sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

Minha Versão - Capítulo 20 - Mendoza – Santiago e o misterioso exilado no vagão restaurante do trem.

Mendoza – Santiago e o misterioso exilado no vagão restaurante do trem.

 

Ufa!

Finalmente entrei no trem de Mendoza para Santiago.

Era outubro de 1971 e ainda tinha bastante neve na cordilheira, mas felizmente, depois de dois dias de espera, a linha férrea e os túneis foram desimpedidos.

Comprei a passagem num guichê com janelinha de ferros retorcidos em rococó que pareciam os de estações de trem de filmes do velho oeste.

Eu, minha mochila e a sacola onde ia toda a minha vida, tudo o que eu tinha, embarcamos.

Um vagão com bancos duplos de madeira, outra vez “velho oeste”.

Ufa!

Pela primeira vez consegui relaxar em toda a viagem de fuga.

Niterói, Rio de Janeiro, Campo Grande, Ponta Porã, Pedro Juan Caballero, Assunção, Formosa, Resistência, Reconquista, Santa Fé, Rosário, Córdoba, San Luiz e Mendoza.

Parece que percorri toda a margem direita do Rio Paraguai e metade da Argentina.

Consegui sentar sozinho em um banco duplo de madeira, joguei minhas coisas embaixo do banco, a cabeça para trás, respirei fundo, de olhos fechados por uns bons minutos.

Todos os acontecimentos do último mês me vieram à cabeça como num filme acelerado, em flashes, sons, imagens.

O Jornal Nacional com o Cid Moreira citando meu nome no assalto à casa de saúde Dr. Eiras.

Eliane interrompendo a aula de matemática que eu dava no curso SIG.

Os esconderijos em Niterói, Botafogo e Tijuca, a rodoviária Novo Rio com tia Zezé, a invasão noturna do ônibus na fronteira São Paulo/Mato Grosso pelo exército.

O táxi aéreo Campo Grande - Pedro Juan, o vôo no DC3 Pedro Juan – Assunção e finalmente a longa viagem de ônibus de Assunção a Mendoza.

Pretensiosamente projetei: um dia vou escrever essa história, foram tantas as aventuras, sustos, surpresas, aprendizados, que não poderia deixar para trás.

Um menino de 21 anos com um turbilhão de idéias na cabeça, sem nenhuma experiência de vida, numa aventura de filme, filme de 007.

Fugia de uma ditadura passando por outros dois países com ditaduras militares semelhantes que tinham um acordo de repatriar qualquer opositor que ousasse cruzar suas fronteiras.

Chamavam esse acordo, orientado pela CIA de “Operação Condor”.

O trem subia a cordilheira, neve para todo lado, paredões de gelo, eu ia feliz, aliviado.

No meu vagão, um senhor de cabelos brancos e fala nordestina, embora escondesse seu português, sentou-se na minha frente com uma brasileirinha simpática de longos e lisos cabelos negros.

Não trocamos palavra durante a primeira parte da viagem.

Eles falavam baixinho entre si, como que para esconder a nacionalidade.

Cruzamos a fronteira juntos.

Numa mera formalidade, Carabineiros de Chile pediram nossos documentos e apresentei minha carteira de identidade, pois estava impedido de tirar passaporte.

O senhor de cabelos brancos e sua acompanhante também apresentaram os seus.

Tensão no ar.

Sem problemas.

Passamos pelos policiais argentinos e chilenos sem qualquer observação, eram apenas burocratas cumprindo seus papéis.

Cruzada a fronteira nos olhamos e pela primeira vez trocamos sorrisos, o alívio ficou claro, pairando no ar. Surgiu uma cumplicidade entre nós.

Começamos a conversar em português, que delícia poder interagir usando sua própria língua.

Na conversa, é claro, como era costume na época entre exilados, não se perguntava nomes, origens, etc... Apenas conversas superficiais.

Eu sabia que aquele cara não me era estranho.

Chegando a Santiago, fui buscar em artigos de jornais e livros (ainda não existia Internet) a foto daquela figura.

Era um cara muito parecido com João Amazonas, alto dirigente do PCdoB.

Durante muito tempo achei que tínhamos viajado juntos para o exílio no Chile.

Outra possibilidade seria Julião, das ligas camponesas de Pernambuco?

Só agora, com Internet e Wikipedia, vi que o João nunca se exilou no Chile, mas na Albânia, e Julião foi para o México. Mas pode ter sido ele, pois nessa época usava-se essa rota para chegar ao México, pois era impensável sair por um aeroporto em voo internacional.

Com essas e outras impressões, erros e fatos surpreendentes para quem não viveu essa época, concluí que valia a pena narrar essa historia de 007, concretizando o projeto imaginado naquele trem Mendoza-Santiago de Chile em outubro de 1971.

 


 

sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

Minha Versão - Capítulo 19 - O Assalto à Casa de Saúde Dr. Eiras - A fuga para o Chile.

 O assalto à Casa de Saúde Doutor Eiras – A fuga para o Chile.

Do assalto ao Jornal Nacional com Cid Moreira. Passando pela casa do deputado do partidão, a casa da prima, nora do general, a tia Zezé e finalmente a Rodoviária Novo Rio.

 

Oito e meia da noite do dia 02 de setembro de 1971,  dava aula no Cursinho SIG, escrevia no quadro quando vi a Eliane na porta me fazendo sinais. Para eu sair urgente da sala.

 

O cursinho pré-vestibular e supletivo SIG tinha esse nome em homenagem ao ratinho símbolo e mascote do tabloide de resistência da época, O Pasquim. Sigmund Freud era o nome do rato que desafiava a censura da ditadura.

 

 O curso fora criado pelo grande amigo de Niterói, João Baptista a duras penas mantinha esse curso de sobrevivência que ajudava vários companheiros universitários que não conseguiam outros empregos e viravam professores. Eu dava aulas de Matemática e Física, no pré-vestibular e no supletivo.

