sábado, 14 de novembro de 2020

Minha Versão - Capítulo 09 - O DCE livre e a inauguração da “Estátua da Liberdade”, quando eu quase morri na rua em que nasci.

O DCE livre e a inauguração da “Estátua da Liberdade”, quando eu quase morri na rua em que nasci.

 

Nasci no Boulevard 28 de setembro em Vila Isabel, Rio de Janeiro, e  dezenove anos depois, numa manifestação reprimida à bala pelo DOPS, quase morri a poucos metros de onde havia nascido. Naquele mesmo Boulevard. 


Explico:

Na ditadura, até o Decreto 477 que baniu definitivamente os diretórios e DCEs (Diretórios Centrais) ainda se podia eleger diretorias de forma democrática, mas para os Diretórios Centrais da Universidades as regras e limitações do processo eram tantas que era praticamente impossível para a esquerda eleger uma diretoria independente.

 

Assim foram criados os DCEs Livres, com diretorias eleitas pelos diretórios que não aceitavam a Ditadura e seus métodos para o Movimento Estudantil.

 

Foi criado o DCE Livre da UERJ em 1968, e eu com meus 19 anos, mesmo sem entender direito o movimento, fui eleito presidente. 

 

Acho que foi porque era um nome novo, não comprometido com nenhuma das organizações que disputavam a hegemonia do ME (Movimento Estudantil) e tinha demonstrado combatividade nas manifestações do ano anterior.

 

Em protesto contra a política estudantil da ditadura, fazíamos constantemente pequenas greves de dois ou três dias, nas faculdades da UERJ. Eram como ensaios para uma futura greve geral que deveria ocorrer ainda naquele ano em conjunto com o resto da sociedade, em especial com sindicatos de trabalhadores.

 

Para se fazer uma greve, as faculdades mais mobilizadas e de maior impacto social e repercussão na mídia eram as de medicina, enfermagem e odontologia funcionando no conjunto universitário junto ao Hospital Universitário Pedro Ernesto, no Boulevard 28 de Setembro.

 

Com intensa mobilização nas assembleias de cada faculdade, tiramos uma greve com grande adesão dos alunos, funcionários e professores.

 

Num contexto de ebulição social surgindo por todas partes, essa greve demonstrou aos órgãos de inteligência que já tínhamos disposição, massa e organização suficiente para lutar de forma mais consequente, o que, de certa forma, acendeu um “sinal amarelo” na repressão.

 

A greve já ia pelo terceiro ou quarto dia paralisando os serviços não essenciais do hospital, e por mais agitação que fizéssemos, não saía nem uma linha nos jornais, nem uma palavra nas TVs e rádios.

 

Resolvemos então fazer uma grande manifestação de apoio às faculdades em greve, levando alunos de todas as demais, da UERJ e de outras Universidades.

 

A idéia era inaugurar a “Estátua da Liberdade” em frente à entrada do Hospital Pedro Ernesto. Construímos em pranchas de madeira e papelão, a figura de um Policial Militar com uns três metros de altura, farda, capacete e com o braço direito levantado, empunhando não a tocha da liberdade, como em Nova York, mas um cassetete de madeira de um metro de comprimento.

 

Erguemos a “estátua” apoiada numa árvore no meio do canteiro central do Boulevard, bem em frente à entrada do hospital. Logo surgiu uma pequena multidão de jalecos brancos, estudantes, médicos, funcionários. Os pedestres da movimentada avenida paravam para assistir. 

 

Como presidente do DCE, comecei a manifestação. Subi num púlpito improvisado e comecei um discurso de defesa da greve e do nosso direito de fazê-la. Sucederam-se discursos dos presidentes dos diretórios locais.

 

Depois de mais ou menos uma hora, terminados os discursos, os aplausos e os gritos de “Abaixo a Ditadura”, resolvemos sair em passeata pelo Boulevard, que já estava com o trânsito interrompido. 

 

Saímos com faixas, cartazes e palavras de ordem em direção à Praça Barão de Drumond. Eu ia na frente, de braço dado com os demais dirigentes estudantis que haviam acorrido para a manifestação.

 

Na primeira esquina, uma camionete Veraneio do DOPS foi atravessada no meio do Boulevard. Dela saíram uns poucos policiais, que pelo número reduzido, e por não serem da tropa de choque, não demos muita confiança.


Continuamos avançando aos gritos. Dispostos a enfrentá-los, afinal de contas estávamos acostumados a brigar com a policia militar e até com a cavalaria, não seriam meia dúzia de policiais civis que iriam nos amedrontar.

