sexta-feira, 30 de abril de 2021

Minha Versão - Capítulo 33 - Dividindo com Jorginho e Zezé a casinha de 3 Poniente, 2330

 Dividindo com Jorginho e Zezé a casinha de 3 Poniente, 2330

 

Voltamos de Valparaiso, e sem pensar em mais nada, sem combinar nada, com a maior naturalidade, fomos morar juntos no meu quartinho na casa de Jones. 

 

Sem conversar nada, como se fosse decorrência natural daqueles dias na mansarda da Hostal com vista para o Pacífico. Andávamos como a dois palmos acima do chão, duas crianças de 21 e 17 anos indo morar juntas sem pensar em nenhuma consequência.

 

O meu futuro sogro, José Etcheverry ou Pepin como o chamávamos, estava viajando pela Índia, estudando Yoga. Por isso, Marisol pôde contar a estória em casa de que ía viver com “umas amigas” da faculdade.

 

A casa de Jones nas “Torres de Macul” não era muito apropriada para nós, mas logo surgiu uma oportunidade melhor. 

 

Jorginho e Zezé, com quem eu havia passado o Natal na casa de Mario Pedrosa, moravam numa adorável casinha de três quartos na “Villa Santa Carolina” estavam procurando alguém para dividir o aluguel.

 

Villa fica nos fundos da “Viña Santa Carolina” e a casinha na rua 3 Poniente número 2330.

 

Fica um pouco depois da Avenida Maratón, perto do Estádio Nacional de tétricas lembranças, e de um conjunto de edifícios conhecidos como “Villa Olímpica”.

 

Entrei nesses detalhes geográficos, porque a proximidade com o Estádio Nacional, onde foram presos milhares de opositores, inclusive brasileiros, durante o golpe de 1973, é um dado importante para quando, num capítulo adiante, descrevo minha experiência com o golpe de Pinochet e os fuzilamentos noturnos no estádio.

 

Mas na época, a proximidade com a “Viña Santa Carolina” era um fator positivo. Tinham uma pequena loja onde podia-se comprar vinho no varejo, por preços excepcionais. Gostava muito de um Cabernet Sauvignon conhecido com “Santa Carolina Tres Estrellas” com três estrelinhas douradas no rótulo.

 

A casa, que mostro na foto, era um doce, uma maravilha romântica para nós.

Jorginho e Zezé não eram muito de curtir casa, “brincar de casinha” como os casais novos. Talvez por Zezé trabalhar muito, cobrindo a realidade chilena para a Folha de São Paulo, ou por já estarem há alguns anos juntos, com uma certa antipatia latente entre os dois.

 

Nós sim, curtimos muito nossa primeira casinha, colocando móveis, tapetes, artesanato, pôsteres do nosso gosto da época. Uma estética meio revolucionária, “handmade” com um forte colorido latino-americano.

Como por exemplo, pôsteres de Valparaiso e de Che Guevara.

 

Jorginho que se dizia “freelancer” do Pasquim, trabalhava pouco, e passava a maior parte do tempo em casa lendo. Se não me engano, nesse tempo militava na “Dissidência” como era chamada a ala resultante do grande racha do PCB, mas estava cada vez mais próximo de Trotsky e do nosso grupo, o “Ponto de Partida”.

 

O Ponto de Partida, no qual eu havia entrado pelas mãos de Jones, achava-se a semente do futuro, verdadeiro, autêntico, partido Bolchevista/Leninista e o próprio representante da IV Internacional no Brasil.

Embora coubéssemos todos numa Komby e estivéssemos todos exilados, portanto fora do Brasil. 

Mas pelas suas concepções, eu via Jorginho no novo partido como uma indiscutível vocação para um futuro burocrata do politburo.

 

Jorginho e Zezé, acho que ele carioca e ela nordestina, tinham uns 1,50 m de altura cada um. Eram pequenos, magros, ativos, e não sei se os dois, ou só Jorginho, verdadeiros leões na cama. 

 

Eu sabia disso porque ficamos com o quarto ao lado, separado apenas por uma parede de um material de gesso, na época chamado “Volcanita”.

A volcanita era um bom isolante térmico, mas péssimo acústico, e quase sempre, passávamos as noites acordados ouvindo urros, que se não fosse do Jorginho, eu facilmente atribuiria a um leão no cio.

 

Fora isso, nossa vida era muito, digamos, agradável, romântica, idílica. Andávamos em êxtase com essa nova experiência de pombinhos em novo e próprio pombal.

 

Melhor ficaria, logo depois, quando assumíamos a casa inteiramente para nós, como acontece no próximo capítulo...

 

 

 


 

sexta-feira, 23 de abril de 2021

Minha Versão - Capítulo 32 - Romance em Valparaiso

  

Romance em Valparaíso

 

Nada melhor para um início de namoro do que uma viagem de trem a Valparaiso.

