sexta-feira, 18 de setembro de 2020

Minha Versão - Capítulo 01 - Porque mais uma versão - Anos 60, Revolução Cubana, Reformas de Base, Golpe Militar, Sexo, Política e Rock and Roll

 

Porque mais uma versão.

 

 

Anos 60, Revolução Cubana, Reformas de Base, Golpe Militar, Sexo, Política e Rock and Roll, Ditaduras Militares, WoodStock, Revolução Sexual, Liberdade Liberdade, O Foquismo e Debray, Pátria o Muerte Venceremos, maconha, O livrinho vermelho do camarada Mao Tze Tung (que nem se escreve mais assim), Feminismo, Lev Davidovitch Bronstein, vulgo Trotsky ,  Debray, Marijuana, Master & Jonhson, Freud,  orgasmos múltiplos, Rolling Stones, Ligas Camponesas, Tropicália, Isaac Deutscher,  Não tome o elevador tome o poder, maio de 68, é proibido proibir. Levy Strauss, Coen Bendit, Julião, Mariguela, Gal, O Pasquim, Vietnã....É mole?

 


Já li e ouvi tantos relatos, versões e romances a respeito, que ousei perguntar, porque não a minha versão?

 

Na época certamente acharia que a minha seria, sem dúvida, a melhor versão, a mais politicamente correta, a mais engajada e revolucionária. Depois de alguns longos anos, comecei a achar que seria somente razoável, depois simplesmente desprezível, olvidável. Cheguei a achar que seria muita pretensão tentar colocar no papel minhas experiências naqueles anos.

 

Finalmente, no equilíbrio da... maturidade? Permito-me perguntar: que tal revelar ou registrar a minha versão? Nem que seja para os netos, os amigos mais íntimos e alguns (cada vez mais raros) pesquisadores daqueles tempos e lutas que mudaram (ou em que mudamos) o mundo e o Brasil.

 

Hoje me vejo à época como um observador, embora participante, mas um tanto distante. Engajado, mas sempre, com certo distanciamento que não posso chamar de crítico nem alienado. Seria um tanto literário? Eu poderia estar fazendo uma ação revolucionária, pichando um muro, gritando um discurso relâmpago num trem da Central do Brasil ou “defendendo el camino chileno hacia el socialismo” numa passeata por “La Alameda Bernardo O’Higgins” em Santiago, que padecia sempre de um constante e incômodo sentimento de ridículo.

 

Na verdade, eu nunca me senti totalmente cômodo ou engajado em coisa nenhuma, mesmo que meu romantismo me convencesse por momentos e me levasse verdadeiramente a sentir o momento (apenas o momento) com grande intensidade.

 

A História e as estórias são muito longas. Quando começo a lembrar, os episódios vêm tão ricos, tão densos e cheios de detalhes, que se fosse romancear odores, sabores, tons, luzes, pessoas e sensações, não terminaria nunca. Por isso, resolvi deixar registradas como flashes as abundantes lembranças daqueles anos. Mas como são pobres as reproduções da realidade! Que pena não dispormos de uma mídia (ou uma arte?) que conseguisse expressar tudo ao mesmo tempo.

 

Mais tarde me permitirei, caso tenha memória, vida e momentos de tranqüilidade suficientes, revisitar com detalhes esses momentos do passado, e aí sim, adornar os fatos frios, com o colo “de piel de durazno” da amada na “translucidad” outonal de uma mansarda em Valparaiso com vista para “el inespugnable” Pacífico (como diria el poeta Pablo Neruda), o pavor noturno numa cela da polícia política carioca, ou o sabor da vitória quando encarávamos os prepostos da ditadura a cantar o hino de Chico Buarque: “Apesar de você, amanhã há de ser outro dia”. E foi ..., apesar de muita borrachada.




 

SANZABEL - Capítulo 01 - Maria do Porto Rico


Ogum não devia beber,
Ogum não devia fumar,
Porque a fumaça é nuvem que passa,
E a cerveja é espuma do mar ...


Ninguém sabia direito de onde e como ela tinha vindo parar em Santa Isabel.
Morena “índia”, corpuda, cabelos pretos e lisos até as costas, olhos grandes de cigana que até assustavam e davam-lhe um tom de mistério e poder.

Alugou uma casa de madeira colorida, bem espaçosa onde recebia regularmente seus clientes para rezar e fazer os trabalhos que lhe solicitavam.

Os mais chegados, diziam que tinha vindo de Porto Rico, município à margem do Paranazão, deixando lá marido, família e uma rica história. Trouxera apenas duas filhas mais velhas que lhe serviam na casa, desde faxineiras, cozinheiras e até como cambonas. Ajudavam servindo à casa e às entidades que por ali passavam habitualmente, e mais certamente nas sextas-feiras quando a mãe recebia sua pomba-gira e dava consulta.

E não era só a pomba-gira, dependendo da necessidade e do cliente, podiam chegar também Iemanjá, Oxossi, Preto Velho, Criança e até, para resolver de vez as demandas mais cabeludas, um Exu Tranca-rua com tudo que tinha direito.

