Recentemente, cientistas de Oxford detectaram o aparecimento de um novo tipo de Homo. Tem as mesmas características físicas do Homo Sapiens, mas difere em pequenos detalhes que são as marcas da nova espécie. Cérebros reduzidos (menos de 200 cc), membros fortes, boca constantemente entre-aberta e olhar distante.
Contra essa espécie não adiantam argumentos, pois sua lógica é muito reduzida, binária, portanto só vêm o sim ou o não, amigo/inimigo, certo/errado. São profundamente maniqueístas.
O estudo de Oxford concluiu também que os primeiros espécimes apareceram no Alabama, no início do século XX em grupos da seita KKK Ku Klus Klan. 
São resultado de um degeneração da espécie humana por causa de repetidos cruzamentos endogâmicos, que foram originando taras, reduzindo o cérebro e aumentando os músculos, como uma reversão da evolução.
Esses genes foram profundamente estudados por cientistas nazistas alemães e espalhado por quase toda a terra, gerando a atual espécie que denominaram de 
"HOMO IMBÉCILIS".
Alimentam-se basicamente de carne mal passada e trash food. Também adoram pizza e cerveja.
Reúnem-se principalmente em academias de ginástica e stands de tiro, pois adoram armas.
Quanto à sua pergunta vizinha (o que podemos fazer?), respondo outra vez: nada.
Disseminaram-se pelo mundo e hoje são maioria.
Você pode encontrá-los estacionando em vagas reservadas a deficientes, furando filas, ultrapassando pela direita, falando alto ao celular em restaurantes.
O Brasil foi terra muito fértil para o alastramento do HOMO IMBÉCILIS, devido a incentivos fiscais e políticos e à sua estimulação pela mídia, que criticava as manifestações de inteligência e enaltecia a mentira nas redes sociais.
Aqui os IMBÉCILIS adaptaram-se muito bem nas facções criminosas e presídios, depois também nas milícias paramilitares e se propagaram mesmo, quando entraram na política, alcançando em pouco tempo as câmaras, prefeituras, estados, congresso nacional, promotorias, e finalmente a presidência da república.
Nelson Rodrigues já havia previsto esse fenômeno em meados do século passado: “Os idiotas vão tomar conta do mundo, não pela capacidade, mas pela quantidade, eles são muitos.
Enfim, nada podemos fazer, eles venceram e agora são maioria.





terça-feira, 10 de julho de 2018

A conferência


A conferência


O orador entrou na sala, já apinhada de gente bonita e alegre, ocupou o seu lugar na mesa da frente, retirou um papel do bolso do casaco e leu o título da comunicação:

«Uma queda oscilatória no abismático mundo das cornucópias todas amarelas, onde se analisa o subtil descalabro de um perturbado cérebro em ascese negativa onisciente, ou a interação possível dos vetores favoráveis a um imprevisível futuro português.»

Todos os presentes se entreolharam, em silêncio expectante...

Subitamente, o orador sofre uma violenta combustão espontânea e precipita-se para a janela, atirando-se para o vazio.

Minutos depois, vendo que não havia perguntas, o moderador dá por concluída a sessão e os espectadores saem, contentes e satisfeitos.



terça-feira, 8 de maio de 2018

Andrea de Volta à Brasília.


Andrea desce do avião ainda com o coração aos pulos, na boca.
Sai empurrando o carrinho em direção à fila de taxi.
No meio do caminho ele aparece, tenta empurrar o carrinho e você não deixa.
Olha para o alto, com cara de indignada, e com razão.
Como pode ter feito uma sacanagem dessas contigo a seis meses do casamento.
Ele insiste, põe uma mão no carrinho, e mesmo assim você continua a empurrar.
E ainda por cima, aquela cachorra posta tudo na internet, os dois na praia de Pajuçara, biquíni de biscate, selfie na cama, te chamando de "meu namorado, minha paixão".
Repassei para a sua mãe só para ela ver quem era o filho dela, o que fazia com a sua noiva.
Não adianta, vou de táxi!
Mas ele insiste, chegou no estacionamento, põe as malas no carro.
E agora? Mantive a aliança no dedo até agora só para poder tirar na tua frente e jogar na tua cara. Não tem vergonha? Aquela putinha?
Ele te olha com aquele olhar triste de arrependimento.
Você pela primeira vez o olha nos olhos, no fundo dos olhos castanhos.
Safado, castanhos de enganação, de sofrimento fingido.
Ele segura na sua mão esquerda com a mão direita , você tenta tirar, mas ele faz um olhar de súplica, de cachorro molhado.
A mão esquerda pega a sua direita e ele se aproxima, suspira fundo. Que cheiro bom...
Você dobra ligeiramente o pescoço e o olha de baixo para cima. Sem-vergonha, ele abre os lábios e suspira outra vez.
Aproxima-se, encosta corpo no seu corpo, você pensa em se desvencilhar, mas apenas sacode o cabelo para o outro lado.
Ele cheira seu pescoço, que abusado. Enfia o rosto nos seus cabelos, o braço direito aperta a sua cintura.
Você sente todo o corpo apertado contra o seu.
A mão esquerda passeia pelas suas ancas, você se desequilibra, cai de costas na cama, e fica sem reação. Apenas se lembra de soltar os cabelos que se esparramam abundantemente pelo lençol.
Ele se põe ao seu lado, beija seus olhos e delicadamente acaricia sua face.
Olha seu corpo na cama com cara de saudade/surpresa/admiração/desejo.
Sua boca se entreabre pensando inconscientemente num beijo, e parece que ele adivinha. As bocas ardem num beijo calmo, longo, prolongado.
O seu decote é um estorvo e um convite. Um dedo passeia pela borda do tecido, entra apertado até dar um arrepio de endurecimento.
Uma perna força a saia curta, apertada que sobe quase até a cintura.
A mão despudorada já invade a sua calcinha. Você pulsa por dentro, se aperta, se arrepia.
Ele brinca com seus olhos agora embaçados de desejo, olha bem no fundo e diz a primeira palavra desde que te encontrou no aeroporto:
Perdão meu amor.
Você se sente pulsar mais uma vez, e o agarra pelo pescoço e o puxa para si.
Beijo sôfrego, faminto,.
Livra-se rapidamente da irritante calcinha e verifica o sexo dele, o conduz.
Ah! Indescritível prazer, movimento, mexendo-se os dois como se fossem um.
E o movimento cada vez mais forte, mais alto, mais dentro de cada um, e vem o auge da felicidade.
Caídos os dois, exaustos, lado a lado ele te diz:
Te amo.
E você olha para cima e vê uma aranhinha tecendo sua teia na quina da laje branca com a parede verde-escuro do motel barato.
12/08/2016 - voo TAM 3688 Brasilia-Florianópolis.
Barama Oback da Silva.