domingo, 21 de fevereiro de 2021

Minha Versão - Capítulo 23 - Cheguei nas Torres de Macul em plena festa junina

Cheguei nas Torres de Macul em plena festa junina – Gente muito esquisita.

 

Passei mais uns dias na casa de Jonnas antes de ir para a casa do Jones.

A mulher do Jones, dizia que o encontro comigo tinha feito muito bem para ele, que estava mais animado, e que gostaria que eu já estivesse morando em sua casa quando ele voltasse da clínica. Disse que minha presença mais alegre o faria conversar e quem sabe até rir um pouco.

 

Fiquei de me mudar na sexta anterior à semana que o Jones sairia da clínica, depois que ela voltasse do trabalho.

 

Consegui localizar a “población” que era bem distante de onde estava, em Providencia. Também fácil encontrar a casinha deles.

 

Difícil foi entender o que estava acontecendo.

Logo na entrada, topei com um cara vestido de cangaceiro!

No canteiro central da avenida das torres de transmissão várias barraquinhas interligadas por cordinhas com bandeirolas.

 

Um alto-falante começou a tocar Luiz Gonzaga. Não conseguia acreditar no que estava vendo, será que tinha desbundado já na primeira semana, e comecei a ter alucinações?

 

Que nada, era uma festa junina nordestina em pleno mês de outubro.

Pessoas vestidas com roupas com remendos, mulheres de vestido de chita, um autêntico São João nas Torres de Macul.

 

Tinha barraquinha de todo tipo, de “pescaria”, de dardo, prendas, etc... 

Só não tinha “prisão” abolida nas festas junino-chilenas de outubro. 

 

Quentão, batata doce, inhame com melado, rapadura, queijo de coalho, tudo importado do Brasil.

 

A diferença eram as pessoas, muito estranhas. Todos os homens cabeludos com longas barbas, as mulheres muito estranhas, pareciam saídas de Woodstock. Os papos só sobre política brasileira, ditadura, “ações” das organizações. Tudo muito velado em códigos que não conseguia desvendar. 

 

A colônia brasileira, ou o “gueto” como eu chamava estava totalmente descolada da realidade chilena, viviam como no Brasil, faziam as festas brasileiras, até o carnaval, e isso era o que mais me incomodava. Havia gente que estava aqui desde 64, e muito pouco sabiam ou interagiam com a cultura, a política e a sociedade chilena. Uma grande oportunidade de se renovarem, aprender nova cultura, outra língua, crescer, mas não. Parece que se reafirmando como brasileiros, vivendo em redomas isoladas, sentiam menos a distância e a diáspora. O espanhol que falavam, era um português recheado de palavras castelhanas com forte sotaque, parece que não queriam aprender, como yanques de férias no México.

 

Aquilo tudo me incomodou, eu já estava gostando tanto do Chile que não me interessava mais por aquilo que via, a fixação no Brasil.

Refugiei-me na casa do Jones. A mulher dele me mostrou o quarto que me tocava. Apenas um armário embutido na parede e um colchão no chão.  Foi legal e me emprestou uns lençóis e um cobertor, porque mesmo no verão, as noites eram bem frias. 

 

Fiquei desfazendo minha sacola de roupa, arrumando as coisas da mochila no armário, arrumando a “cama” com os lençóis e me surpreendo novamente com o barulho que vinha da sala.

 

Um vinil de Caetano cantando London, London, e muitas vozes. 

Várias pessoas todas muito estranhas tinham vindo direto da festa junina para fazer um baile na casa do Jones, embora ele não estivesse.

Sai do quarto e Caetano dizia:

 

“Go looking for flying saucers in the sky”

 

As pessoas dançavam com copos de vinho na mão, quase todos com olhares vagos e distantes para o teto, tanto que também olhei procurando discos voadores.

 

As vozes aumentavam de volume acompanhando Caetano quando cantava:

 

I'm wandering round and round, nowhere to go
I'm lonely in London, London is lovely so
I cross the streets without fear
Everybody keeps the way clear
I know, I know no one here to say hello

 

While my eyes ....

 

Entendi, era o hino do exílio. Todos sentiam o mesmo que Caetano no exílio, na bela, fria, distante e solitária Londres. 

 

A sala tinha uma grande porta-janela que dava para um lindo jardinzinho, que apesar do frio estava cheio de gente. Uma estranha rodinha.

Precisava socializar, conhecer as pessoas, interagir, afinal essa seria minha turma por não sei quanto tempo.

 

Sai e fui invadido por uma forte “maresia”. 

Um baseado passava de mão em mão. Tive que entrar na roda, e entender um pouco mais da minha nova “comunidade”.






 

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

Minha Versão - Capítulo 22 - O encontro com Jones

O encontro com Jones 

No mesmo dia visitei a CORVI – Corporación de la Vivienda, órgão do governo voltado para a construção de casas para a população de baixa renda. Onde mais tarde iria trabalhar como fiscal de obra.

 Jones não estava. Em seu lugar me recebeu uma outra brasileira que me fez mais um monte de perguntas, disse que o Jones estava de licença no trabalho mas que faria contato com a mulher dele. Estranhei, mas não se faziam perguntas. Fiquei de voltar à CORVI no dia seguinte, mas deixei o número do telefone da casa do Jonnas.

 Aproveitei o resto do dia para caminhar pela cidade, Cerro Santa Luzia, Providencia, Plaza Itália, etc. Estava maravilhado com a beleza, arborização, limpeza e organização da cidade. Acho que foi aí que nasceu a vontade de morar em Santiago para o resto do exílio e, quem sabe, até depois.