 

Só me assustei, quando dois policiais, acho que se sentindo encurralados, ajoelharam no chão em posição de tiro e miraram sua pistolas em nossa direção. 

 

Veio o primeiro tiro, o segundo, o terceiro, e continuávamos a acuá-los. Naquele momento eu me sentia num filme, num sonho, e me impressionava com minha falta de medo, caminhando contra tiros. Caminhando e cantando...

 

Só caí na real e me apavorei quando o colega ao meu lado, de jaleco branco, deu um gemido e caiu no chão com o jaleco ensanguentado.

 

Foi uma correria, tentamos voltar. Nessa altura a tropa de choque já ocupava a outra esquina e nós é que ficamos encurralados. A única saída era entrar no hospital, e a maioria conseguiu. Os que ficaram na rua iam sendo presos e colocados em fila indiana e levados para os camburões. 

 

No interior do hospital a batalha continuava. A polícia depois de hesitar por alguns momentos invadiu o hospital e lançava bombas de gás lacrimogênio. Doentes saiam desesperados sem poder respirar. O berçário foi atingido, salas e corredores viraram uma praça de guerra. 

 

Fui surpreendido quando me agarrou pelo braço um primo que não via há quatro anos, desde o aniversário de 80 anos de nossa avó Joanna em Corumbá MS. Eu não tinha noticias do Mario Gomes de Arruda desde então, e muito menos sabia que estudava odontologia na minha mesma universidade. 

 

Ele me agarrou pelo braço e disse “Vem comigo, corre”. No caminho disse que tinha me reconhecido desde que comecei o discurso ao lado da “Estátua da Liberdade”.  Levou-me correndo pelo terreno do hospital até os fundos, onde um alto muro o separa da Av. Professor Manoel de Abreu. 

 

Não sei como, pulei o muro e sai correndo como um maratonista. Só fui parar no Estádio do Maracanã, onde recuperei o fôlego para pegar um ônibus para a praça XV e tomar a barca para Niterói.

 

A manifestação valeu a pena. Finalmente os jornais e TVs não puderam esconder o que tinha acontecido. Sai numa foto no Jornal do Brasil ao lado da “Estátua da Liberdade”

 

Só fui voltar a ver o primo que me salvou a vida, ou pelo menos da prisão, um ano depois quando me escondia na casa de sua irmã Ney no bairro de Laranjeiras.

 

Nunca me lembrei de agradecer ao primo querido e valente que correu sério risco por ser primo de um “perigoso subversivo”. 

 

Mas nunca é tarde, aqui vai meu MUITO OBRIGADO primo MÁRIO GOMES DE ARRUDA. Espero que esse agradecimento chegue até você.




 

 

 

sábado, 7 de novembro de 2020

Minha Versão - Capítulo 08 - Reuniões intensas nos apartamentos do Flamengo, Catete e Largo do Machado

 Reuniões intensas nos apartamentos do Flamengo, Catete e Largo do Machado

 

Aos poucos, com a minha atuação no diretório e nas manifestações, fui me aproximando cada vez mais dos grupos e organizações que lideravam o movimento.

 

A maioria dos estudantes de fora do Rio de Janeiro, morava em apartamentos no Flamengo, Catete, Largo do Machado, Glória, Laranjeiras e redondezas.


Os alugueis eram mais baratos, estavam no centro do agito cultural da época e formavam “repúblicas” onde se podia rachar a aluguel.

 

Esses bairros eram cheios de bares com mesinhas na calçada, abertos até altas madrugadas com boêmios, poetas, vagabundos, estudantes, cafetões, cineastas, prostitutas e toda sorte de intelectuais contestadores dos anos 1960.

 

O ar era de Quartier Latin. Tinha a Faculdade de Direito da UERJ e os cinemas do Largo do Machado, os inúmeros bares e botecos nas ruas Paissandú, Marques de Abrantes, com o famoso e secular Café Lamas, Senador Vergueiro, Rua do Catete... 

 

A esquina da Paissandú com a Senador Vergueiro era a própria esquina dos Boulevards, Saint-German com Saint-Michel. Era no Lamas, que nomes famosos da música e teatro se encontravam depois das peças e shows, para comer seu maravilhoso e famoso bife.

 

Mas o ponto alto era o Cine Paissandú. Praticamente um cinema de arte, que exibia as novidades do cinema europeu, latino-americano, asiático, e claro, do Cinema Novo Brasileiro. Só não passava Hollywood.