 

Saí da sala e Eliane me comunicou que meu nome havia acabado de ser citado no Jornal Nacional pelo Cid Moreira, o âncora da época e de várias décadas. “Estou famoso” pensei com um sorriso irresponsável, que foi logo trocado por uma cara de pânico quando ela prosseguiu: “sua foto foi mostrada como um dos assaltantes da Casa de Saude Doutor Eiras em Botafogo, o assalto foi na hora do almoço e mataram três seguranças”.

 

Corremos para a sala do João Batista, pois não sabíamos o que fazer. Como no primeiro assalto eles chegaram no meu apartamento em horas, nesse que era muito mais grave, já deviam estar lá. A coisa era muito séria, foi um assalto feito e assumido pela ALN – Aliança Libertadora Nacional que levou em torno de 80.000 cruzeiros e as armas de todos os seguranças. Pior, a casa de saude pertencia ao então ministro da saude da ditadura. 

 

Ainda havia um fio de esperança. O Cid Moreira havia dito José Lucio de Almeida Gomes, trocado o Arruda por Almeida. O João Batista estava com visitas em casa e aconselhou que fôssemos dormir na casa de outro amigo aguardar os jornais do dia seguinte enquanto ele conversava com seu sogro que era Deputado Estadual pelo MDB, mas na verdade quadro disfarçado do PCB, o antigo “Partidão”.

Conseguimos uma ajuda corajosa do Eduardo, grande amigo de então, recém casado com a Valéria. Mas a Valéria estava grávida, já barriguda, e não poderia se arriscar a ser acusada de acoitar um “subversivo” nem deveria passar por esse stress. Resolvemos ficar apenas por uma noite e esperar O Globo impresso do dia seguinte.

 

Claro que quase não dormi, depois do café da manhã Eduardo chega com a edição do O Globo. Na primeira página as fotos e os nomes dos “guerrilheiros” assaltantes da Casa de Saude. Agora meu nome saiu correto, Arruda, mas dos doze da lista apareciam apenas dez fotos. A minha não estava.

 

Eram uma má e uma boa notícia. A má que o nome era o meu mesmo, a boa é que como não tinha saído a foto, eu poderia circular com menos perigo.

 

João Batista aparece de carro. Vem para me levar para a casa do sogro deputado, que ficava no bairro do Fonseca. Lá, em conversa com o deputado, concluímos que só restava uma saída viável, era o exílio, fugir para o Chile, único país  democrático do cone sul da América naqueles dias.

 

Ali passei a segunda noite, agora sozinho, pois a Eliane foi estudar uma forma de fuga. As várias organizações clandestinas tinham seus próprios planos, guias e rotas de fuga, mas como eu não pertencia a nenhuma, não sabia o que fazer. 

 

Eliane conseguiu contato com minha prima Ney, que morava em Laranjeiras e tinha ligações com a Juventude Universitária Católica -JUC, fundadora  da Ação Popular – AP, organização cristã/socialista/marxista muito atuante na esquerda da época. A Ney ofereceu me abrigar na casa dela enquanto o pessoal da AP montava um plano de fuga para mim. E meu pai juntava os dólares necessários para minha longa viagem por terra Rio – Santiago. Até hoje penso no que teria acontecido se minha família não pudesse arcar com os gastos da viagem. Quando me lembro disso e vários outros sacrifícios, penso em todo o amor que devo e não correspondi aos meus pais.

 

Fiquei escondido num quarto, com os devidos cuidados para não ser visto pelas pessoas da casa, nem pela empregada. Muito menos pelo sogro da Ney que era um general da linha dura e influente no governo da ditadura. Se ele soubesse, certamente me denunciaria. 

 

Ali passei umas duas semanas, e lembro que no dia 17 de setembro de 1971, o mesmo Cid Moreira no Jornal Nacional comunicava, não sem certa alegria mórbida, a captura e morte do capitão Carlos Lamarca num ataque ao foco de guerrilha rural que comandava. 

 

O fato me marcou por dois motivos, primeiro porque o nome da minha filha Carla tinha sido dado em homenagem a esse bravo militar que tinha fugido do quartel que servia com um caminhão carregado de armamento e munição suficiente para implantar um foco guerrilheiro. O segundo, é que ficava claro que a ditadura não estava poupando aqueles opositores que pegaram em armas, simplesmente fuzilava antes de prender. E eu estava sendo confundido como participante de um comando armado que teria atacado a Casa de Saude e matado três seguranças. Se fosse pego, não teria chance de explicar que tinha álibi, dava aula, etc...

 

Dois ou três dias depois da morte de Lamarca, chegou minha rota de fuga com detalhes:

Eu deveria tomar um ônibus até Campo Grande, Mato Grosso do Sul, 

lá alugar um táxi aéreo para evitar a estrada Campo Grande – Ponta Porã que era fortemente vigiada como rota de fuga. 

 

Em Ponta Porã, cidade separada de Pedro Juan Caballero no Paraguai por uma larga rua principal, pegaria um táxi já pré-definido do aeroporto até o  outro lado da fronteira que permanecia sem controle durante o dia.

De Pedro Juan, tomaria um avião de linha para Assunção. 

 

Em Assunção, atravessaria o rio Paraguai de balsa para a Argentina, e já na Argentina de ônibus pelas cidades: 

Formosa,

Resistência

Reconquista

Santa Fé

Rosário

Córdoba 

e Mendoza.

 

Por motivo de segurança, e também porque não existia linha direta, deveria fazer o percurso em vários trechos, trocando de ônibus nas principais cidades.

 

Em Mendoza, finalmente, tomaria o famoso trem Mendoza-Santiago para cruzar os Andes, isso se a ferrovia estivesse desimpedida da neve e do gelo do inverno que terminava.