Na sexta era consulta “incorporada”, mas consulta direta, com búzios ou cartas era todo dia, não tinha hora, e cada vez era mais gente que vinha consultar.

Em pouco tempo ficou famosa pelos seus acertos, seu nome espalhou-se pela cidade como grande vidente e rezadeira. Fazia também trabalhos para os santos que ninguém mais duvidava da eficácia.

Era todo tipo de gente que vinha consultar com Maria do Porto Rico, como ficou conhecida. Homens, senhoras de família, da sociedade isabelense, mocinhas casadoiras, cornos desconfiados e convictos, doentes de todo tipo de doença, do corpo, do espírito e “das partes”.

Maria do Porto Rico curava de um tudo. Trazia marido de volta, segurava marido para não ir embora, fazia marido desistir da amante, e se fosse pedido pela corna, até deixar o cabra broxa, com a amante, em casa ou para sempre em todo tipo de serviço.

Trazia a pessoa amada de volta em três dias e tinha remédio para tudo, chá de tudo que é tipo e garrafadas das mais violentas e eficazes. Espinhela caída, barriga d’água, nó nas tripas, bicheira, tumor, frieira, gazes, impotência, etc...

Cada vez mais famosa, Maria já estava “bem de vida”, como se dizia na época. As filhas estudavam para professora no curso normal, e já eram convidadas para as tardes dançantes nas casas das amigas das melhores famílias. Todo domingo não faltavam à seção da tarde do cinema do velho Pacheco. Não perdiam uma fita de romance, ou um filme de rock and roll do Elvis. Gostavam também das aventuras do Roberto Carlos.

A casinha já estava bem ajeitada, sempre pintadinha de nova, cuidada com muito capricho pelas três. Dava para perceber o progresso financeiro e a consequente ascensão social de Maria do Porto Rico e das filhas, Ritinha e Fátima.

Cliente era o que não faltava, como nessa época em Santa Isabel todo marido tinha uma amante, a maioria das clientes queriam que Maria lesse nos búzios o nome da desgraçada para se vingarem, e pagavam qualquer coisa.

Mas quem pagava mais mesmo, eram os maridos que, com medo de Maria entregar o nome da “filial” pagavam o dobro, o triplo do que a mulher já tinha pago.

E Maria do Porto Rico só faturando. Em casa tudo novo, geladeira, fogão de 6 bocas esmaltado, jogo de panela dos mais caros, o faqueiro então “traia de patrão”, como se orgulhava Ritinha já de olho na herança. Até televisão chegaram a comprar, coisa ainda de pouco uso, porque a antena da emissora ainda não tinha sido instalada.

Porém, sempre existe um porém, um elo da cadeia de informação de Maria que digamos “adivinhava” os nomes das amantes, era uma tanto frágil, Zé Maria, viadinho saltitante e assumido que trabalhava varrendo o chão do salão do único barbeiro da cidade, o Pertence.

Embora querido e tolerado por todos os vetustos senhores fregueses, Zé Maria era quem passava os nomes, situações e detalhes íntimos e sórdidos dos encontros dos maridos. Tanto na casa das amantes, para aquelas que já tinham casa posta (teúdas e manteúdas), quanto para aqueles ainda menos experientes, ou com menos posses, que se limitavam a ter uma “fixa” na Periquita de Ouro.

A Periquita de Ouro, puteiro da cidade, era tão bom que sua fama era conhecida e atraia gente de todas as cidades vizinhas, Tapira, Douradina, Santa Cruz do Monte Castelo, Santa Mônica, de Loanda então nem se fala, não tinha macho que não tivesse ido pelo menos uma vez na Periquita.

Na primeira consulta, a possível corna só dava o nome do marido, suas desconfianças, pagava o devido e ficava de voltar daí a uma semana, o tempo necessário para Maria se comunicar com seus guias e fazer os trabalhos, que variavam de valor de acordo com as posses da visitante. Zé Maria apurava tudo no salão de barbeiro e trazia de bandeja para Maria do Porto Rico por pouco mais que uma gorjeta. Ele gostava mesmo era da fofoca.

No início, Maria entregava de vez o infeliz que acabava apanhando em casa ou ganhando um par de chifres de vingança.

Mas foi aí que a vidente descobriu uma fórmula muito mais rentável. Chamava o cafajeste, dava-lhe um esporro, uma lição de moral e ameaçava com tudo que era santo, vingança, despacho em encruzilhada para o terrível Tranca-rua e no fim vendia um trabalho muito caro para que os santos não deixassem a corna chegar a saber de nada.

Zuca, português esperto, consertava TV, rádio, máquina de escrever, etc. em sua casa ao lado do terreiro de Maria do Porto Rico, e como naquela época o movimento não era tanto assim, ficava assuntando o tempo todo e vendo um por um os que entravam para se consultar com Maria.