 

Ali toda sexta-feira às 24 horas exibiam um dos sucessos dos filmes politicamente engajados. Godard, Glauber Rocha, Bergman, Eisenstein, Fellini.

 

Depois do seção um cineasta ou crítico conduzia uma palestra sobre a obra e abria a discussão para o público de um cinema sempre lotado, revolucionário e cheio de “verdades” para falar. O pau quebrava.

 

Depois de uma ou duas horas, cansados de brigar e satisfeitos por ouvirem a própria voz, todos continuavam a discussão, mas agora num diálogo mais ameno refrescado por um excelente chopp dos bares à volta, sempre muito bem tirados, como só no Rio de Janeiro.

 

Mantínhamos constantes reuniões noturnas nesses apartamentos. Ali estudávamos, líamos os clássicos do marxismo-leninismo fazíamos seminários que iam da Revolução Francesa à Guerra do Vietnã, passando por Rosa Luxemburgo, Revolução Russa de 17, a chinesa de 1949 e a Cultural de 1966, ainda recente. Sem falar na nossa preferida, por ser latino-americana, a de Cuba de poucos anos antes.

 

Eram vários grupos quase todos originários do antigo PCB – Partido Comunista Brasileiro. Inúmeras facções resultado de rachas contrários à estratégia legalista do PCB, e que vieram a se tornar embriões de novas organizações revolucionárias responsáveis pelas tentativas, todas derrotadas, de luta armada, rural e urbana dos anos seguintes.

 

Sentíamo-nos, e assim nos denominávamos, a vanguarda revolucionária do país e da América Latina. Já agíamos como se estivéssemos na clandestinidade, e cada apartamento de estudante fosse um “aparelho”.

 

É claro que com meus 18 anos, completados em março de 67, e a prepotência natural dessa idade, tinha todas as respostas e soluções para a derrubada da ditadura, e me dedicava única e exclusivamente a isso.

 

Morando em Niterói, naquela época sem ponte e sem ônibus diretos para o Rio, dependia de lentas barcas para cruzar a baia da Guanabara, mas a Revolução não podia esperar. 

 

Com tantas atividades político-etílico-intelectuais ficava difícil ir a Niterói,  então dormia por favor em apartamentos de colegas e ia em casa a cada dois ou três dias para trocar de roupa, dar um beijo e acalmar o coraçãozinho preocupado de minha mãe. 


É claro que não dava para estudar para o difícil primeiro ano da Engenharia, não sei como, mas passei de ano ficando reprovado em duas matérias, que naquela época chamavam de “dependência”, ou seja, o aluno teria que no ano seguinte cursar todas as novas matérias mais aquelas que não tinha passado no ano anterior. 

 

Mas o ano seguinte foi 1968, como já disseram “o ano que não acabou”...






 

sexta-feira, 30 de outubro de 2020

Minha Versão - Capítulo 07 - Comícios relâmpagos, as pichações, comícios nos trens da Central do Brasil.

 Comícios relâmpagos, as pichações, comícios nos trens da Central do Brasil.

 

Os comícios-relâmpago estavam cada vez mais constantes, a ponto de as pessoas que trabalhavam no centro do Rio e circulavam pela Av. Rio Branco estarem se acostumando e algumas participando, com intervenções, depoimentos e até algum discurso não programado.

 

Na hora do almoço e no fim do expediente, as calçadas se enchiam de gente já como é hoje, e ficava até difícil de circular. Isso dificultava sobremaneira a atuação da polícia que não podia identificar os “subversivos” no meio da multidão, a não ser pelas barbas e longos cabelos que usávamos a lá Che Guevara. Mas isso não era motivo para prender ninguém.

 

Os comícios-relâmpago não tinham maior convocação, apenas para os militantes que iriam falar, fazer a claque ou a segurança.

Já para as passeatas médias ou grandes, havia uma intensa convocação.

Além dos comícios, pichações e discursos nos ônibus e trens.

 

Pichávamos em toda parte, mas talvez ineficientemente, porque nas ruas com menos movimento, onde não passava a polícia. Saíamos de noite em grupos de três com nossos bastões. Enquanto um pichava o muro, os outros dois (seguranças) observavam as esquinas próximas para dar o alarme caso aparecesse algum carro da polícia.

 

Na época não existiam os práticos sprays de tinta, tínhamos que fabricar nossos próprios “bastões”. 