 De manhã a companheira do Jones me liga, diz que falou com ele sobre mim, que me daria todo apoio que precisasse, que ela trabalha todo o dia, mas que poderia visitá-la à noite em casa. 

 Eles moravam numa “población”, isto é, um conjunto habitacional com toda infraestrutura chamado Las Torres de Macul. Uma vila novinha, com centenas de lindas casinhas muito bem construídas pelo governo, de dois ou três quartos, muito agradáveis. No bairro de Macul, perto da famosa Viña Macul. Era quase um bairro, com um bom arruamento, cortado por uma avenida onde ficavam as torres de uma linha de transmissão, daí o nome.

 Chegando na casa ela me recebeu muito amistosa e solidária. Pena que, por mais que me esforce, não consigo lembrar o seu nome. Embora fosse loira, tinha um nome tupi e era de Brasília.

 Me convidou para entrar e jantar. Estranhei que ela estava só. Colocou a mesa, sentamos, e enquanto comíamos, explicou a situação.

 O Jones tinha “desbundado”. Esse era um termo para classificar um fenômeno relativamente comum entre os jovens exilados, a depressão.

 Muitos brasileiros exilados encaravam uma depressão bem forte, pela sensação de derrota, de terem sido arrancados de sua terra, sua família, pela melancolia da saudade, palavra tão significante da língua portuguesa, que vem desde os navegadores portugueses até os africanos desterrados para o Brasil e que define um sentimento tão constante em nossa cultura.

 O choque com uma cultura tão diferente, afetava a todos, a falta da alegria natural do brasileiro, das comidas, do calor, enfim, do samba/futebol/cerveja, do falar alto, dos abraços e beijos espontâneos que trocamos sem cerimônia e ao mesmo tempo tão difícil para os chilenos, tão britânicos, que chamavam a si próprios “os ingleses da américa latina”.

 Esse “banzo”, tristeza comum entre os africanos escravizados, dominava a colônia brasileira em Santiago. Essa colônia chegava a se constituir num verdadeiro gueto, onde só se falava português, só se discutia política brasileira, reproduziam nossas festas, chegavam a importar feijão, rapadura, farinha de mandioca, etc... Só se reuniam e namoravam entre si.

 Desde o início me rebelei contra isso e procurei inserir-me na sociedade santiaguina, só falando “chileno”, um espanhol com sotaque bem particular, e fugindo dos eventos sociais do “gueto”.

 No meio do jantar ela entrou em detalhes sobre o Jones.

Ele tinha caído em depressão profunda e teve que ser internado numa clínica. Imagina o susto! Meu chão sumiu. O Jones era minha esperança em Santiago, pois não conhecia mais ninguém.

 Ela percebeu meu susto, minha insegurança, apavoramento, e tentou me acalmar. Explicou que no dia seguinte era o dia da semana que ele saia da clínica para vê-la e dar uma volta, que ele já vinha melhorando, inclusive já voltara a conversar e conseguia estabelecer um diálogo mais prolongado, o que era muito difícil quando começou a crise um mês antes.

 Ela trabalhava com o famoso crítico de arte Mário Pedrosa, uma das maiores cabeças brasileiras do século XX. Marxista, fundador do PCB e depois um dos primeiros contestadores do Stalinismo, difundindo o pensamento e a prática de Trotsky na esquerda brasileira. Morava numa bela casa em estilo inglês, perto do Mapocho onde a mulher de Jones trabalhava. Era sua secretária e datilografava seus livros.

 Combinamos de nos encontrar no dia seguinte com Jones na casa de Mario Pedrosa. Ela achava que seria bom ele me rever, que talvez o alegrasse.

 Foi uma frustração quando nos encontramos no dia seguinte.

Eu com uma grande expectativa, tinha tanta coisa para conversar, ansiava por um abraço do amigo e pela sua fala rápida, escorreita, precisa, do belo  sotaque pernambucano.

 Encontrei um Jones com uma barba enorme, preta, parecendo um aiatolá.

Apertou minha mão sem entusiasmo, como se tivéssemos nos visto no dia anterior, perguntou como eu estava e a partir dai calou-se.

Saímos caminhando pela margem do rio e fiquei do lado esquerdo, entre ele e o precipício, lembrando das instruções de sua mulher, que cuidasse com qualquer tentativa de suicídio.

 Foi muito triste, falei sem parar, pelos dois. Contei toda a fuga, a situação no Brasil, meu casamento e a faculdade pós 68, etc. Ele permanecia calado, com olhar e pensamento distantes.

 No fim da caminhada, já chegando de volta na casa de Mário Pedrosa, ele finalmente falou.

 — Vou ficar mais um tempo na clínica, mas você vai lá pra casa até se enturmar e encontrar um lugar para morar. Assim é bom que faz companhia para a ... (não consigo lembrar o nome dela) até eu voltar. Ela está precisando, anda muito triste e sozinha por minha causa.

 Ficou combinado de eu me mudar no fim de semana, quando ela poderia ajudar a instalar-me.



Minha Versão - Capítulo 21 - Chegada a Santiago

Chegada a Santiago

 Meu destino era Santiago, mas ninguém tinha me dado um contato, onde ficar, nada.

 Tinha meu colega da Faculdade de Engenharia, Jones de Freitas, pernambucano arretado, revolucionário de primeira e trotskista convicto. Um dos caras que eu mais admirava na nossa militância, com muita cultura e de pensamento rápido, claro, preciso, objetivo.

 No trem, Mendoza - Santiago, onde conheci e conversei com o senhor nordestino (João Amazonas/Julião?), fiz amizade com a brasileira que o acompanhava, baixinha, bonitinha, cabelo preto escorrido que parecia também estar indo se exilar, mas já conhecia o trajeto, já tinha vivido em Santiago, talvez fosse uma emissária de uma das várias organizações clandestinas, ou estivesse dando apoio para a fuga do senhor misterioso. Mas isso não se perguntava, sob pena de ser confundido com um agente infiltrado do SNI, CENIMAR, Polícia Federal, etc...