Com Antônia do Zequinha não foi diferente. Contra a vontade do marido, numa quarta-feira à tarde, enquanto ele fazia a sesta, roncando e babando no sofá verde da sala, foi se consultar com Maria, estava certa que Zequinha estava pulando a cerca.

Maria, como sempre, desconversou, anotou o nome do infeliz e disse que ia fazer um trabalho para Iemanjá, protetora das mulheres bonitas (Antônia achava que era...) para perguntar o nome da biscate que Zequinha andava comendo.

Cobrou a consulta e mais o custo do trabalho, saía caro porque tinha champanhe, perfume francês e rendas da melhor qualidade, Iemanjá não deixava por menos. Antônia pagou, já meio contrariada, mas pagou.

O problema é que Zuca, maior amigo do Zequinha, de muita putaria na Periquita de Ouro, viu Antônia entrando e na noite seguinte encontrou o amigo no caminho para a zona, e contou quando pararam para tomar uma no bar habitual que ficava no fim da cidade, no caminho da Periquita, chamado “O Último Gole”.

Zequinha também desconfiou do viadinho do Zé Maria. Na tarde anterior, tinha ido cortar o cabelo, e enquanto o Pertence trabalhava com pente e tesoura, o Zé Maria trazia cafezinho, água, puxava-lhe o saco descaradamente, perguntava pela Dª Antônia, e... como era mesmo o nome da menina que ele estava pegando na Periquita de que todo mundo andava comentando?

Zequinha não gostou nada da intimidade de Zé Maria, e só não mandou ele para a “puta que o pariu” em respeito à barbearia, que como sabemos é um dos lugares mais sagrados e respeitados pelos homens de cidade pequena. Templo do saber, da política e do futebol. Onde são feitas as declarações mais peremptórias e as confidências mais íntimas e profundas.

Quando soube da visita da mulher à vidente, Zequinha tomou o fato como uma verdadeira traição. “Como ela podia desconfiar dele? Homem probo e consciente dos seus deveres de pai e chefe de família. Que nunca deixara faltar nada naquela casa”. Embora merecesse, ele só não bateu nela por princípio, mas que deu vontade deu. Chegou a tirar o cinto, mas se conteve. Mas a gritaria foi grande.

Antônia não se conformou. Passou na barbearia, pegou a bichinha pelos cabelos (longos, falsamente loiros e recém escovados) e foi direto para a casa de Maria do Porto Rico.

Entrou pisando firme, sem se anunciar e chutando a porta que se escancarou derrubando e espatifando no chão o cafoníssimo jarro verde e amarelo de louça que, em cima de um tamborete, sustentava o comigo-ninguém-pode de proteção da casa.

A cachorrinha da casa, só de ver os olhos fumegantes de Antônia, correu ganindo para o quintal, chorando feito filhote.

Maria estava em frente ao congá fazendo suas orações. Antônia agarrou aqueles lindos, longos, negros e lisos cabelos de índia brava e de um só golpe deixou Maria estatelada no chão. Tirou do cinto grosso e de fivela não menos cafona que o vaso, e destruiu o congá, santo por santo, vaso por vaso, vela por vela, flor por flor. Depois foi a vez de Maria, e deu...

- Sua macumbeira de merda, me cobra uma fortuna e depois ainda conta para o meu marido que eu vim aqui. Toma sua desinfeliz, e deu...

E vapt, e vupt.

- E você sua bichinha louca, toma também para não ficar dando em cima do marido dos outros, e deu também...

A coisa foi feia. Acabaram todos na delegacia. A casa semidestruída, Maria e Zé Maria com escoriações generalizadas e Fagundes, o fotógrafo da “Folha Isabelense” fazendo as fotos que sairiam na primeira página do dia seguinte.

Alguns anos depois, tomando calmamente uma gelada na Periquita de Ouro, Zequinha pergunta pro Zuca:

- Rapaz, você se lembra daquela vidente tua vizinha? Onde será que ela anda depois que sumiu de Santa Isabel?

- Sabe não? Era Maria da Rocha. Voltou para o marido, Edenilso da Rocha. Ouviu a Palavra, converteu-se e hoje é pastora e prega junto com o Edenilso na igreja evangélica que fundaram, a “Rocha Viva do Senhor Jesus”.

Pois é, é por isso que:

Ogum não devia beber,
Porque a cerveja é espuma do mar ...


sexta-feira, 22 de maio de 2020

SANZABEL - Capítulo 02 - A morte de Risadinha e as dificuldades de Naú no serviço funerário


Não havia na cidade quem não gostasse, e muito, de Naú.
Alegre, animada,  estava sempre disposta a ajudar, fosse quem fosse.
Mãe de quatro filhos, viúva desde sempre, paraibana porreta, mulher direita, nunca tinha desmerecido o nome do finado Bahia.

Não rejeitava tarefa e não enjeitava trabalho. Fosse aniversário, quermesse, festa da cidade, batizado, crisma, para tudo que era festa, lá estava Naú pra ajudar.
                                                                                           
Mas sua preferência mesmo era velório. Não tinha um que Naú não fosse, ajudasse, coordenasse e depois comentasse, em casa e para parentes e amigos.