 

A viagem toda, seria de muito risco, pois tinha além das fronteiras internacionais, as estaduais que também eram controladas pela polícia em  países com cruéis ditaduras militares aliadas da brasileira. Eram ditadores na época, os generais Alfredo Stroessner no Paraguai e Alejandro Lanusse na Argentina. Falava-se da existência de um acordo entre as três ditaduras mais a do Uruguai de controle e extradição sumária, sem passar pela justiça, de opositores em fuga por esses países.

 

Minha querida tia Zezé, irmã de minha mãe, também corajosa e consciente do que significava a ditadura e o perigo que eu corria, foi me buscar de taxi na casa da Ney. Dormi em sua casa e no dia seguinte, iniciei a viagem pela rodoviária Novo Rio.

 

Depois de passar tantos dias escondidos, cruzei a rodoviária assustado, olhando para os lados, com medo de ser reconhecido ou estar sendo seguido.

 

Sentado na janela, no meio do ônibus quase vazio, dei um adeus emocionado para a tia Zezé que foi até lá para garantir que eu houvesse embarcado. 

 

Na emoção, pensava que se eu conseguisse chegar ao meu destino, mesmo assim não saberia quando poderia voltar, para ver meus pais, minha filha, meus amigos.

 

Relaxei para tentar descansar e guardar forças para a longa viagem. Até chegar a Campo Grande fizemos várias paradas noturnas, eu só saí do ônibus em algumas delas, para não ser visto. Era um cuidado desnecessário, pois estava ainda muito longe da fronteira, mas o medo falava mais alto.

 

Algum tempo depois da parada de Bauru, cidade a oeste de São Paulo, no meio do nada, na estrada escura como breu, o motorista estaciona no acostamento e acende as luzes. Entram uns oito soldados do exército com fuzis. Pensei, “é agora, me denunciaram e estão me buscando”. Os soldados percorreram o corredor, pediram para abrir algumas sacolas enquanto outro grupo do lado de fora abria o bagageiro e revistava as malas. 

 

Pensei que estavam procurando armas, mas qual não foi minha surpresa, alívio e até uma gargalhada nervosa quando vi que procuravam, não perigosas armas subversivas, mas laranjas.

 

Isso mesmo, eles procuravam por laranjas e qualquer outro cítrico. Estávamos na fronteira dos estados de São Paulo e Mato Grosso e como havia uma peste atacando os laranjais paulistas, evitavam que frutas cruzassem a fronteira e fossem infectar as mato-grossenses. 

 

***

 

Chegamos de manhã em Campo Grande, pego um taxi na rodoviária e vou direto para o endereço da empresa de Taxi Aéreo que me haviam fornecido no plano de fuga.

 

Nessa época, no pantanal, havia fazendas que, na cheia, só se chegava de avião. Eram muito comuns, teco-tecos monomotores para 2 pilotos e 2 passageiros. Eu tinha um tio fazendeiro em Corumbá e dois primos que tinham seus próprios aviões e trabalhavam fazendo frete para as fazendas. 

 

Consegui voar no mesmo dia, e à tarde entrava num taxi em Ponta Porã e pedi para que me levasse ao hotel La Negra. Ok, partimos e uns poucos minutos depois o carro para numa rua de terra, como quase todas nessas cidades, em frente ao hotel. Por ai não se usavam taxímetros. Achei o preço muito alto para uma corrida tão curta, e o motorista me informou “é que até aqui no Paraguai fica mais caro”.

 

Eu estava no Paraguai! Nunca imaginara que fosse tão fácil, imaginava um posto de fronteira, com alfândega, onde meu nome poderia estar na lista de possíveis fugitivos, documentos, revistas de malas, mas nada disso. Me enchi de alegria. Certamente a fronteira mais perigosa estava vencida, depois seria a entrada na Argentina.

 

Passei três dias no La Negra, aguardando o dia do avião para Assunção. O hotel era meio suspeito, mas aproveitei para desfrutar dos produtos que não existiam no Brasil, como whisky escocês e cigarros americanos.

 

Uma noite saí para visitar o Cassino. Um galpão no lado paraguaio da fronteira há uns mil metros do La Negra. Quase só tinha brasileiro, e quase não entendia nada, pois falavam um espanhol paraguaio misturado com o guarani.

 

A volta foi assustadora, pois fora da avenida que marcava a fronteira muito pouca iluminação, e tinha medo de ser assaltado, principalmente porque andava com minha reserva de dólares, não tinha coragem de deixar no hotel. Por segurança, voltei caminhando bem sobre a linha de fronteira, a essa hora com soldados brasileiros e paraguaios a cada 20 metros nas suas respectivas fronteiras e pensei na contradição de me sentir protegido pelo exército que teoricamente me perseguia.

 

***

 

Cheguei bem cedo no aeroporto de Pedro Juan, embarcamos num DC-3 da LAP – Lineas Aereas Paraguayas. Quem não conhece, o DC-3, antigo avião já com algumas décadas, pousa com o nariz bem alto e o rabo bem baixo. Assim para entrar e procurar seu assento, você tem que subir uma verdadeira rampa até a porta da cabine. Em cima da porta, bem explícito um enorme retrato de Stroessner.

 

Muita turbulência até Assunção. Essa aeronave não é pressurizada e tem que voar baixo. 

 

Minhas instruções me dirigiam para um terminal de ferry boat onde pessoas e carros cruzavam o rio Paraguai. Outra vez, nenhum controle de fronteira. Do outro lado, um ônibus bem velhinho levava até Formosa, primeira cidade argentina.

 

De Formosa até Mendoza, foram uma sucessão de ônibus, rodoviárias, guichês, e falando o mínimo possível, pois além de não saber nada de castelhano, qualquer jovem brasileiro com destino ao Chile era suspeito.