 Chegando em Santiago, na estação Mapocho, expliquei meu drama. Não sei onde ficar, disse que tinha um amigo de nome Jones. Ela pediu meu nome, origem e  me passou um telefone de contato. Iria procurar meu amigo e que eu ligasse no dia seguinte.

 Nessa época, a esquerda brasileira no Chile tinha um centro de apoio aos exilados para troca de informações seguras. As diversas organizações e partidos aí representados verificavam os nomes dos recém chegados, sua origem, se tinha alguma ligação com a repressão, se poderia ser um infiltrado, etc...

 Uma vez checada a origem, ajudavam também com alojamento, roupas para o frio e alimentação, durante um tempo pre-fixado e somente para aqueles que não tinham levado dinheiro suficiente. Contavam com apoio de entidade chilenas e internacionais de ajuda a refugiados.

 Felizmente, eu tinha dólares suficientes para um bom tempo, pois o câmbio, com a inflação galopante dos tempos de Allende, era extremamente favorável ao cruzeiro.

 Passei a noite num hotelzinho perto da estação de trem de Mapocho, dei umas voltas pelo agradável centro de Santiago. Um belo dia de sol e de liberdade. Como era bom não ter que se preocupar em estar sendo seguido, controlado, ameaçado.

 Subi pela margem esquerda do rio Mapocho, que estava cheio pela vazão do degelo.

Curtindo o arzinho gelado, os álamos e as flores do parque da Avenida Costanera, com os Andes ainda nevados ao fundo. Me sentia num cartão postal, num musical americano com final feliz.

 Descobri a calle Huérfanos, a Plaza de Armas e caminhei até o palácio “La  Moneda”, bonito na sua imponência, e que seria bombardeado pela Força Aérea chilena dois anos depois, numa demonstração da imbecilidade, truculência e irracionalidade a que podem chegar milicos ensandecidos pela mídia de uma burguesia “asesina”. Militares que bombardeavam e destruíam um dos símbolos mais bonitos e respeitados pela nação chilena, e por eles mesmos.

 Depois de comer um delicioso sanduíche totalmente estranho para mim, “lomito palta mayo”, finas fatias de lombo de porco cozidas, passadas na chapa, misturadas com maionese e salada de abacate num pão de hamburguer, encontrei um telefone público e liguei para o número que me havia dado a brasileirinha do trem.

 Ela já havia checado meu nome, que estava tudo bem, e que tinham encontrado meu colega Jonnas. Ele morava nas Torres de Tajamar, logo no início do bairro de Providencia.

 Passou-me o endereço, mas achei estranho ela falar “Jonnas”, porque meu colega de faculdade era Jones. Mas fui para o lugar que me mandara.

 Jonnas morava no nono andar de uma das torres mais modernas de Santiago. Fui recebido por sua mulher que me ofereceu um café, uma poltrona e disse que o Jonnas chegaria em duas ou três horas, mas que já estava sabendo da minha presença.

 Fiquei só na sala com uma linda vista para o Mapocho. Esperei uma ou duas horas sentado, até que, olhando para fora, notei que a paisagem se movia levemente, de um lado para o outro, como se num filme balançassem a câmera. Fiquei mais impressionado quando o lustre começou a se mover também num vai e vem pendular.

Experimentava o meu primeiro “temblor” no Chile, logo no segundo dia. Não entendia o que estava acontecendo, até que a empregada da casa veio correndo da cozinha dizendo: “Está temblando señor”.

 Quando me dei conta, tudo já tinha passado. Quem vive essa experiência pela primeira vez nem fica assustado, porque não sabe o que está acontecendo, e é tudo muito rápido. Mas depois que conheci o “temblor”, que acontece quase  semanalmente em Santiago, passei a ter medo, porque eventual mas raramente pode se transformar num terremoto.  

 Finalmente Jonnas chegou. Seu nome era Jonnas Jonissen, e não o Jones Freitas que eu procurava. O Jonnas não era exilado, estava fazendo um mestrado em economia na Universidad de Chile e na CEPAL - comissão Econômica Para América Latina e Caribe, órgão da ONU com sede em Santiago.

 Jonnas sabia da minha existência por ter sido aluno do meu pai na Faculdade de Economia da UFF – Universidade Federal Fluminense, e por isso aceitara me receber como um gesto de solidariedade, mas estava claro que não tinha sentido eu ficar em sua casa.

 Como já anoitecia, muito atenciosamente me convidaram para jantar quando contei toda a minha história, desde Niterói até Santiago.

 Depois de alguns telefonemas, outros brasileiros exilados, conhecidos de Jonnas, ficaram de contatar o verdadeiro Jones e me avisar no dia seguinte o seu paradeiro.

 Dormi essa noite num quartinho do apartamento que estava sendo preparado para a chegada do bebê deles que estava a caminho.

 Dia seguinte, depois de um sono dos justos e de um belo café da manhã, toca o telefone, o Jonnas atende e me passa.

Depois de algumas perguntas, sobre quem eu era, onde estudava, como conhecia o Jones, etc, me passaram o endereço do trabalho dele, fiquei feliz em saber que ia ver meu velho companheiro, mas não sabia a surpresa que me aguardava...



 



sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

Minha Versão - Capítulo 20 - Mendoza – Santiago e o misterioso exilado no vagão restaurante do trem.

Mendoza – Santiago e o misterioso exilado no vagão restaurante do trem.

 

Ufa!