Veloriozinho pobre, chinfrim! Ou: que maravilha de velório! Você não imagina, uma festa, tinha gente de todo lado, veio gente de Loanda, Santa Cruz do Monte Castelo, Cidade Gaúcha, Paranavaí, Maringá, Londrina e até de Curitiba. A comida farta, cachaça e cerveja da boa. A viúva estava linda! Véu preto de renda portuguesa, vestida com um tubinho preto de cetim, muito apropriado. O defunto com um terno chique, sapato de couro alemão.... etc.

Isso quando o defunto tinha posses. E Naú era igualitária. Se num mesmo dia tinha um velório com muitas flores, coroas e fitas, e noutro lado da cidade um outro meio pobrinho, ela não tinha dúvida. Levava sem contestações, algumas coroas do morto rico para a casinha do morto, digamos, menos favorecido.

Assim que corria a notícia de um falecimento na cidade, Naú chegava na casa do defunto antes mesmo dele. Quando o corpo chegava do hospital ou do IML, já estava tudo organizado. Mesa no meio da sala para velar o morto, caixão escolhido e às vezes até já comprado, cadeiras alinhadas na parede para o povo sentar, etc.

Naquele tempo, em Santa Isabel não tinha casa funerária ou capela para velar o morto. O velório era em casa mesmo, e quem preparava o corpo era Naú. Dava banho, penteava, barbeava e trocava a roupa. Deixava o defunto quase sempre melhor que nas suas últimas horas. Tudo isso de graça, por solidariedade, por um certo prazer que, enfim, não vem ao caso.

Na cozinha, as vizinhas todas convocadas por Naú trabalhavam nos salgadinhos, docinhos e diversos tira-gostos para acompanhar a inevitável cachacinha de barrica, famosa na cidade e região.

Tinha “de um tudo”. Coxinha, linguiça picada, croquete de carne, de camarão, empadinha. E a cerveja era posta para gelar para acompanhar a sempre longa noite antes do enterro.

Não contente com organizar a festa, Naú era também a “mestre de cerimônia” do evento.
Na hora derradeira da despedida da família, Naú ordenava: “Atenção pessoal, vamos dar quatro passinhos pra trás que tá na hora da família se despedir."

Agora Donna Mariazinha (se esse fosse o nome da viúva), a senhora, os filhos e os netos podem se aproximar.

Vamos chorar o suficiente e rezar três Pai Nossos e cinco Ave Marias, porque num velório, a frase final da oração caia muito bem:

“Santa Maria, mãe de Deus, rogai por nós pecadores, agora na hora de nossa morte. Amém”.

E depois disso, Naú comandava o fechamento do caixão, geralmente feito pelos filhos homens e o início da caminhada para o cemitério, “Nossa última morada”.


* * * * *

Mas acontece que no velório de Risadinha, as coisas sucederam de forma um pouco fora do habitual.

Risadinha era um mulato forte, cabra valente, 1,90 de altura, casado, três lindas filhas, e “fazedor de poço”, profissão muito conhecida na época quando não tinha água encanada e quase toda casa tinha poço.

Risadinha era o “poceiro” da cidade, muito conhecido e estimado por todos, cabra simpático, boa praça e cobiçado pelas mulheres pelo seu físico e simpatia.

O apelido vinha do seu sorriso permanente devido à uma deformação dentária que o deixava sempre com a arcada superior à mostra, numa risada constante e até um pouco desconcertante. Estava sempre de bom humor ou seria apenas pela condição física de sua boca?

Tanto faz, o que interessa é que Risadinha era conhecido como o bom humor em pessoa, e isso trazia amizade, amor, simpatia e também inveja e uma ponta de raiva nos seus detratores.

Risadinha incomodava um pouco os homes da cidade, porque, como se dizia: “Comia todo mundo”.

Casada, solteira, desquitada, viúva então nem se fala. Fazia o serviço geral. Passava o rodo.
As meninas da famosa boate de Santa Isabel, a “Periquita de Ouro” se gabavam de já ter conhecido o Risadinha.

Tem até uma estória de que Risadinha fez um poço no quintal da “Periquita de Ouro” em troca do compromisso de um serviço constante das “primas” por um ano inteiro. E não tinha quem se negasse a dar sua contribuição para pagar a dívida.

E elas não desmentiam. Dizem que adoravam ter que pagar tal tributo. Risadinha era também conhecido pelo seu dote desproporcional, que proporcionava intenso prazer nas senhôras, senhoras e senhorinhas da cidade.

Além de ótimo filho, marido e pai extremado, Risadinha costumava, para cobrar o serviço do poço na “Periquita”, encontrar-se com uma das meninas de lá toda quarta-feira num hotelzinho da cidade, depois de um lauto almoço na churrascaria da Dona Mafalda, para dar “umazinha”.