Receita: dissolve-se sebo de gado num tacho, agrega-se graxa de sapato preta, com a mistura ainda quente e derretida enche-se o rolo de papelão interno ao papel higiênico. Depois de frio, fica como um grande e grosso lápis de cera. Com isso, as pichações eram sempre em preto e branco.

 

E as palavras de ordem variavam sempre entre “Abaixo a Ditadura” e “Fora o Imperialismo”. Depois importaram-se da França, do famoso maio de 68, algumas consignas anarquistas ou simplesmente Hippies.

 

A nossa esquerda não gostava de hippies ou de anarquistas, mas alguns porra-loucas infiltrados e altamente intelectualizados, colocavam nas paredes, em panfletos ou na “Imprensa Nanica” frases como:

 

“Abaixo a sociedade de consumo." 
"Abaixo o realismo socialista. Viva o surrealismo." 
"O agressor não é aquele que se revolta, mas aquele que reprime." 
"Amem-se uns aos outros." 
"O álcool mata. Tomem LSD." 
"Parem o mundo, eu quero descer." 
"A arte está morta. Nem Godard poderá impedir." 
"Antes de escrever, aprenda a pensar." 
"A barricada fecha a rua, mas abre a via." 
"Ceder um pouco é capitular muito." 
"10 horas de prazer já." 
"Proibido não colar cartazes." 
"A economia está ferida, pois que morra!" 
"A emancipação do homem será total ou não será." 
"O estado é cada um de nós." 
"A imaginação toma o poder." 
"A insolência é a nova arma revolucionária." 
"É proibido proibir." 
"Eu gozo." 
"A mercadoria é o ópio do povo." 
"As paredes têm ouvidos. Seus ouvidos têm paredes." 
"Nós somos todos judeus alemães." 
"A novidade é revolucionária, a verdade, também." 
"Fim da liberdade aos inimigos da liberdade." 
"O patrão precisa de ti, tu não precisas do patrão." 
"Professores, vocês nos fazem envelhecer." 
"Quanto mais eu faço amor, mais tenho vontade de fazer a revolução. Quanto mais faço a revolução, mais tenho vontade de fazer amor." 
"A poesia está na rua." 
"A política se dá na rua." 
"Os sindicatos são uns bordéis." 
"O sonho é realidade." 
"Só a verdade é revolucionária." 
"Sejam realistas, exijam o impossível." 
"Abolição da sociedade de classes." 
"Abram as janelas do seu coração." 
"A arte está morta, não consumamos o seu cadáver. " 
"Autogestão da vida cotidiana" 
"A felicidade é uma ideia nova." 
"Teremos um bom mestre desde que cada um seja o seu." 
"Camaradas, o amor também se faz na Faculdade de Ciências." 
"Ainda não acabou!" 
"Consuma mais, viva menos." 
"O discurso é contra-revolucionário. " 
"Escrevam por toda a parte!" 
"Abraça o teu amor sem largar a tua arma." 
"Enraiveçam-se!"
"Um homem não é estupido ou inteligente: ele é livre ou não é." 
"Adoro escrever nas paredes." 
"Decretado o estado de felicidade permanente." 
"Milionários de todos os países, unam-se, o vento está mudando." 
"Não tomem o elevador, tomem o poder." 

 

Dentro dos ônibus e dos trens, entrávamos em grupos de três. Um falava e os outros dois faziam a “segurança”.

Uma vez fui destacado para fazer discursos nos trens da Central do Brasil contra a ditadura e convocando para uma passeata.

 

Foi marcado um “ponto” dentro da bela estação da Central onde eu deveria encontrar meus seguranças. 

Cheguei na hora certa e fiquei procurando dois “quadros” que deveriam ter com uma determinada revista debaixo do braço.

Achei um casal com pinta de estudantes mas não acreditei que seriam meus seguranças, mas estavam com a descrição certa, a revista certa e fizeram contato comigo.

 

A companheira era uma gordinha de 1,50m da Faculdade de Direito da UEG e seu companheiro era um moleque magrinho e asmático que devia pesar uns 50 kg.

Nessa concepção foquista do movimento, todos se viam como guerrilheiros prontos para pegar em armas, e não se discriminava ninguém para uma tarefa mesmo sendo uma baixinha e um asmático.

 

Fomos.

 

Pegávamos vagões lotados de trabalhadores que vinham dos subúrbios para trabalhar no centro. Todo mundo apertado, em pé, com sono, mal humorados.

Todo mundo tinha medo de qualquer atividade política, mais ainda de discurso falando abertamente da ditadura, censura, tortura, etc.