Finalmente entrei no trem de Mendoza para Santiago.

Era outubro de 1971 e ainda tinha bastante neve na cordilheira, mas felizmente, depois de dois dias de espera, a linha férrea e os túneis foram desimpedidos.

Comprei a passagem num guichê com janelinha de ferros retorcidos em rococó que pareciam os de estações de trem de filmes do velho oeste.

Eu, minha mochila e a sacola onde ia toda a minha vida, tudo o que eu tinha, embarcamos.

Um vagão com bancos duplos de madeira, outra vez “velho oeste”.

Ufa!

Pela primeira vez consegui relaxar em toda a viagem de fuga.

Niterói, Rio de Janeiro, Campo Grande, Ponta Porã, Pedro Juan Caballero, Assunção, Formosa, Resistência, Reconquista, Santa Fé, Rosário, Córdoba, San Luiz e Mendoza.

Parece que percorri toda a margem direita do Rio Paraguai e metade da Argentina.

Consegui sentar sozinho em um banco duplo de madeira, joguei minhas coisas embaixo do banco, a cabeça para trás, respirei fundo, de olhos fechados por uns bons minutos.

Todos os acontecimentos do último mês me vieram à cabeça como num filme acelerado, em flashes, sons, imagens.

O Jornal Nacional com o Cid Moreira citando meu nome no assalto à casa de saúde Dr. Eiras.

Eliane interrompendo a aula de matemática que eu dava no curso SIG.

Os esconderijos em Niterói, Botafogo e Tijuca, a rodoviária Novo Rio com tia Zezé, a invasão noturna do ônibus na fronteira São Paulo/Mato Grosso pelo exército.

O táxi aéreo Campo Grande - Pedro Juan, o vôo no DC3 Pedro Juan – Assunção e finalmente a longa viagem de ônibus de Assunção a Mendoza.

Pretensiosamente projetei: um dia vou escrever essa história, foram tantas as aventuras, sustos, surpresas, aprendizados, que não poderia deixar para trás.

Um menino de 21 anos com um turbilhão de idéias na cabeça, sem nenhuma experiência de vida, numa aventura de filme, filme de 007.

Fugia de uma ditadura passando por outros dois países com ditaduras militares semelhantes que tinham um acordo de repatriar qualquer opositor que ousasse cruzar suas fronteiras.

Chamavam esse acordo, orientado pela CIA de “Operação Condor”.

O trem subia a cordilheira, neve para todo lado, paredões de gelo, eu ia feliz, aliviado.

No meu vagão, um senhor de cabelos brancos e fala nordestina, embora escondesse seu português, sentou-se na minha frente com uma brasileirinha simpática de longos e lisos cabelos negros.

Não trocamos palavra durante a primeira parte da viagem.

Eles falavam baixinho entre si, como que para esconder a nacionalidade.

Cruzamos a fronteira juntos.

Numa mera formalidade, Carabineiros de Chile pediram nossos documentos e apresentei minha carteira de identidade, pois estava impedido de tirar passaporte.

O senhor de cabelos brancos e sua acompanhante também apresentaram os seus.

Tensão no ar.

Sem problemas.

Passamos pelos policiais argentinos e chilenos sem qualquer observação, eram apenas burocratas cumprindo seus papéis.

Cruzada a fronteira nos olhamos e pela primeira vez trocamos sorrisos, o alívio ficou claro, pairando no ar. Surgiu uma cumplicidade entre nós.

Começamos a conversar em português, que delícia poder interagir usando sua própria língua.

Na conversa, é claro, como era costume na época entre exilados, não se perguntava nomes, origens, etc... Apenas conversas superficiais.

Eu sabia que aquele cara não me era estranho.

Chegando a Santiago, fui buscar em artigos de jornais e livros (ainda não existia Internet) a foto daquela figura.

Era um cara muito parecido com João Amazonas, alto dirigente do PCdoB.

Durante muito tempo achei que tínhamos viajado juntos para o exílio no Chile.

Outra possibilidade seria Julião, das ligas camponesas de Pernambuco?

Só agora, com Internet e Wikipedia, vi que o João nunca se exilou no Chile, mas na Albânia, e Julião foi para o México. Mas pode ter sido ele, pois nessa época usava-se essa rota para chegar ao México, pois era impensável sair por um aeroporto em voo internacional.

Com essas e outras impressões, erros e fatos surpreendentes para quem não viveu essa época, concluí que valia a pena narrar essa historia de 007, concretizando o projeto imaginado naquele trem Mendoza-Santiago de Chile em outubro de 1971.

 


 

sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

Minha Versão - Capítulo 19 - O Assalto à Casa de Saúde Dr. Eiras - A fuga para o Chile.

 O assalto à Casa de Saúde Doutor Eiras – A fuga para o Chile.

Do assalto ao Jornal Nacional com Cid Moreira. Passando pela casa do deputado do partidão, a casa da prima, nora do general, a tia Zezé e finalmente a Rodoviária Novo Rio.

 

Oito e meia da noite do dia 02 de setembro de 1971,  dava aula no Cursinho SIG, escrevia no quadro quando vi a Eliane na porta me fazendo sinais. Para eu sair urgente da sala.

 

O cursinho pré-vestibular e supletivo SIG tinha esse nome em homenagem ao ratinho símbolo e mascote do tabloide de resistência da época, O Pasquim. Sigmund Freud era o nome do rato que desafiava a censura da ditadura.

 

 O curso fora criado pelo grande amigo de Niterói, João Baptista a duras penas mantinha esse curso de sobrevivência que ajudava vários companheiros universitários que não conseguiam outros empregos e viravam professores. Eu dava aulas de Matemática e Física, no pré-vestibular e no supletivo.