 

Os ônibus iam melhorando de qualidade na medida que me acercava de Córdoba, mas a viagem era sempre uma eterna monotonia nas enormes retas das “llanuras” argentinas. Sem curvas, sem montanhas, sempre na mesma velocidade, o ronco do motor era sonolentamente contínuo.

 

Mendoza foi uma grata surpresa, linda, com os Andes nevados ao fundo, fui para a estação de trens comprar minha passagem para o que seria o último trecho da viagem, esse sem medo, pois estaria entrando numa democracia que respeita os direitos humanos. Passei dois dias em Mendoza aguardando retirarem a neve que havia fechado um dos vários túneis do caminho.




 

sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

Minha Versão - Capítulo 18 - A cela Maracanã. A quiabada e a loteria esportiva.

 

A cela Maracanã. A quiabada e a loteria esportiva.

 

Maracanã era a grande cela que eu tinha visto logo na entrada do corredor.Era um quadrado de uns 8x8 metros com beliches encostadas nas paredes.No meio, duas mesas de madeira juntas e umas oito cadeiras.

 Os senhores que ficavam ali, tinham adaptado bem o ambiente. Era limpo, o “banheiro” tinha sido cercado com cortinas improvisadas com cobertores, e ao lado, tinham montado uma pequena cozinha, com fogão, geladeira, pia e prateleiras.

 O mais velho e mais gordo, com uns sessenta anos ou mais, deveria ser o chefe. Um simpático e bonachão senhor com sotaque e feições italianas. Os demais também muito simpáticos, faziam piada o tempo todo. Era literalmente uma mafia, eu parecia ter entrado num filme.

 Mafia de verdade, era uma quadrilha que havia sido presa, todos ao mesmo tempo. Criaram uma corretora de bolsa de valores, meio fantasma, “aplicavam” o dinheiro dos clientes, e aproveitavam para lavar o de outros mais chegados. Se deram mal quando começaram a dar o golpe em conjunto com um montepio de militares aposentados. Naquela época, os crimes “contra a economia popular” também eram enquadrados na Lei de Segurança Nacional, criada pela ditadura na constituição de 67. E como havia vários estrangeiros, aguardavam uma sentença de extradição, ou algo assim.

 O capo me convidou para sentar, perguntou meu nome, se eu era preso “político” e o que eu queria comer. Claro que não dei nome nem posição política, mas tava na cara que era estudante e militante.

 -- Posso fazer um macarrãozinho ou um sanduíche de presunto com tomate e queijo. O que prefere?.

-- Sanduíche.

-- Estudante de que?

-- Engenharia.

-- É um absurdo, prenderem meninos, estudantes inocentes só porque discordam desses milicos de merda. Você apanhou? Quer uma aspirina.

 Imagina a minha surpresa com aquilo tudo! Sabia das torturas, dos mal tratos das masmorras da ditadura, e aquela cena Felliniana me parecia completamente surreal.   

 Como eles tinham muito dinheiro e nada mais para esconder ou confessar, subornavam todos os carcereiros para manter aquela “bella vita”  dentro da cadeia. Eram os carcereiros que faziam a faxina semanal na cela mediante um bom pagamento.

 Comi meu lanche como um rei, com direito a refrigerante e tudo. Depois fui saber que o capo, muito “buona gente” adorava cozinhar e ajudar os outros. Os pratos eram tão bons, que nos domingos até os carcereiros filavam o almoço da cela Maracanã.

 Depois de tantas emoções, escolhi um beliche em outra cela vazia e me larguei. Pela minha cabeça passavam cenas de como seria o dia seguinte. De que estariam me acusando? Desde Ibiúna que não participava de nada público.

 As circunstâncias dessa prisão eram totalmente diferentes, e muito mais perigosas que a primeira em Ibiúna. Lá éramos centenas, e eu aqui estava sozinho. Eles me perguntavam por armas e dinheiro e mencionaram um assalto.

 Nessa época, algumas organizações armadas de esquerda já estavam na guerrilha urbana e assaltavam, “expropriavam” bancos. Nessa guerra, quem era pego, primeiro passava por uma tortura brutal e “científica” para entregar companheiros, esquemas, organizações, e depois que já tinham dito tudo, já não serviam para nada, eram executados e enterrados nas covas comuns coletivas que só foram descobertas 20, 30 anos depois.

 Tinha eu pois, motivo de sobra para esperar ser torturado no dia seguinte. Acordei apavorado, tomei um café da manhã com pão fresquinho, manteiga, leite, na Maracanã. Os outros presos da cela me olhavam com um ar de preocupação e pena. Sabiam que eu logo seria chamado para o temido interrogatório.

 Até que a grade do corredor principal se abriu, um agente da polícia me chamou e me levou para uma sala fora da cadeia. Um escritório, com escrivaninha, cadeiras, uma mesa de reunião. À escrivaninha sentava-se o delegado encarregado do caso. Numa mesinha ao lado, um escrivão teclava numa velha Remington. Fazia calor, o escrivão suava, eu atribuí sua gotas de suor escorrendo pela testa ao esforço que fazia para teclar com tamanha força e brutalidade.

 O delegado fazia uma bateria de perguntas, interrompidas pelos outros agentes, dois ou três que estavam na mesa de reunião. Todo faziam perguntas, ameaças e acusações ao mesmo tempo. Eu, algemado, com as mãos para trás, quase não entendia o que falavam. Perguntavam.

 -- Te pegamos seu comunistinha filho da puta - Vai entregando logo os outros,  diz só os nomes - Onde vocês guardaram o dinheiro? Onde esconderam as armas?  De que organização vocês são?”

 Eu tentava responder rapidamente a cada pergunta, mas eram tantas e de todos os lados que comecei apenas a falar quem eu era. Um estudante e trabalhador, pai de família, embora com só 21 anos, estudava e trabalhava das 7 da manhã às 10, 11 da noite, e que tinha álibi e testemunhas para qualquer dia e hora que eles me acusassem, pois todos os dias estava o dia todo ocupado.