 

A tática era esperar o ponto da viagem onde faltassem dois a cinco minutos para a próxima estação. Então meus “Seguranças” ficavam ao meu lado, eu pedia licença para um passageiro sentado, colocava o pé no banco, me pendurava nos balaústres e deitava discurso: 

 

“O movimento estudantil está promovendo manifestações contra a Ditadura, mas só teremos realmente sucesso na derrubada da Ditadura e implantação de uma sociedade mais justa, socialista, se vocês operários participarem. Só o proletariado unido pode derrubar a ditadura e expulsar o imperialismo. Dia tal, às tantas horas, participe da passeata na rua tal, ou apoiem a greve da categoria de tal categoria.”

 

Esse era mais ou menos o conteúdo dos discursos de sempre.

A ação só poderia durar no máximo 5 minutos até a chegada na próxima estação. Chegando, assim que abria a porta do vagão, pulávamos rapidamente na plataforma procurando desaparecer na multidão o mais rápido possível e esperar o próximo trem.

 

O maior risco que corríamos era ter um policial, um militar ou um direitista fanático no vagão, que inventasse nos prender ou agredir,  mas confiávamos no aperto do vagão, que impedia alguém se movimentar pelo corredor.

 

E além disso eu tinha minha “poderosa” segurança.






 

 

 

sábado, 24 de outubro de 2020

Minha Versão - Capítulo 06 - As Passeatas Contra a Ditadura – Rua do Rosário, cavalos e bolas de gude.

 As Passeatas Contra a Ditadura – Rua do Rosário, cavalos e bolas de gude.

 

A ditadura, a censura, a repressão cultural, as prisões, recrudesciam em 67.

O golpe de 1964 restringia cada vez mais as liberdades democráticas numa verdadeira escalada reacionária.

 

Com o Marechal Castelo Branco, ainda tentavam manter um verniz, um simulacro de democracia, mas com a ascensão de Costa e Silva, o regime mostrou todas suas garras.

Era preciso resistir, e fomos para as ruas.

 

A idéia era insistir em pequenas manifestações por várias partes da cidade. Eram os chamados “Comícios Relâmpagos”, onde se atacava a ditadura, se denunciava os desmandos. “Panfletávamos”, informando à população o que a grande imprensa não podia falar. 

 

Como numa tática de guerrilha, reuníamos de surpresa 40, 50 estudantes  numa esquina pré combinada, alguém subia num caixote, poste, carro, o que houvesse, e começava a discursar contra a ditadura, denunciar desmandos e arbitrariedades. A manifestação durava de 10 a 20 minutos, e dispersávamos no meio da multidão não dando tempo para a polícia chegar.

 

Dependendo da receptividade, do local e do número de estudantes, iniciávamos  pequenas passeatas, normalmente aplaudidas e seguidas pela população.

Essas ações eram planejadas nos Diretórios Centrais das Universidades, DCEs  e executadas pelos diretórios das faculdades, principalmente da UFRJ e UERJ, respectivamente federal e estadual do Rio de Janeiro.

 

Algumas vezes, quando não conseguíamos dispersar antes da chegada da polícia, os enfrentamentos eram inevitáveis.


Era a Polícia Militar do Rio de Janeiro, até então também despreparada para a repressão a manifestações. Agentes do DOPS, quando tinham tempo, chegavam e eram bem mais perigosos, sacavam armas e saíam alguns tiros.

 

Com o passar dos meses de 1967 as manifestações cresciam em número de participantes e organização, e a repressão por sua vez, também se organizava melhor.


Passaram a ter informantes dentro das faculdades e conseguiam descobrir a hora e local de uma manifestação que deveria ser de supresa, e aí a repressão era mais forte. Começaram a conseguir fazer algumas prisões.

 

O palco principal dessas verdadeira batalhas campais era o centro do Rio, Avenida Rio Branco e ruas próximas. 

Alguns prédios eram habituais, como o antigo Ministério da Educação, o “Calabouço”, restaurante universitário ao lado do aeroporto Santos Dumond, Estação de trens da Central do Brasil, etc..

 

Quando uma manifestação era descoberta à tempo pela inteligência da polícia, preparavam-se com todos os instrumentos. Mobilizavam os caminhões fechados para presos, os “Corações de Mãe”, porque sempre cabia mais um, os blindados com jatos de água, pelotões em cima de caminhões de transporte de tropas e a temida Cavalaria da Polícia Militar.

Quando uma passeata se formava, a cavalaria atacava derrubando os manifestantes com grandes cassetetes e a patas de cavalo.