 

Saí da sala e Eliane me comunicou que meu nome havia acabado de ser citado no Jornal Nacional pelo Cid Moreira, o âncora da época e de várias décadas. “Estou famoso” pensei com um sorriso irresponsável, que foi logo trocado por uma cara de pânico quando ela prosseguiu: “sua foto foi mostrada como um dos assaltantes da Casa de Saude Doutor Eiras em Botafogo, o assalto foi na hora do almoço e mataram três seguranças”.

 

Corremos para a sala do João Batista, pois não sabíamos o que fazer. Como no primeiro assalto eles chegaram no meu apartamento em horas, nesse que era muito mais grave, já deviam estar lá. A coisa era muito séria, foi um assalto feito e assumido pela ALN – Aliança Libertadora Nacional que levou em torno de 80.000 cruzeiros e as armas de todos os seguranças. Pior, a casa de saude pertencia ao então ministro da saude da ditadura. 

 

Ainda havia um fio de esperança. O Cid Moreira havia dito José Lucio de Almeida Gomes, trocado o Arruda por Almeida. O João Batista estava com visitas em casa e aconselhou que fôssemos dormir na casa de outro amigo aguardar os jornais do dia seguinte enquanto ele conversava com seu sogro que era Deputado Estadual pelo MDB, mas na verdade quadro disfarçado do PCB, o antigo “Partidão”.

Conseguimos uma ajuda corajosa do Eduardo, grande amigo de então, recém casado com a Valéria. Mas a Valéria estava grávida, já barriguda, e não poderia se arriscar a ser acusada de acoitar um “subversivo” nem deveria passar por esse stress. Resolvemos ficar apenas por uma noite e esperar O Globo impresso do dia seguinte.

 

Claro que quase não dormi, depois do café da manhã Eduardo chega com a edição do O Globo. Na primeira página as fotos e os nomes dos “guerrilheiros” assaltantes da Casa de Saude. Agora meu nome saiu correto, Arruda, mas dos doze da lista apareciam apenas dez fotos. A minha não estava.

 

Eram uma má e uma boa notícia. A má que o nome era o meu mesmo, a boa é que como não tinha saído a foto, eu poderia circular com menos perigo.

 

João Batista aparece de carro. Vem para me levar para a casa do sogro deputado, que ficava no bairro do Fonseca. Lá, em conversa com o deputado, concluímos que só restava uma saída viável, era o exílio, fugir para o Chile, único país  democrático do cone sul da América naqueles dias.

 

Ali passei a segunda noite, agora sozinho, pois a Eliane foi estudar uma forma de fuga. As várias organizações clandestinas tinham seus próprios planos, guias e rotas de fuga, mas como eu não pertencia a nenhuma, não sabia o que fazer. 

 

Eliane conseguiu contato com minha prima Ney, que morava em Laranjeiras e tinha ligações com a Juventude Universitária Católica -JUC, fundadora  da Ação Popular – AP, organização cristã/socialista/marxista muito atuante na esquerda da época. A Ney ofereceu me abrigar na casa dela enquanto o pessoal da AP montava um plano de fuga para mim. E meu pai juntava os dólares necessários para minha longa viagem por terra Rio – Santiago. Até hoje penso no que teria acontecido se minha família não pudesse arcar com os gastos da viagem. Quando me lembro disso e vários outros sacrifícios, penso em todo o amor que devo e não correspondi aos meus pais.

 

Fiquei escondido num quarto, com os devidos cuidados para não ser visto pelas pessoas da casa, nem pela empregada. Muito menos pelo sogro da Ney que era um general da linha dura e influente no governo da ditadura. Se ele soubesse, certamente me denunciaria. 

 

Ali passei umas duas semanas, e lembro que no dia 17 de setembro de 1971, o mesmo Cid Moreira no Jornal Nacional comunicava, não sem certa alegria mórbida, a captura e morte do capitão Carlos Lamarca num ataque ao foco de guerrilha rural que comandava. 

 

O fato me marcou por dois motivos, primeiro porque o nome da minha filha Carla tinha sido dado em homenagem a esse bravo militar que tinha fugido do quartel que servia com um caminhão carregado de armamento e munição suficiente para implantar um foco guerrilheiro. O segundo, é que ficava claro que a ditadura não estava poupando aqueles opositores que pegaram em armas, simplesmente fuzilava antes de prender. E eu estava sendo confundido como participante de um comando armado que teria atacado a Casa de Saude e matado três seguranças. Se fosse pego, não teria chance de explicar que tinha álibi, dava aula, etc...

 

Dois ou três dias depois da morte de Lamarca, chegou minha rota de fuga com detalhes:

Eu deveria tomar um ônibus até Campo Grande, Mato Grosso do Sul, 

lá alugar um táxi aéreo para evitar a estrada Campo Grande – Ponta Porã que era fortemente vigiada como rota de fuga. 

 

Em Ponta Porã, cidade separada de Pedro Juan Caballero no Paraguai por uma larga rua principal, pegaria um táxi já pré-definido do aeroporto até o  outro lado da fronteira que permanecia sem controle durante o dia.

De Pedro Juan, tomaria um avião de linha para Assunção. 

 

Em Assunção, atravessaria o rio Paraguai de balsa para a Argentina, e já na Argentina de ônibus pelas cidades: 

Formosa,

Resistência

Reconquista

Santa Fé

Rosário

Córdoba 

e Mendoza.

 

Por motivo de segurança, e também porque não existia linha direta, deveria fazer o percurso em vários trechos, trocando de ônibus nas principais cidades.

 

Em Mendoza, finalmente, tomaria o famoso trem Mendoza-Santiago para cruzar os Andes, isso se a ferrovia estivesse desimpedida da neve e do gelo do inverno que terminava.