 Senti que eles embora ainda sem acreditar muito em mim, começaram a duvidar das próprias afirmações. Meu perfil não batia com o que eles esperavam.

 Depois de algumas horas, sem tortura física, o delegado disse:

 -- olha, já estamos pegando seus companheiros de assalto. Amanhã vamos fazer uma acareação, e se você estiver mentindo vai se dar mal.

 Me levaram de volta para a cela. Os senhores do Maracanã preocupados perguntavam se eu tinha apanhado, se estava bem. Eu contei como tinha sido, então o capo me disse:

 -- fica tranquilo, porque se não te torturaram é porque já sabem que você é inocente, já devem estar pegando os culpados.

 Dito e feito, no dia seguinte não me chamaram, perguntei pelo Claudinho, disseram que na mesma noite que chegamos tinha sido interrogado e liberado em seguida. Isso me acalmou ainda mais, porque se o soltaram é porque não tinham acusações consistentes contra nós.

 Mas de tarde, começaram a chegar novos presos. Um de cada vez, com intervalos de uma ou duas horas. Eram rapazes mais ou menos da minha idade, mas nenhum era estudante e nada a ver com política. Esses sim, entravam assustados, com caras inchadas, hematomas, cortes no rosto, dores nas costas. Um tinha sangue escorrendo do ouvido. Disseram que era o clássico  “telefone”, tortura que consiste em dar tapas de mão aberta nas duas orelhas ao mesmo tempo, que além de doer muito, costumava arrebentar os tímpanos e deixava o sujeito surdo temporariamente ou as vezes pelo resto da vida.

 Nenhum deles me reconhecera, eram uns oito e o pessoal do Maracanã cuidava deles como de filhos. Traziam sacos de gelo, compressas de arnica, anestésicos, limpavam feridas.

 Era quarta ou quinta-feira, e achei que iria ser libertado ainda antes do fim de semana, mas inexplicavelmente me deixaram de molho mais uns dias.

 Os “colegas de assalto” não foram mais molestados, tinham confessado tudo, entregue o dinheiro e as “armas”, dois ridículos e velhos revolveres 38.

Eram jovens moradores de uma favela do centro do Rio, e tinham um time de futebol. Um deles trabalhava num cartório em plena Avenida Presidente Vargas e teve a “brilhante” idéia de assaltar o cartório. Eram tão primários e inocentes, que a primeira coisa que fizeram com o dinheiro do assalto foi comprar um novo jogo de camisas para o time, apreendido na casa de um deles.

 Minha foto na ficha dos arquivos do DOPS, feita quando da prisão em Ibiúna, tinha sido confundida por uma velhinha, funcionária do cartório. A única semelhança, é que éramos morenos, cabelos pretos e cacheados e olhos azuis, coisa não muito comum no Rio de Janeiro.

 Tudo esclarecido, com a cadeia agora cheia de novos hóspedes, o capo decidiu fazer um belo almoço de domingo. Quando não me soltaram na sexta-feira, me disseram para relaxar que iria ficar no mínimo ate segunda, porque, como em todo serviço público, não tinha expediente no fim de semana.

 Os mafiosos mandaram dois carcereiros fazerem compras para a “quiabada de domingo”, famoso prato da cela Maracanã. Eu não gostava de quiabo, mas elogiaram tanto que resolvi provar, até para não fazer desfeita com o chefe que tinha me tratado e aos rapazes tão bem.

 Chegaram com uma grande compra de domingo, quiabo, arroz, tomate, frango, cebola, salsa, pimenta, etc... Trouxeram refrigerantes, mas se recusaram a trazer cerveja, solicitada por muitos. Pedi que me trouxessem um maço de Minister, e ganhei dois, os senhores não me deixaram pagar. Eu era “convidado”.

 Na sexta ou no sábado, um dos mafiosos me entregou um talão da Loteria Esportiva, muito na moda na época, e disse para eu fazer um jogo mínimo. Quase não acreditei, quando no sábado o carcereiro me entregou o comprovante do jogo me chamando de “senhor”. Os outros se riam dos carcereiros dizendo, esse aí é “Dotore”, Engenheiro, um dia vai dar emprego para vocês.

 Domingo nos reunimos todos na Maracanã para comer a melhor quiabada com frango que já comi na minha vida. Não resisti e pedi repetição. Ele fez um grande caldeirão onde cozinhou primeiro o tomate sem casca e sem sementes fazendo um autêntico molho italiano al sugo. Cozinhou o frango no molho, e depois acrescentou o quiabo cortado em rodelinhas. Numa outra grande panela, fez um arroz branco soltinho e com muito alho. Passei a adorar quiabo, e tentei várias vezes repetir a receita. Ficaram muito boas, mas nenhuma como do Capo Pietro.

 Nos regalamos com a comida maravilhosa, e só aí entendi o verdadeiro sentido do nome da cela. Depois do almoço, nos recostamos todos nos beliches, em cima e em baixo, como nas arquibancadas do Maracanã para ver numa TV gigante, um jogo do campeonato carioca e acompanhar os jogos que cada um havia marcado no seu talão da Loteria Esportiva

 Teria sido um ótimo domingo, a não ser pelo fato do Botafogo ter perdido o jogo principal.




sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

Minha Versão - Capítulo 17 - O assalto ao cartório - a prisão no DOPS da rua da Relação

 

O assalto ao cartório – a prisão no DOPS da rua da Relação. A invasão do apartamento. A prisão de Claudinho. O Ferryboat Rio-Niterói – O cigarro com gosto de último.

 Cheguei no meu apartamento da rua Gavião Peixoto um pouco mais cedo que o habitual, pois havia dado só as duas primeiras aulas no cursinho pré-vestibular no centro de Niterói. Era em torno das 20:00.