 

Contra as tropas à pé, lutávamos com paus e pedras e devolvíamos as bombas de efeito moral e as granadas de gás lacrimogênio.

As calçadas de pedras portuguesas, principalmente as do Ministério da Educação, forneciam excelente munição contra a polícia, arrancada uma pedra, as outras saem facilmente, e eram pesadas e angulosas.

 

Contra a cavalaria, a luta era bem mais difícil, até que alguém descobriu o efeito mágico das bolas de gude.


Quando a cavalaria avançava, em trote ou galope contra a multidão, lançávamos e enchíamos a rua de bolas de gude. 

Essas bolas entravam entre as ferraduras e faziam os cavalos derraparem, abrirem as pernas e cairem estrondosamente, lançando seus cavaleiros a metros de distância.

Cada cavalo que caía, o povo gritava se regozijando como na hora de um gol.

 

Lembro de um dia que ficamos encurralados na Rua do Rosário, estreita e com calçadas de pedras portuguesas. A cavalaria lançou uma carga contra nós. Enchemos a rua de bolas de gude, e quando uns cavalos caiam sobre os outros, atacamos com um artilharia de pedras portuguesas. Os cavaleiros agora à pé, fugiam como baratas tontas.






sexta-feira, 16 de outubro de 2020

Minha Versão - Capítulo 05 - A Faculdade, o Diretório, comícios no restaurante, as meninas do Serviço Social

 

O imponente edifício Pedro Ernesto, construído no alto de um morro que divide a imperial Quinta da Boa Vista do bairro de São Cristóvão, abrigava na época as faculdades de Engenharia e de Serviço Social da Universidade do Estado da Guanabara – UEG que depois da fusão dos dois estados virou UERJ.

 

O edifício tinha sido construído para ser uma escola de medicina, com mais de dez andares, dois elevadores enormes, e muitas salas de aula, auditórios e anfiteatros. Não sei porque deixou de ser a faculdade de medicina, que continuou no Hospital Pedro Ernesto no Boulevard 28 de setembro em Vila Isabel.

 

Se não me engano, o segundo e terceiro andares eram ocupados pela faculdade de Serviço Social, o quarto pela administração, o quinto pelos Diretórios Acadêmicos, e os demais com salas de aula e laboratórios da engenharia.

 

O mais interessante porém ficava no térreo, após o hall dos elevadores, O Restaurante.

Era uma enorme área livre com grandes mesas para 6 pessoas e uma lanchonete ao fundo.

Era ali que tudo acontecia, estava sempre cheio de gente, mesmo fora do horário de almoço. Funcionários, professores e principalmente alunos, em intervalos de aulas ou simplesmente matando-as.

Ali se estudava apressadamente as últimas dúvidas antes das provas, se verificava o resultado delas, se comia, se fumava, se paquerava, e principalmente se discutia, invariavelmente política estudantil.

 

Os cursos de engenharia eram predominantemente masculinos. Em toda engenharia civil havia 3 moças, na elétrica outras tantas, e na mecânica nenhuma.

Porém, a faculdade de Serviço Social era predominantemente feminina, e compensava assim a aridez machista da Engenharia. Era uma festa.

 

Transcorria o ano de 1967, mas não tão calmamente assim, como no clichê.

Entrei para a faculdade com 17 anos e fui completar 18 já universitário.

Saía às 5:30 de casa para chegar às 7:00 para a primeira aula, depois de dois ônibus e uma barca que cruzava a Baia da Guanabara.

Com a subida do morro da Rua Fonseca Teles e a escadaria da escola, chegava quase sempre suado ao restaurante, onde tomava um café, comia um pão com manteiga e fumava um cigarro, antes de subir sempre atrasado 10 a 15 minutos para a primeira aula onde, se não fosse muito animada, dormia.

 

O Restaurante, no entanto era muito mais interessante que as aulas de Cálculo e Geometria Descritiva. Ali conheci lindas menininhas do Serviço Social e o pessoal combativo do Centro Acadêmico.

Logo me identifiquei com a turma do diretório, o Jones, o Zé Maria, o Molécula, etc. Todos militantes de esquerda.

Visitei o quinto andar, onde fiquei boa parte do períodos letivos, com suas salas desarrumadas, seus mimeógrafos, suas mesas de sinuca e pebolim (ou futebol totó como se dizia no Rio).

Tornei-me militante e campeão de totó.

 

A política estudantil no Rio de Janeiro fervia, já era uma atividade quase clandestina, pois estávamos sempre atentos para os informantes infiltrados da polícia política, o DOPS e seus métodos violentos.