E foi numa dessas quartas-feiras que Risadinha capotou. Buxo cheio, infarto fulminante, no exato momento do “ápice do amor”. Morreu gozando!

Foi duro tirar ele de cima da quenga (já nas palavras da esposa e de Naú).

Duro por dois motivos, primeiro porque o cabra era grande e pesado demais, e segundo porque a “verga” continuava dura, tesa, solenemente hasteada como um mastro da bandeira nacional. E era grande...

Mas, como de costume, Naú conseguiu arrumar o corpo para o velório em casa, velório sério, vetusto, mas com tudo a que tinha direito o grande Risadinha. Muita cachaça, cerveja, salgadinho, sanduíche e até um churrasco patrocinado pelo seu grande amigo e dono do hotel das quartas-feiras, Nilto da Vandinha (que aliás, de tão famosa, merece ter sua história contada um dia nesses “recuerdos” de Santa Isabel).

Banhado, barbeado, penteado, a viúva levou seu melhor terno de linho branco para o velório.
Mas como vestir a calça do terno, se aquele mastro se recusava a baixar. Não tinha jeito, na vertical, 90 graus com o horizonte, rígido, e o pior, aumentado de tamanho, entumecido pelo tempo que ficou com o sangue ali disposto.

- Manda buscar um esparadrapo na farmácia do japonês que eu dou um jeito nisso, comandou Naú.

E deu, duas três tiras de esparadrapo abaixaram a petulância do Risadinha. Só que devido à intumescência, não deu para vestir a calça, e ela foi assim por cima mesmo, afinal, ninguém ia ver os lados soltos da calça embaixo de tanta flor.

Muitas flores, margaridas brancas e cravos vermelhos, que eram as preferidas do “de cujo”. Oferecidas por dezenas de anônimas admiradoras, para ódio de Marinalva a esposa.

E o velório transcorria na calma rotineira de todo velório.

Amigos e parentes nas cadeiras alinhadas na parede, o caixão em cima da mesa no meio da sala, um chorinho de vez em quando, uma nova visita que chega (meus pêsames Dona Noquinha – apelido da esposa) “santo homem, grande amigo, etc...”, aquele cheiro de flor, vela e formol, enfim um velório como outro qualquer.

Lá fora na varanda de trás, o churrasco corria solto, e cada vez mais os amigos chorosos lembravam das façanhas do Risadinha. Tristes, inconformados por um amigo daqueles, cheio de alegria e saúde, tão jovem... e tome cachaça, costela, linguiça e coraçãozinho de frango.

O calor do dia todo, aumentava na noite sem uma brisa. Tinha dado uma chuvinha que só aumentou a sensação de calor e umidade do ar. E todos suavam, às bicas. Camisas empapadas, calças arregaçadas, camisas abertas. Só mesmo com mais uma gelada.

E a noite corria, as crianças já tinha ido dormir, a viúva cochilava de vez em quando acompanhando as amigas de sempre. A modorra tomou conta.

Mas eis que o silêncio da noite morna foi rompido com um grito de Gutinha, sobrinha amorosa de dezesseis aninhos  que adorava o tio, e até já meio falada na cidade por causa disso:

- Meu Deus, o esparadrapo se soltou!!!

Com o calor, o suor, e a pressão, o esparadrapo colocado por Naú se soltou, e o “Mastro do Risadinha” voltou-se a empinar majestoso, todo poderoso, dominante na penumbra daquela sala. A calça leve, de linho branco voou e Risadinha expôs todo seu poder sobre os homens e mulheres da sofrida Santa Isabel do Ivaí.

Gutinha, ria, chorava e dava gritinhos histericos ao mesmo tempo. Ai meu Deus tio. Ai meu Deus tio...

Foi uma gritaria, um corre-corre, Naú já indignada defendia uma medida radical: “Me dá uma peixeira que eu corto o pau desse filha da puta”, dizia a paraibana no seu ódio de brios humilhados.

Mas nada, nada aconteceu.

Risadinha continuava no caixão, todo de linho branco, o mesmo sorriso nos lábios e o enorme pau duro empinado desafiando o falso moralismo e a hipocrisia isabelense

Todos da varanda entraram correndo, e Mané Preto, velho oficial de justiça, muito preto e muito querido na cidade, praticamente ditou o epitáfio de Risadinha:

“Negão filho da puta, viveu rindo e morreu gozando...”


segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

Em defesa do estado mínimo.