 Tentei levar a mão ao bolso para pegar a chave e a porta se abriu sozinha. Um homem alto, forte, com uma metralhadora debaixo do braço me puxou para dentro e me algemou.

Era junho de 1971, minha mãe tinha vindo cuidar da Carla, então com um aninho, enquanto a Eliane estava na faculdade. Choravam as duas apavoradas. Minha mãe com a Carla no colo andava de um lado para o outro da sala sem saber o que falar.

Um outro brutamontes menos alto e mais gordinho, que parecia o chefe,  começou a gritar: “onde está o dinheiro?”, “cadê as armas?”, “é melhor falar agora antes que seja tarde e que você se arrependa de tanta porrada”.  Quanto mais falava, mais mamãe chorava, e a Carla chorava junto. Eu estava com medo de que batessem na bebê. Sabia que eram capazes disso e até pior.

Dois outros, magrinhos, tipo malandro da Lapa, com pistolas automáticas, calças largas, reviravam o apartamento. Não ficou uma gaveta, do armário, do quarto, da cozinha, banheiro sem ser revirada. Não demorou muito, pois o apartamento era muito pequeno. Sala, quarto, banheiro e cozinha minúscula. Ficou tudo jogado no chão, espalhado por todo o apartamento.

Um dos magrinhos saiu, ficou uns dez minutos fora e voltou dizendo: “tem outro cabeludo e barbudo que pega ele todos os dias de manhã de carro”.

E o “chefe” disse: “se não disser quem é, seu bebê vai voar pela janela”. Estávamos no nono andar.

Coitado do Claudinho. Meu colega de faculdade que nunca tinha participado de nada, meu amigo já na segunda fase, quando eu só estudava e trabalhava. Claudinho tinha um fusca bege bem velhinho e todos os dias me dava carona até a praça Araribóia, onde embarcávamos para o Rio de Janeiro. Não sei onde andará Cláudio de Faria Augusto, grande, inteligentíssimo e saudoso amigo.

Fomos numa Camionete Veraneio, eu ainda algemado, assustando o porteiro na saída, buscar o Claudinho em casa. No caminho eu explicava que éramos estudantes de engenharia, que apesar de barbudos nada tínhamos com o movimento estudantil, então proibido e banido, que o Claudio apenas me dava carona e íamos juntos para a faculdade.

Acho que meu discurso dentro da Veraneio surtiu algum efeito, pois disseram ao Claudinho que iriam levá-lo apenas para averiguação e permitiram que fosse com seu fusca, seguindo a viatura do DOPS e com um policial no carro.

Pegamos o Ferryboat para o Rio, o carro do Claudinho na frente e a “viatura” atrás. Era uma noite agradável, e a brisa do mar novamente me revigorou. Acho que os policiais já estavam achando que perderam tempo, parecia que realmente nada tínhamos a ver com o ocorrido, que eles não revelavam.

Falei com o menos antipático, o magrinho com pinta de malandro da Lapa: “Pô, nesta lancha não tenho como fugir, me deixa fumar um cigarro”.

Surpreendentemente ele me tirou as algemas, saímos da camionete e nos apoiamos na borda da lancha onde fumei talvez o melhor cigarro da minha vida. Pensava que poderia ser o último, por isso aproveitei cada tragada.

Fomos levados para a sede do DOPS – Departamento de Ordem Política e Social na Rua da Relação 40, esquina com Rua dos Inválidos, no centro da cidade do Rio.

É um belo edifício da primeira década do século XX, projeto de Heitor de Mello, famoso arquiteto da época. A fachada, embora clássica e bonita, é muito sóbria, sombria, diria assustadora.

Embora seja uma coincidência histórica, nunca deixei de associar com o fato de estar  justo na esquina da Rua da Relação com Rua dos Inválidos. Foi projetado e construído para ser a sede da polícia civil do estado, onde foram instaladas algumas delegacias e o Museu da Polícia.

Durante a ditadura, instalou-se no último andar o temido DOPS, diretamente comandado por militares e até certo ponto hostilizado pelos demais policiais que trabalhavam em outros andares.

Sem dar nenhuma explicação, nem porque nem onde eu estava sendo preso, me largaram num corredor fechado por grades de ferro com várias celas cujas portas, também de grades de ferro estavam todas abertas para o corredor. Não vi mais o Claudinho desde que ele estacionara seu fusca no pátio interno do prédio.

Vi logo na primeira cela, que era grande e tinha umas 10 beliches, um grupo de senhores com idade de 50 para cima. Passei direto, as próximas celas, bem menores, tinham apenas um beliche e uma privada turca. Estavam quase todas vazias.

Na primeira, um jovem magro, fala agitada, me perguntou o motivo da prisão, eu não sabia. Morrendo de fome, vi em cima da cama superior do beliche, um pedaço de pão duro, devia ser de alguns dias. Comecei a roer o pão, e o meu novo amigo de cela riu e disse: “Não come isso não, vamos lá na Maracanã que eles arrumam alguma coisa pra você comer”...

Maracanã? Detalhes no próximo capítulo.



 

sábado, 2 de janeiro de 2021

Minha Versão - Capítulo 16 - O gosto da liberdade.

  

O gosto da liberdade.

 

Seu Solly Negreiros, pai da Eliane, meu futuro sogro, foi me buscar no quartel de cavalaria. Aqui vale uma homenagem a esse grande homem. Seu Solly, um  metalúrgico morador inicialmente em São Gonçalo e depois em Icaraí, Niterói, era a própria expressão da candura, empatia, paciência e simpatia. Nunca alterava a voz, nunca se exaltava e sempre tinha razão. 

 

Para que fossemos libertados, era necessário que alguém da família fosse nos buscar para assinar um “Recibo” de que estávamos vivos e inteiros. É verdade, quase ninguém ficou com traumas físicos, mas todos levaram para o resto da vida um trauma psicológico, em maior ou menor grau dependendo de cada um.