Nossa faculdade tinha uma quase maioria de direita, ou alienados, pois ali estudavam os filhos dos donos de construtoras, grandes empresários, enfim, burguesia e classe média alta. A sorte é que eles não se interessavam por política e com isso ganhávamos o Diretório.

Nosso diretório integrava o DCE da Universidade, também de esquerda, onde as faculdades mais atuantes eram a de Direito, no Largo do Machado, de Medicina no Hospital Pedro Ernesto, História, Ciências Sociais e Psicologia.

 

Vivíamos em longas reuniões no diretório e eternas assembléias no restaurante. Nessas assembléias sempre agitadas e muito concorridas, aprendi as várias técnicas de manipulação que se aplicam a todo coletivo. Desde os estudantis, até o Congresso Nacional. Como espalhar simpatizantes em todos os grupinhos para levantar a mão para o voto e induzir os vizinhos a fazê-lo na hora certa, prolongar a assembleia até que os opositores desistam e saiam antes das votações mais importantes. Só colocar em votação matérias para as quais você já tem votos suficientes, etc.

Outra técnica importante é colocar ao lado de cada opositor expressivo, que vai se pronunciar, um militante seu que faz caras e bocas de reprovação quando o cara estiver falando.

 Todo esse aprendizado, das reuniões do restaurante, serviram para futuras assembleias culminando no 30 congresso da UNE em Ibiúna que veremos num próximo capítulo.



domingo, 11 de outubro de 2020

Minha Versão - Capítulo 04 - A visita a Itapetininga. O baile de debutantes e a filha do gerente do Banco do Brasil. De como desisti da carreira militar e mergulhei na vagabundagem niteroiense.

 

Campinas, final de 65 e do meu segundo ano na EPCEX. Tinha ido bem nos estudos naquele ano, tanto que no final de novembro


 já tinha passado por média em todas as matérias, mas não podia sair ainda de férias e voltar para casa em Niterói porque havia que cumprir presença nas aulas que faltavam e nas provas de educação física e instrução militar.

 

Como recompensa por estarmos “passados” antes do fim das aulas, os alunos do terceiro ano e, por uma deferência toda especial, dois do segundo (eu entre eles) foram escolhidos para representar a escola dançando a primeira valsa (em farda de gala) com as debutantes da orgulhosa sociedade da provinciana cidade de Itapetininga. A segunda era com o namorado e a terceira com o pai, é claro.

 

E lá fomos nós, felizes num micro-ônibus verde oliva, a desempenhar tão saborosa e honrosa missão. Às famílias rotarianas cabiam alojar os jovens “cadetes”. Eu fui parar na casa do gerente do Banco do Brasil, rotunda família com um lindo casal de filhos. O rapaz, adolescente cabeludo tipo ‘Beatles’, torceu o nariz logo ao me ver, e a moça, instigante universitária com superiores ares intelectuais despertou imediatamente meu interesse, que por sinal insistia sempre no mais difícil, no inalcançável, nas musas inatingíveis. Apaixonei-me de cara.

 

Depois de um lauto almoço de massas com “minha família” itapetininguense e um breve descanso fomos para o clube treinar a valsa. Não sei se foi por uma questão de hierarquia ou por azar, nós do segundo ano ficamos com as mais feias do grupo. O salão era quente e minha debutante além de suar muito e ser extremamente feia (tinha até buço) dançava com a leveza de um barril de chopp.Valeu apenas o banho de piscina depois do ensaio.

 

Mas o baile foi puro “glamour” interiorano. As meninas chamadas uma a uma, por um mestre de cerimônia de smoking com camisa de babados tipo Elvis Presley. Conduzidas por seu cadete ao centro do salão, eram apresentadas à sociedade local. O conjunto, completamente “Jovem Guarda” atacava de Roberto Carlos, Erasmo, twist e rock and roll. De vez em quando um sambinha tipo Simonal ou Jair Rodrigues.

 

Mas o que tem esse evento a ver com a ‘Minha Versão’? Para mim tem muito a ver, pois foi exatamente nessa noite que decidi deixar a carreira militar.

 

Fim de baile estava eufórico, feliz, orgulhoso de mim mesmo e do meu desempenho com a farda de gala. Afinal, se a minha debutante era um grande bagulho bigodudo, havia muitas outras lindas pré ou pós-debutantes deslumbrando-se com os cadetes. Dançamos e namoramos até altas horas sob os olhares das mães e rosnadas dos rapazes locais, preteridos diversas vezes por suas conterrâneas. 