EM DEFESA DO ESTADO MÍNIMO
De Adam Smith a Milton Friedman, os modernos economistas brasileiros nunca se depararam com afirmativa tão estapafúrdia:
O Brasil já alcançou o “ESTADO MÍNIMO”.
Como assim? Se estamos saindo de uma gestão esquerdista, distributivista e assistencialista?
Senão vejamos. Nossos liberais, neo ou clássicos, do globalizado Sadenberg ao barroco Fernando Henrique, continuam afirmando que devemos chegar ao “ESTADO MÍNIMO”, e ainda não se deram conta que o ESTADO no Brasil já é MÍNIMO, e faz muito tempo.
80% do território da cidade do Rio de Janeiro está sob controle de Milícias ou Facções que assumiram as funções de um “ESTADO Inexistente”. Cobram impostos, asseguram segurança, garantem o transporte público, fornecem energia, TV, comunicação, gás e cesta básica. Permitem educação e saúde. Cadê o ESTADO?
Lá, malandro não rouba de trabalhador porque senão a lei de Talião é exercida.
A educação é mínima, se você quer ter uma boa educação para seu filho, tem que recorrer à iniciativa privada, porque a educação que o estado proporciona é ZERO. ESTADO MÍNIMO.
E saúde? Estados capitalistas e liberais  como Reino Unido, Portugal, Dinamarca, Suécia, etc.. fornecem saúde básica universal e de qualidade. Aqui, alegrem-se senhores neoliberais, a saúde pública fornecida pelo estado, já é zero, pior que a “mínima” defendida por vocês. ESTADO MÍNIMO.
E segurança? Felizmente para os senhores neoliberais, o estado parou de investir em segurança faz um século, e hoje conseguimos preservar nossas vidas e patrimónios através de grades e guardas privados contratados por aqueles que podem. Como deve ser para os senhores neoliberais. ESTADO MÍNIMO.
Por favor, economistas e amigos neoliberais, não me venham mais defender o ESTADO MÍNIMO antes de visitarem a Cidade de Deus e o Complexo do Alemão no Rio de Janeiro e ver como suas ideias funcionam. 
Lá já temos em pleno funcionamento o ESTADO MÍNIMO.
P.S. Que em breve estará funcionando em todo o país...
zeluciogomes.




                                                                                       

Geraldo o “Pessimista”

Geraldo, o "Pessimista".
Meu amigo Geraldo, nem sempre foi pessimista.
Tinha uma tendência, mas era só uma tendência. Só se concretizou mesmo agora, na era bolsonariana
Seus argumentos para tornar-se definitivamente pessimista, em relação ao país, são muito coerentes, e confesso, que embora não seja pessimista como ele, começo a concordar com Geraldo.
Seu argumento básico é que a maioria da população brasileira realmente vem sofrendo um processo de “idiotização” irreversível que culminou na maioria que elegeu Bolsonaro e seus asseclas por vários estados.
E se eles se tornaram maioria, não tem mais jeito. Estão aumentando em número e convicção e ganharão todas as próximas eleições.
Você não reparou no aumento de caras “bombados” de academia, com tatuagens de “tribais”, que gritam ao celular, que andam armados, ultrapassam pela direita, buzinam nos semáforos e se for o caso dão porrada em quem reclamar, mesmo sendo um velho ou uma gestante?
Eles realmente concordam com todos os descalabros do governo, seus integrantes, apoiadores, ministros, governadores, juízes, promotores, pastores, procuradores, assessores, ideólogos, etc.
Concordam que estávamos vivendo um momento de devassidão moral causada pela esquerda comunista, com objetivos satânicos.
Acham realmente que esse negócio de homem que gosta de homem e mulher que gosta de mulher é uma doença causadas pelos artistas, roqueiros e psicólogos que propagam o sexo livre, a maconha, o ateísmo e as peças de teatro e livros complicados.
Eles de fato concordam que o nazismo é um movimento político de esquerda.
A maioria concorda que índios são seres sub-humanos e que devem ser catequizados para desistirem de seus costumes e religiões pagãs. De preferência por pastores evangélicos, porque no meio da igreja católica também tem muito comunista.
Deve-se acabar com cotas e vitimismos para negros, pardos, índios, etc.  Pois só assim eles saberão onde fica o seu lugar.
O ensino tem que ser reformulado em todo o território nacional para afastar os esquerdistas professores que ensinam que a terra é redonda, que o mundo está se aquecendo, que se deve preservar a natureza e outras frescuras, principalmente as florestas, que é onde eles pretendem se esconder no futuro para fazer guerrilhas mulçumanas e sexo grupal.
O brasileiro médio é na verdade um grosso, um mal educado que fura fila, ultrapassa pela direita,  fala alto em restaurante, cospe no chão, sacaneia e humilha o garçon, dá porrada e xinga quem passa na frente do seu carro, e que se fodam as vagas para idosos e cadeirantes.
A maioria da população acha mesmo que “bandido bom é bandido morto” e que vamos ter muito mais segurança se todos andarmos bem armados. Com mais armas morre muito menos gente. A polícia tem mais é que matar mesmo, quanto mais matar, menos bandidos nas ruas. Tem que começar a matar logo na adolescência, para impedir que se criem.
Todos concordam que devemos queimar tudo que é livro que tenha palavrão, sociologia, psicologia e essas aberrações. De preferência tudo que é livro que tenha muita palavra escrita e poucas imagens. Livros que ninguém lê.
De passagem vamos fechar todas as bibliotecas e museus, que só gastam dinheiro público da lei Rouanet para sustentar  comunistas, lésbicas e viados.
Clamam que se proíba urgentemente que se faça sexo antes do casamento, que os meninos vistam azul e as meninas rosa.
Na economia é onde têm seu forte. Tem que acabar com todos os corporativismos e vitimismos de trabalhadores. Liberar todas as relações trabalhistas e cada um por si.
Aposentadoria, que cada um pague pela sua, empreendedorismo acima de tudo. Cada um sendo seu próprio CEO, tendo sua própria empresa, seja um Uber, uma distribuição de pizza ou um show de malabares nos semáforos.
Assim, todos terão seu próprio dinheiro e poderão pagar pela saúde e educação, que serão obviamente privadas. Chega de saúde paga pelo estado. Quem não tiver dinheiro é porque é um fracassado e não merece mesmo viver. Estado mínimo.
E finalmente, para criarmos uma sólida imagem internacional, vamos nos aliar, unir, obedecer a todos os interesses dos Estados Unidos que passam a ser nossos próprios interesses.