 

A viagem toda, seria de muito risco, pois tinha além das fronteiras internacionais, as estaduais que também eram controladas pela polícia em  países com cruéis ditaduras militares aliadas da brasileira. Eram ditadores na época, os generais Alfredo Stroessner no Paraguai e Alejandro Lanusse na Argentina. Falava-se da existência de um acordo entre as três ditaduras mais a do Uruguai de controle e extradição sumária, sem passar pela justiça, de opositores em fuga por esses países.

 

Minha querida tia Zezé, irmã de minha mãe, também corajosa e consciente do que significava a ditadura e o perigo que eu corria, foi me buscar de taxi na casa da Ney. Dormi em sua casa e no dia seguinte, iniciei a viagem pela rodoviária Novo Rio.

 

Depois de passar tantos dias escondidos, cruzei a rodoviária assustado, olhando para os lados, com medo de ser reconhecido ou estar sendo seguido.

 

Sentado na janela, no meio do ônibus quase vazio, dei um adeus emocionado para a tia Zezé que foi até lá para garantir que eu houvesse embarcado. 

 

Na emoção, pensava que se eu conseguisse chegar ao meu destino, mesmo assim não saberia quando poderia voltar, para ver meus pais, minha filha, meus amigos.

 

Relaxei para tentar descansar e guardar forças para a longa viagem. Até chegar a Campo Grande fizemos várias paradas noturnas, eu só saí do ônibus em algumas delas, para não ser visto. Era um cuidado desnecessário, pois estava ainda muito longe da fronteira, mas o medo falava mais alto.

 

Algum tempo depois da parada de Bauru, cidade a oeste de São Paulo, no meio do nada, na estrada escura como breu, o motorista estaciona no acostamento e acende as luzes. Entram uns oito soldados do exército com fuzis. Pensei, “é agora, me denunciaram e estão me buscando”. Os soldados percorreram o corredor, pediram para abrir algumas sacolas enquanto outro grupo do lado de fora abria o bagageiro e revistava as malas. 

 

Pensei que estavam procurando armas, mas qual não foi minha surpresa, alívio e até uma gargalhada nervosa quando vi que procuravam, não perigosas armas subversivas, mas laranjas.

 

Isso mesmo, eles procuravam por laranjas e qualquer outro cítrico. Estávamos na fronteira dos estados de São Paulo e Mato Grosso e como havia uma peste atacando os laranjais paulistas, evitavam que frutas cruzassem a fronteira e fossem infectar as mato-grossenses. 

 

***

 

Chegamos de manhã em Campo Grande, pego um taxi na rodoviária e vou direto para o endereço da empresa de Taxi Aéreo que me haviam fornecido no plano de fuga.

 

Nessa época, no pantanal, havia fazendas que, na cheia, só se chegava de avião. Eram muito comuns, teco-tecos monomotores para 2 pilotos e 2 passageiros. Eu tinha um tio fazendeiro em Corumbá e dois primos que tinham seus próprios aviões e trabalhavam fazendo frete para as fazendas. 

 

Consegui voar no mesmo dia, e à tarde entrava num taxi em Ponta Porã e pedi para que me levasse ao hotel La Negra. Ok, partimos e uns poucos minutos depois o carro para numa rua de terra, como quase todas nessas cidades, em frente ao hotel. Por ai não se usavam taxímetros. Achei o preço muito alto para uma corrida tão curta, e o motorista me informou “é que até aqui no Paraguai fica mais caro”.

 

Eu estava no Paraguai! Nunca imaginara que fosse tão fácil, imaginava um posto de fronteira, com alfândega, onde meu nome poderia estar na lista de possíveis fugitivos, documentos, revistas de malas, mas nada disso. Me enchi de alegria. Certamente a fronteira mais perigosa estava vencida, depois seria a entrada na Argentina.

 

Passei três dias no La Negra, aguardando o dia do avião para Assunção. O hotel era meio suspeito, mas aproveitei para desfrutar dos produtos que não existiam no Brasil, como whisky escocês e cigarros americanos.

 

Uma noite saí para visitar o Cassino. Um galpão no lado paraguaio da fronteira há uns mil metros do La Negra. Quase só tinha brasileiro, e quase não entendia nada, pois falavam um espanhol paraguaio misturado com o guarani.

 

A volta foi assustadora, pois fora da avenida que marcava a fronteira muito pouca iluminação, e tinha medo de ser assaltado, principalmente porque andava com minha reserva de dólares, não tinha coragem de deixar no hotel. Por segurança, voltei caminhando bem sobre a linha de fronteira, a essa hora com soldados brasileiros e paraguaios a cada 20 metros nas suas respectivas fronteiras e pensei na contradição de me sentir protegido pelo exército que teoricamente me perseguia.

 

***

 

Cheguei bem cedo no aeroporto de Pedro Juan, embarcamos num DC-3 da LAP – Lineas Aereas Paraguayas. Quem não conhece, o DC-3, antigo avião já com algumas décadas, pousa com o nariz bem alto e o rabo bem baixo. Assim para entrar e procurar seu assento, você tem que subir uma verdadeira rampa até a porta da cabine. Em cima da porta, bem explícito um enorme retrato de Stroessner.

 

Muita turbulência até Assunção. Essa aeronave não é pressurizada e tem que voar baixo. 

 

Minhas instruções me dirigiam para um terminal de ferry boat onde pessoas e carros cruzavam o rio Paraguai. Outra vez, nenhum controle de fronteira. Do outro lado, um ônibus bem velhinho levava até Formosa, primeira cidade argentina.