 

Éramos um bando de machos de uma tribo distante, garbosa e arrogante que chegou para deslumbrar e “ficar” com as virgens locais. Entre os humilhados estava o filho do rotariano gerente com o qual eu iria compartilhar o quarto no resto da noite.

 

Não deu outra, ao chegar à casa com o resto da família, o rapaz declarou que não ficava no quarto comigo, revoltou-se contra o pai e discutiu com a mãe. Mas o que mais me humilhou, deu um banho de água fria na minha vaidosa autoconfiança, foi a declaração da minha intrigante, linda, misteriosa e gostosa universitária:

 

-  mas pai, a culpa é sua por trazer esse milico reacionário, filhote da ditadura para dentro de casa! Enquanto os estudantes estão apanhando da polícia em São Paulo o senhor abriga um policial em casa.

 

Era então novembro de 1965, os estudantes universitários paulistas já enfrentavam a polícia na USP e levavam muita porrada, inclusive minha musa que estudava direito.

 

Fiquei literalmente arrasado. Não adiantava tentar explicar que eu não era reacionário, que já tinha até lido “A origem da família do estado e da propriedade privada” do Engels e o “Manifesto Comunista” de Marx. Não adiantava dizer que eu só tinha 16 anos e estava no exército, que por sua vez não tinha nada a ver com a polícia militar paulista. Era milico e pronto. 

 

Naquela noite, sozinho no quarto do rapaz que foi para o sofá da sala, com minha cabeça metida num burguês travesseiro do gerente do Banco do Brasil, resolvi que não seria militar e ainda mais, lutaria para derrubar a ditadura e expulsar o imperialismo. 

 

De repente me pergunto: será que tudo não passou de um arroubo de um adolescente de 16 anos apaixonado por uma estonteante, inalcançável, revolucionária de lisos, longos e negros cabelos, estudante de direito da USP? Tarde demais para responder...

 

Naquele ano ao chegar a Niterói para as férias, esperava-me um possante Renault Gordini 1300 que meu pai acabava de comprar em troca do antigo Doufine da família. Eu e Renato (que continuava no Colégio Militar do Rio de Janeiro, porém agora como interno) deixamos o cabelo crescer e passamos três meses na praia. 

 

De manhã, jogando bola, frescobol, vôlei e paquerando as menininhas. Depois do almoço descíamos para inspecionar as domésticas que terminavam de lavar a louça e davam uma chegadinha na praia, sempre marcávamos para sair depois das dez da noite (louça do jantar). 

 

Á noitinha na calçada da praia era o footing com as paquerinhas e depois pegar o Gordini e buscar as domésticas na casa “da madrinha” para dançar na gafieira do “Mimoso Manacá”, “Flor do Abacate”, Clube dos Subtenentes e Sargentos ou no EletroVap – clube do sindicato das trabalhadoras na indústria de equipamentos elétricos, muito concorrida em Niterói e São Gonçalo. A noite acabava invariavelmente nas areias das muitas praias, ainda lindas, seguras e despoluídas de Niterói daquela época, como Icaraí, São Francisco, Charitas, Piratininga, Itaipu, Itacoatiara, etc.

 

Passamos essas férias na mais completa vagabundagem. Perto do fim das férias, declarei aos meus pais, do alto dos meus 17 anos: “não quero mais ser militar, vou estudar engenharia”.

 

Dito e feito, voltei a Campinas apenas para me desligar da Escola Preparatória e fui fazer o terceiro ano científico junto com o pré-vestibular num convênio entre o cursinho  e o Colégio Santo Antonio Maria Zaccarias. 

 

Todo o ano de 1966 foi a repetição da rotina das férias anteriores, uma descompressão dos seis anos de regime militar que tinha sido minha vida desde os 10 anos de idade.

 

Naquela época, o vestibular para engenharia era feito por uma entidade que reunia sete escolas. O aluno registrava uma ordem de prioridade e segundo sua nota era indicado para uma das opções.

 

Como o ano de 66 foi quase todo de praia, com duas ou três visitas semanais ao colégio, seria muito pouco provável passar no vestibular, menos ainda para minha primeira opção que era a UFF – Universidade Federal Fluminense, em Niterói, pertinho de casa.

 

Graças à base que havia adquirido no Colégio Militar e na Escola de Cadetes de Campinas, consegui passar para a terceira opção: a Faculdade de Engenharia da Universidade do Estado da Guanabara, depois do Estado do Rio de Janeiro.