Em vista disso tudo, Geraldo foi ficando cada vez mais pessimista. Não discute mais, nem política nem religião e muito menos futebol. É perigoso.
Parou de sair, cada vez que sai se depara com espécimes idiotizados gritando “mito, mito, mito”.
Não vai mais a festas, porque todos adoram o “mito” e o declaram em voz alta, olhado para os lados para ver se não há algum lulopetista ladrão infiltrado. E se você não ri das piadas homofóbicas, racistas e machistas, já passa a ser suspeito.
Nem em festa de família vai mais. Sempre há um cunhado, um genro, um sobrinho terrivelmente evangélico querendo te doutrinar a entrar para a Assembleia de Deus e deixar o primeiro dízimo para ele.
Nas ruas, cada vez mais fracassados, jogados pelo chão pedindo dinheiro para comer ou fumar uma pedra de crack. Os novos empreendedores camelôs, invadindo calçadas, ruas, praças, galerias e estações de metrô. Bicicletas e patinetes da “nova economia” cruzam calçadas em alta velocidade.

Converso meia hora com Geraldo, tentando demovê-lo do pessimismo, mas no final quem foi convencido fui eu. SOCORRO!

sábado, 29 de junho de 2019

HOMO IMBÉCILIS


Saindo hoje para a garagem, fiquei novamente impedido de acessar minha vaga porque um vizinho colocou uma camionete e duas motos ocupando sua vaga e toda a circulação em volta.
Pedi educadamente, explicando que preciso trazer compras de supermercado, 
carrinho de bebê, etc...
Ele reagiu:
  • vai tomar no ... Não vou tirar porra nenhuma, e se encher meu saco te quebro de porrada. Sou policial e não levo desaforo pra casa.
Ele é do tipo "bombadão", braços fortes, tatuados com "tribais” e uma frase "Deus acima de tudo".
A síndica, minha antiga vizinha ficou horrorizada, traumatizada, e me perguntou o que podemos fazer? Respondi: 
  • nada vizinha, não há nada o que fazer. Vou lhe mandar um e-mail explicando os motivos.
Segue o e-mail:
Cara vizinha, sei que ficou decepcionada com a minha reação, mas explico.
Recentemente, cientistas de Oxford detectaram o aparecimento de um novo tipo de Homo. Tem as mesmas características físicas do Homo Sapiens, mas difere em pequenos detalhes que são as marcas da nova espécie. Cérebros reduzidos (menos de 200 cc), membros fortes, boca constantemente entre-aberta e olhar distante.
Contra essa espécie não adiantam argumentos, pois sua lógica é muito reduzida, binária, portanto só vêm o sim ou o não, amigo/inimigo, certo/errado. São profundamente maniqueístas.
O estudo de Oxford concluiu também que os primeiros espécimes apareceram no Alabama, no início do século XX em grupos da seita KKK Ku Klus Klan. 
São resultado de um degeneração da espécie humana por causa de repetidos cruzamentos endogâmicos, que foram originando taras, reduzindo o cérebro e aumentando os músculos, como uma reversão da evolução.
Esses genes foram profundamente estudados por cientistas nazistas alemães e espalhado por quase toda a terra, gerando a atual espécie que denominaram de 
"HOMO IMBÉCILIS".
Alimentam-se basicamente de carne mal passada e trash food. Também adoram pizza e cerveja.
Reúnem-se principalmente em academias de ginástica e stands de tiro, pois adoram armas.
Quanto à sua pergunta vizinha (o que podemos fazer?), respondo outra vez: nada.
Disseminaram-se pelo mundo e hoje são maioria.
Você pode encontrá-los estacionando em vagas reservadas a deficientes, furando filas, ultrapassando pela direita, falando alto ao celular em restaurantes.
O Brasil foi terra muito fértil para o alastramento do HOMO IMBÉCILIS, devido a incentivos fiscais e políticos e à sua estimulação pela mídia, que criticava as manifestações de inteligência e enaltecia a mentira nas redes sociais.
Aqui os IMBÉCILIS adaptaram-se muito bem nas facções criminosas e presídios, depois também nas milícias paramilitares e se propagaram mesmo, quando entraram na política, alcançando em pouco tempo as câmaras, prefeituras, estados, congresso nacional, promotorias, e finalmente a presidência da república.
Nelson Rodrigues já havia previsto esse fenômeno em meados do século passado: “Os idiotas vão tomar conta do mundo, não pela capacidade, mas pela quantidade, eles são muitos.
Enfim, nada podemos fazer, eles venceram e agora são maioria.