 

Meus pais, muito abalados, não tiveram condições de me buscar na prisão, e seu Solly, que já tinha retirado a Eliane do DOPS de Niterói alguns dias antes, foi me buscar também. 

 

Eliane e todos os delegados do Estado do Rio de Janeiro foram de ônibus para Niterói, que era a capital do estado. Já nós, os cariocas, representantes do Estado da Guanabara, tivemos o privilégio de sermos levados de avião enquanto éramos ameaçados de virar comida de tubarão.

 

Saímos, eu, amassado, sujo, cansado, aterrorizado e seu Solly com seu doce sorriso de sempre, caminhando da Lapa até a Praça XV de Novembro.

 

Foram aproximadamente uns 10 dias de prisão, mas a minha revolta, desilusão, baixo astral, faziam parecer 100 dias. O que nos mantinha lúcidos era a camaradagem dos companheiros, a vontade de voltar à luta e a certeza de que um dia venceríamos a Ditadura.

 

Até a Praça XV,  cabeça baixa, sentimentos contraditórios, um turbilhão de novos planos, idéias. Era cedo, acho que hora do almoço, quando subimos a bordo da velha e lenta barca que atravessaria a Baía da Guanabara. 

 

Desde os dez anos de idade, quando entrei para o Colégio Militar do Rio de Janeiro, fazia diariamente essa travessia (ainda não tinha a ponte). Foi sempre um momento de relaxamento, e eu sempre adorei o trajeto. 

 

Sol radiante, mar de almirante, barca imensa e pouca gente, sentei na janela da direita como gostava. Coloquei a cabeça para fora da janela e vi o Pão de Açúcar, o Aeroporto Santos Dumont, a entrada da barra com o Forte de Lajes, a ilha de Vilegagnon, e finalmente a ilha da Boa Viagem, as praia do Gragoatá, Icaraí, já quase em Niterói. A brisa do mar encheu minhas narinas, senti até o gosto da água salgada. 

 

A água que provava quando mergulhava na Pedra da Itapuca ou Pedra do Índio entre as praias de Icaraí e praia das Flechas para pegar siris, mariscos ou simplesmente ondas em dias de vento sul. 

 

Os olhos se marejaram, agora de lágrimas mesmo. Como é maravilhosa a liberdade! A partir daí, aprendi que a Liberdade tem gosto de brisa do mar.

 

***

 

Morávamos na rua Otávio Carneiro 18, esquina com a praia de Icaraí. 

Minha mãe, aflita na janela, esperou minha chegada durante toda a manhã. Imagina a emoção de ver o filho único que poderia não ter visto nunca mais.

 

Abraços, beijos, carinhos e promessas de que tudo vai mudar...

É verdade, em 1967, como já contei, fiquei com duas matérias para recuperar em 1968.

 

1968 foi o ano que nunca acabou e para mim também, nunca acabei as matérias do segundo ano e nem aquelas que ficara dependente do primeiro. Eu tinha que “tomar jeito”, porque mais um ano perdido seria excluido daquela excelente faculdade pública e gratuita, o ano escolar de 1968 em novembro, já estava perdido.

 

Com muito medo, voltei à faculdade em São Cristóvão, pois agora era fichado e a qualquer momento podiam querer me prender por um motivo fútil qualquer. Mas não tinha jeito, o ano estava perdido.

 

Numa dessas idas ao Rio, voltei com muita febre, médico, diagnóstico,  pneumonia, das bravas. Também pudera, um ano sem dormir direito, sem comer direito, vivendo de um lado para o outro em reuniões e manifestações.

 

Mamãe se apossou de mim e me “internou” em casa, com super alimentação, repouso e carinho. Eliane continuou a faculdade de Serviço Social na UFF, e praticamente se mudou lá para casa. 

 

Minha última manifestação da antiga rebeldia foi comunicar solenemente à família que iria me casar com Eliane o mais breve possível.

 

Eu sei que meus pais não gostaram da idéia de ver o filho de 19 anos casar-se, tão jovem, com um “promissor futuro pela frente”, etc. Mas acho que viram no casamento uma possibilidade de eu me afastar da política estudantil, que em tempos de ditadura significava muita luta, perigo de prisão, tortura e até “desaparecimento” que era como os ditadores e seus sequazes chamavam os assassinatos de presos políticos sem devolução do corpo para a família.

 

Embora eu já fosse ateu, “graças a Deus”, tive que aceitar a montagem católica de mamãe para o casamento. Assim, em janeiro de 1969, casava-me com Eliane na igreja de Porciúncula de Sant’ana, em frente ao Campo de São Bento em Niterói, onde apenas nove anos antes, adorava ir às matinês no Cine São Bento, passear com minhas amadas bicicletas, comer pipoca e algodão doce.

 

Casamento com direito a terno, vestido de noiva, padrinhos, bolo e festa no salão de festas nos fundos da igreja.

 

Onze meses depois nascia minha primeira filha, Carla.

 Até hoje ela adora o mar, mora em frente à praia e pratica vários esportes aquáticos. Acho que foi porque já nasceu de frente para o mar numa maternidade localizada na praia de Charitas.

 

Nos anos de 1969 e 1970 terminei o segundo e terceiro ano da Faculdade. Pai novo, casadinho, bonitinho, trabalhando e estudando muito. De manhã aula em São Cristóvão, de tarde como desenhista e de noite como professor de Física e Matemática em cursinhos pré-vestibulares e supletivos no centro de Niterói. 

 

Em junho de 1971, já no quarto ano, faltando apenas mais um e meio para me formar, a casa caiu de novo.

 

A situação política, cada vez pior. A ditadura era onipresente, quase não se podia respirar. Até saídas noturnas para conversar com amigos em bares de Icaraí, como o saudoso Pétit Paris, eram perigosas. Havia agentes e informantes por toda parte.