 

De Formosa até Mendoza, foram uma sucessão de ônibus, rodoviárias, guichês, e falando o mínimo possível, pois além de não saber nada de castelhano, qualquer jovem brasileiro com destino ao Chile era suspeito.

 

Os ônibus iam melhorando de qualidade na medida que me acercava de Córdoba, mas a viagem era sempre uma eterna monotonia nas enormes retas das “llanuras” argentinas. Sem curvas, sem montanhas, sempre na mesma velocidade, o ronco do motor era sonolentamente contínuo.

 

Mendoza foi uma grata surpresa, linda, com os Andes nevados ao fundo, fui para a estação de trens comprar minha passagem para o que seria o último trecho da viagem, esse sem medo, pois estaria entrando numa democracia que respeita os direitos humanos. Passei dois dias em Mendoza aguardando retirarem a neve que havia fechado um dos vários túneis do caminho.




 

sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

Minha Versão - Capítulo 18 - A cela Maracanã. A quiabada e a loteria esportiva.

 

A cela Maracanã. A quiabada e a loteria esportiva.

 

Maracanã era a grande cela que eu tinha visto logo na entrada do corredor.Era um quadrado de uns 8x8 metros com beliches encostadas nas paredes.No meio, duas mesas de madeira juntas e umas oito cadeiras.

 Os senhores que ficavam ali, tinham adaptado bem o ambiente. Era limpo, o “banheiro” tinha sido cercado com cortinas improvisadas com cobertores, e ao lado, tinham montado uma pequena cozinha, com fogão, geladeira, pia e prateleiras.

 O mais velho e mais gordo, com uns sessenta anos ou mais, deveria ser o chefe. Um simpático e bonachão senhor com sotaque e feições italianas. Os demais também muito simpáticos, faziam piada o tempo todo. Era literalmente uma mafia, eu parecia ter entrado num filme.

 Mafia de verdade, era uma quadrilha que havia sido presa, todos ao mesmo tempo. Criaram uma corretora de bolsa de valores, meio fantasma, “aplicavam” o dinheiro dos clientes, e aproveitavam para lavar o de outros mais chegados. Se deram mal quando começaram a dar o golpe em conjunto com um montepio de militares aposentados. Naquela época, os crimes “contra a economia popular” também eram enquadrados na Lei de Segurança Nacional, criada pela ditadura na constituição de 67. E como havia vários estrangeiros, aguardavam uma sentença de extradição, ou algo assim.

 O capo me convidou para sentar, perguntou meu nome, se eu era preso “político” e o que eu queria comer. Claro que não dei nome nem posição política, mas tava na cara que era estudante e militante.

 -- Posso fazer um macarrãozinho ou um sanduíche de presunto com tomate e queijo. O que prefere?.

-- Sanduíche.

-- Estudante de que?

-- Engenharia.

-- É um absurdo, prenderem meninos, estudantes inocentes só porque discordam desses milicos de merda. Você apanhou? Quer uma aspirina.

 Imagina a minha surpresa com aquilo tudo! Sabia das torturas, dos mal tratos das masmorras da ditadura, e aquela cena Felliniana me parecia completamente surreal.   

 Como eles tinham muito dinheiro e nada mais para esconder ou confessar, subornavam todos os carcereiros para manter aquela “bella vita”  dentro da cadeia. Eram os carcereiros que faziam a faxina semanal na cela mediante um bom pagamento.

 Comi meu lanche como um rei, com direito a refrigerante e tudo. Depois fui saber que o capo, muito “buona gente” adorava cozinhar e ajudar os outros. Os pratos eram tão bons, que nos domingos até os carcereiros filavam o almoço da cela Maracanã.

 Depois de tantas emoções, escolhi um beliche em outra cela vazia e me larguei. Pela minha cabeça passavam cenas de como seria o dia seguinte. De que estariam me acusando? Desde Ibiúna que não participava de nada público.

 As circunstâncias dessa prisão eram totalmente diferentes, e muito mais perigosas que a primeira em Ibiúna. Lá éramos centenas, e eu aqui estava sozinho. Eles me perguntavam por armas e dinheiro e mencionaram um assalto.

 Nessa época, algumas organizações armadas de esquerda já estavam na guerrilha urbana e assaltavam, “expropriavam” bancos. Nessa guerra, quem era pego, primeiro passava por uma tortura brutal e “científica” para entregar companheiros, esquemas, organizações, e depois que já tinham dito tudo, já não serviam para nada, eram executados e enterrados nas covas comuns coletivas que só foram descobertas 20, 30 anos depois.

 Tinha eu pois, motivo de sobra para esperar ser torturado no dia seguinte. Acordei apavorado, tomei um café da manhã com pão fresquinho, manteiga, leite, na Maracanã. Os outros presos da cela me olhavam com um ar de preocupação e pena. Sabiam que eu logo seria chamado para o temido interrogatório.

 Até que a grade do corredor principal se abriu, um agente da polícia me chamou e me levou para uma sala fora da cadeia. Um escritório, com escrivaninha, cadeiras, uma mesa de reunião. À escrivaninha sentava-se o delegado encarregado do caso. Numa mesinha ao lado, um escrivão teclava numa velha Remington. Fazia calor, o escrivão suava, eu atribuí sua gotas de suor escorrendo pela testa ao esforço que fazia para teclar com tamanha força e brutalidade.

 O delegado fazia uma bateria de perguntas, interrompidas pelos outros agentes, dois ou três que estavam na mesa de reunião. Todo faziam perguntas, ameaças e acusações ao mesmo tempo. Eu, algemado, com as mãos para trás, quase não entendia o que falavam. Perguntavam.

 -- Te pegamos seu comunistinha filho da puta - Vai entregando logo os outros,  diz só os nomes - Onde vocês guardaram o dinheiro? Onde esconderam as armas?  De que organização vocês são?”