terça-feira, 10 de julho de 2018

A conferência


A conferência


O orador entrou na sala, já apinhada de gente bonita e alegre, ocupou o seu lugar na mesa da frente, retirou um papel do bolso do casaco e leu o título da comunicação:

«Uma queda oscilatória no abismático mundo das cornucópias todas amarelas, onde se analisa o subtil descalabro de um perturbado cérebro em ascese negativa onisciente, ou a interação possível dos vetores favoráveis a um imprevisível futuro português.»

Todos os presentes se entreolharam, em silêncio expectante...

Subitamente, o orador sofre uma violenta combustão espontânea e precipita-se para a janela, atirando-se para o vazio.

Minutos depois, vendo que não havia perguntas, o moderador dá por concluída a sessão e os espectadores saem, contentes e satisfeitos.



terça-feira, 8 de maio de 2018

Andrea de Volta à Brasília.


Andrea desce do avião ainda com o coração aos pulos, na boca.
Sai empurrando o carrinho em direção à fila de taxi.
No meio do caminho ele aparece, tenta empurrar o carrinho e você não deixa.
Olha para o alto, com cara de indignada, e com razão.
Como pode ter feito uma sacanagem dessas contigo a seis meses do casamento.
Ele insiste, põe uma mão no carrinho, e mesmo assim você continua a empurrar.
E ainda por cima, aquela cachorra posta tudo na internet, os dois na praia de Pajuçara, biquíni de biscate, selfie na cama, te chamando de "meu namorado, minha paixão".
Repassei para a sua mãe só para ela ver quem era o filho dela, o que fazia com a sua noiva.
Não adianta, vou de táxi!
Mas ele insiste, chegou no estacionamento, põe as malas no carro.
E agora? Mantive a aliança no dedo até agora só para poder tirar na tua frente e jogar na tua cara. Não tem vergonha? Aquela putinha?
Ele te olha com aquele olhar triste de arrependimento.
Você pela primeira vez o olha nos olhos, no fundo dos olhos castanhos.
Safado, castanhos de enganação, de sofrimento fingido.
Ele segura na sua mão esquerda com a mão direita , você tenta tirar, mas ele faz um olhar de súplica, de cachorro molhado.
A mão esquerda pega a sua direita e ele se aproxima, suspira fundo. Que cheiro bom...
Você dobra ligeiramente o pescoço e o olha de baixo para cima. Sem-vergonha, ele abre os lábios e suspira outra vez.
Aproxima-se, encosta corpo no seu corpo, você pensa em se desvencilhar, mas apenas sacode o cabelo para o outro lado.
Ele cheira seu pescoço, que abusado. Enfia o rosto nos seus cabelos, o braço direito aperta a sua cintura.
Você sente todo o corpo apertado contra o seu.
A mão esquerda passeia pelas suas ancas, você se desequilibra, cai de costas na cama, e fica sem reação. Apenas se lembra de soltar os cabelos que se esparramam abundantemente pelo lençol.
Ele se põe ao seu lado, beija seus olhos e delicadamente acaricia sua face.
Olha seu corpo na cama com cara de saudade/surpresa/admiração/desejo.
Sua boca se entreabre pensando inconscientemente num beijo, e parece que ele adivinha. As bocas ardem num beijo calmo, longo, prolongado.
O seu decote é um estorvo e um convite. Um dedo passeia pela borda do tecido, entra apertado até dar um arrepio de endurecimento.
Uma perna força a saia curta, apertada que sobe quase até a cintura.
A mão despudorada já invade a sua calcinha. Você pulsa por dentro, se aperta, se arrepia.
Ele brinca com seus olhos agora embaçados de desejo, olha bem no fundo e diz a primeira palavra desde que te encontrou no aeroporto:
Perdão meu amor.
Você se sente pulsar mais uma vez, e o agarra pelo pescoço e o puxa para si.
Beijo sôfrego, faminto,.
Livra-se rapidamente da irritante calcinha e verifica o sexo dele, o conduz.
Ah! Indescritível prazer, movimento, mexendo-se os dois como se fossem um.
E o movimento cada vez mais forte, mais alto, mais dentro de cada um, e vem o auge da felicidade.
Caídos os dois, exaustos, lado a lado ele te diz:
Te amo.
E você olha para cima e vê uma aranhinha tecendo sua teia na quina da laje branca com a parede verde-escuro do motel barato.
12/08/2016 - voo TAM 3688 Brasilia-Florianópolis.
Barama Oback da Silva.