 

Um dia, depois de três jornadas de estudo/trabalho, sem nenhum motivo aparente, chego cansado em casa e me aguardava uma terrível surpresa, o DOPS do Rio de Janeiro.

 

Bem, mas isso fica para o próximo capítulo...




 

 

 

 

 

 

 

 

sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

Minha Versão - Capítulo 15 - A viagem de volta para o Rio – o “Merdel”.

  

A viagem de volta para o Rio – o “Merdel”.

 

A porta da cela se abriu, apareceram alguns carcereiros e começaram a chamar um lista de nomes, o meu entre eles.

 

Disseram que seríamos transferidos, mas nenhuma informação sobre o critério da chamada.

 

Lembro que senti nitidamente duas emoções fortes, alívio de sair daquela “lata de sardinha” e pavor em pensar que seria “desaparecido” ou torturado.

 

Juntaram umas dezenas num hall na entrada do presídio. Não podíamos conversar, sob ameaça de porrada. Só depois de colocados nos camburões, caminhões fechados para transporte de presos, pudemos nos identificar. Éramos todos do Estado da Guanabara. Deduzimos: ou estão nos enviando para o Rio de Janeiro, ou não gostam de cariocas. 

 

Uma coisa era certa, não iriam nos soltar, pois não tinha sentido colocarem todos em camburões, transportarem para algum lugar e abrir as portas.

 

Depois de uma longa viagem, quando pensamos que estávamos indo  amontoados como bois em caminhões de gado até o Rio, o caminhão parou. Gritos do lado de fora ordenava que saíssemos com as mãos na cabeça. 

 

Era uma noite escura, e lembrei de filmes da segunda guerra, quando judeus eram tirados dos vagões dos trens de transporte para serem, ou fuzilados na hora, ou enviados para uma Auschwitz.

 

Estávamos numa pista de aeroporto, e um avião grande da Força Aérea, estacionado ao lados dos vários  caminhões que iam chegando, nos aguardava. Pensei logo nas contradições da minha existência. Ou estava voltando confortavelmente de avião para a Cidade Maravilhosa, ou seria, aos dezenove aninhos, jogado no Oceano Atlântico, como o famoso serviço secreto da Marinha, o CENIMAR e outras ditaduras latino-americanas costumavam fazer com seus opositores.

 

Em fila indiana fomos entrando no avião, agentes em trajes civis, armados de pistolas automáticas ou sub-metralhadoras nos amarravam as mãos com os cintos de segurança das poltronas.

 

Durante o embarque, e depois de sentados em nossos lugares, os agentes provocavam:

 

“Vocês acham que vão pra casa? Vamos jogar todo mundo no mar”.

“Quem sabe nadar, aí, fala que vai primeiro”.

“Quem levantar da cadeira leva um tiro”.

 

Andavam pelo corredor gritando e mostrando suas armas, num prazer imenso, sádico, olhos inchados, cabelos despenteados, roupas decompostas.

 

Tudo isso falavam em meio a risos, gargalhadas. Pareciam transtornados de prazer. Morríamos de medo, as meninas esqueciam a dureza da militância e choravam.

 

O ambiente começou a ficar muito tenso, choros, desesperos e alguns protestos daqueles mais corajosos.

 

Um soldado da Aeronáutica fecha a porta e o frisson aumenta mais ainda.

Abre-se a porta da cabine e sai um oficial fardado. Pede silêncio e fala:

 

“Acalmem-se por favor. Ninguém será jogado no mar, é mentira desses policiais. Esta é uma aeronave da Força Aérea Brasileira, e eu sou o comandante. Sou a autoridade máxima aqui, e ordeno aos policiais que desengatilhem, travem e guardem suas armas. Estamos num ambiente pressurizado, um tiro disparado aqui e morremos todos. Estamos indo para a Base Aérea do Galeão e aqui os senhores serão bem tratados.”

 

Não podíamos aplaudir porque tínhamos as mãos atadas, mas começamos a estalar os dedos, como num aplauso.

 

Até hoje me emociono quando relembro a fala daquele Capitão. Ele mostrou que existe gente boa, honesta e humana nas Forças Armadas, diferente dos facínoras que nos foram buscar.

 

Relaxei e aproveitei a viagem para descansar, há tempo não sentava numa poltrona confortável.

 

Decolagem e aterrisagem tranquilas, chegando no Galeão, com raiva redobrada pelo discurso do Capitão, os policiais fizeram um “corredor polonês” da escada do avião até a porta do camburão. Com grandes cassetetes distribuíam porrada em quem passava, homens, mulheres, democraticamente, sem discriminação. O Corredor Polonês  tinha uns 20 metros, e passávamos correndo evitando ao máximo as cassetadas.

 

Todos dentro do caminhão, aliviados, um certo burburinho alegre. Afinal havíamos apanhado muito pouco e iríamos sobreviver, não gastariam numa viagem tão cara para nos matar depois. 

 

Já madrugada chegamos num quartel da Cavalaria da Polícia Militar do então Estado da Guanabara. Não consigo mais localizá-lo, mas ficava perto da Lapa. Desembarcamos, fomos reunidos na entrada do Quartel, no Corpo da Guarda.

 

Uns sargentos fizeram a contagem e quando verificaram que não faltava ninguém, olharam para o tenente que estava de Oficial de Dia como que perguntando o que fazer conosco. O tenente gritou: “leva pro Merdel”.

 

O local era um picadeiro onde se treinava cavalos e cavaleiros. Quase um ginásio redondo, com o solo de barro, coberto de palha que escondia a merda dos cavalos, daí o carinhoso nome “Merdel”.

 

Fomos informados que passaríamos o resto da noite ali. Tratamos cada um de juntar uma braçada de palha para fazer uma cama, evitando as bostas dos cavalos que ali estiveram durante o dia.