 Eu tentava responder rapidamente a cada pergunta, mas eram tantas e de todos os lados que comecei apenas a falar quem eu era. Um estudante e trabalhador, pai de família, embora com só 21 anos, estudava e trabalhava das 7 da manhã às 10, 11 da noite, e que tinha álibi e testemunhas para qualquer dia e hora que eles me acusassem, pois todos os dias estava o dia todo ocupado.

 Senti que eles embora ainda sem acreditar muito em mim, começaram a duvidar das próprias afirmações. Meu perfil não batia com o que eles esperavam.

 Depois de algumas horas, sem tortura física, o delegado disse:

 -- olha, já estamos pegando seus companheiros de assalto. Amanhã vamos fazer uma acareação, e se você estiver mentindo vai se dar mal.

 Me levaram de volta para a cela. Os senhores do Maracanã preocupados perguntavam se eu tinha apanhado, se estava bem. Eu contei como tinha sido, então o capo me disse:

 -- fica tranquilo, porque se não te torturaram é porque já sabem que você é inocente, já devem estar pegando os culpados.

 Dito e feito, no dia seguinte não me chamaram, perguntei pelo Claudinho, disseram que na mesma noite que chegamos tinha sido interrogado e liberado em seguida. Isso me acalmou ainda mais, porque se o soltaram é porque não tinham acusações consistentes contra nós.

 Mas de tarde, começaram a chegar novos presos. Um de cada vez, com intervalos de uma ou duas horas. Eram rapazes mais ou menos da minha idade, mas nenhum era estudante e nada a ver com política. Esses sim, entravam assustados, com caras inchadas, hematomas, cortes no rosto, dores nas costas. Um tinha sangue escorrendo do ouvido. Disseram que era o clássico  “telefone”, tortura que consiste em dar tapas de mão aberta nas duas orelhas ao mesmo tempo, que além de doer muito, costumava arrebentar os tímpanos e deixava o sujeito surdo temporariamente ou as vezes pelo resto da vida.

 Nenhum deles me reconhecera, eram uns oito e o pessoal do Maracanã cuidava deles como de filhos. Traziam sacos de gelo, compressas de arnica, anestésicos, limpavam feridas.

 Era quarta ou quinta-feira, e achei que iria ser libertado ainda antes do fim de semana, mas inexplicavelmente me deixaram de molho mais uns dias.

 Os “colegas de assalto” não foram mais molestados, tinham confessado tudo, entregue o dinheiro e as “armas”, dois ridículos e velhos revolveres 38.

Eram jovens moradores de uma favela do centro do Rio, e tinham um time de futebol. Um deles trabalhava num cartório em plena Avenida Presidente Vargas e teve a “brilhante” idéia de assaltar o cartório. Eram tão primários e inocentes, que a primeira coisa que fizeram com o dinheiro do assalto foi comprar um novo jogo de camisas para o time, apreendido na casa de um deles.

 Minha foto na ficha dos arquivos do DOPS, feita quando da prisão em Ibiúna, tinha sido confundida por uma velhinha, funcionária do cartório. A única semelhança, é que éramos morenos, cabelos pretos e cacheados e olhos azuis, coisa não muito comum no Rio de Janeiro.

 Tudo esclarecido, com a cadeia agora cheia de novos hóspedes, o capo decidiu fazer um belo almoço de domingo. Quando não me soltaram na sexta-feira, me disseram para relaxar que iria ficar no mínimo ate segunda, porque, como em todo serviço público, não tinha expediente no fim de semana.

 Os mafiosos mandaram dois carcereiros fazerem compras para a “quiabada de domingo”, famoso prato da cela Maracanã. Eu não gostava de quiabo, mas elogiaram tanto que resolvi provar, até para não fazer desfeita com o chefe que tinha me tratado e aos rapazes tão bem.

 Chegaram com uma grande compra de domingo, quiabo, arroz, tomate, frango, cebola, salsa, pimenta, etc... Trouxeram refrigerantes, mas se recusaram a trazer cerveja, solicitada por muitos. Pedi que me trouxessem um maço de Minister, e ganhei dois, os senhores não me deixaram pagar. Eu era “convidado”.

 Na sexta ou no sábado, um dos mafiosos me entregou um talão da Loteria Esportiva, muito na moda na época, e disse para eu fazer um jogo mínimo. Quase não acreditei, quando no sábado o carcereiro me entregou o comprovante do jogo me chamando de “senhor”. Os outros se riam dos carcereiros dizendo, esse aí é “Dotore”, Engenheiro, um dia vai dar emprego para vocês.

 Domingo nos reunimos todos na Maracanã para comer a melhor quiabada com frango que já comi na minha vida. Não resisti e pedi repetição. Ele fez um grande caldeirão onde cozinhou primeiro o tomate sem casca e sem sementes fazendo um autêntico molho italiano al sugo. Cozinhou o frango no molho, e depois acrescentou o quiabo cortado em rodelinhas. Numa outra grande panela, fez um arroz branco soltinho e com muito alho. Passei a adorar quiabo, e tentei várias vezes repetir a receita. Ficaram muito boas, mas nenhuma como do Capo Pietro.

 Nos regalamos com a comida maravilhosa, e só aí entendi o verdadeiro sentido do nome da cela. Depois do almoço, nos recostamos todos nos beliches, em cima e em baixo, como nas arquibancadas do Maracanã para ver numa TV gigante, um jogo do campeonato carioca e acompanhar os jogos que cada um havia marcado no seu talão da Loteria Esportiva

 Teria sido um ótimo domingo, a não ser pelo fato do Botafogo ter perdido o jogo principal.