 

É uma cidade fantástica, cheia de encantos, mistérios, romance, ladeiras, vielas, mar, casas coloridas penduradas nas montanhas, sempre com vistas para o majestoso Pacífico.

 

Um porto de longas histórias, grandes batalhas, navegações, piratas. 

Pelicanos, pinguins, focas, lobos e elefantes marinhos e muitas gaivotas. Todos eles tomando sol tranquilos na pequenas pedras e molhes do porto.

 

As ruas principais do porto com bares, hotéis e boates onde, com boa música, marinheiros do mundo todo, América, Ásia e Europa, embriagavam-se com as putas também do mundo todo. Chinesas, russas, argentinas, brasileiras e as falsas e verdadeiras francesas. 

 

Graças à fria corrente de Humbold vinda da Antártida, a costa chilena tem uma das águas mais piscosas do planeta. E aí podia-se comer todo tipo de frutos do mar. Uma enorme variedade de espécies desconhecidas para mim, que vinha do tíbio Atlântico onde eu conhecia apenas peixes, camarões, siris e mexilhões.

 

Choros, erizos, pulpos, machas, calamares, centollas, locos, piúres, jaivas e ostras. Ah, as ostras! Com finos Sauvignons Blancs ou Chardonnays chilenos que superavam Chablis franceses.

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Peixes que na época só se encontrava naquele lado da América, como o Congrio Rosa e Salmón Salvage, ainda não criados artificialmente.

 

Fomos eu e Marisol em início de namoro, Rafael o venezuelano namorando uma amiga dela, e mais um amigo. O plano era passar um dia, dormir os cinco amigos num albergue coletivo, bed&breakfast, e voltar no dia seguinte.

 

Passamos o dia caminhando pela cidade, pelo molhe, pelos morros, pelas praças e ruas centrais.

 

Em cada lugar uma novidade, uma descoberta para mim. Eu estava realmente encantado, com a cidade e com a companhia. 

 

Ela não era só a loirinha de belos olhos azuis do Pedagógico. Tinha uma inteligência, uma cultura e uma percepção de mundo surpreendentes, principalmente para uma menina de 17 anos, mistérios que tinham que ser desbravados, fiquei mais e mais envolvido.

 

Nas caminhadas de tarde pelas ladeiras da cidade, encontramos um bom albergue ao lado uma charmosa “Hostal”, que segundo a dona, tinha uma mansarda no terceiro andar, com vista para o mar, o que me deixou muito interessado, mas nada revelei aos amigos.

 

Jantamos num bar do porto, com música, vinho e gente muito animada. Tanta animação que chegamos a dançar, “Chic to Chic” o “Chic to chic” com Sinatra. E eu cantava: “Heaven, I’m in heaven”.

 

Meio constrangidos, não resolvíamos ir dormir, chegamos numa bela pracinha, onde pela primeira vez... conheci toda a educação e elegância britânica que os “Carabineros de Chile” tinham nessa época pré-Pinochet.

 

Num banco da praça, entre beijos e amassos, esquecemos que estávamos em local público, e só voltei à realidade quando um enorme e educado carabinero tocou levemente no meu ombro e disse:

 

-- Perdón caballero, no estarian mejor ustedes en un hotel?

 

Gelamos, mas pensei no que poderia acontecer se isso acontecesse no Brasil com nossa indecentemente violenta polícia. 

 

Respondi:

 

-- Gracias señor, és lo que vamos hacer.

 

E aproveitei a dica para propor: vamos deixar o albergue para eles e ficar na mansarda da Hostal?

 

Proposta aceita, fomos rindo muito da situação para o que seria o berço de um longo amor.


Em vez de uma noite, ficamos cinco.

 

Afinal estávamos de férias, e Santiago nessa época do ano é extremamente quente, seca e vazia, assim poderia esperar.

 

Cinco dias se descobrindo na mansarda. Os tênues raios de sol que entravam pela persiana de madeira revelavam o que não se via a olho nu, na luminosidade do sol. 

 

Era uma pele coberta de fina penugem loira, quase transparente que passei a chamar de “piel de durazno”.

 

Nesses cinco dias saíamos apenas à noite, para comer, dançar e tomar vinho.







 


sexta-feira, 16 de abril de 2021

Minha Versão - Capítulo 31 - Instalação no apartamento da Galvarino Gallardo e a separação definitiva.

  

Instalação no apartamento da Galvarino Gallardo e a separação definitiva.

 

O ano novo, passamos numa festinha em casa de Jones.

Ainda na primeira semana do ano, Egídio e família voltaram das férias e precisávamos desocupar a casa, não que ele pedisse, mas estávamos muito constrangidos.

 

Mais uma vez ele nos ajudou, conseguiu com um amigo, um ótimo apartamento para que alugássemos. 

 

Ficava num conjunto de edifícios muito bons na Calle Galvarino Gallardo no bairro de Providencia entre Pedro de Valdívia e Ricardo Lyon, uma ótima localização, e ainda tinha a vantagem de estar semi-mobiliado.  

 

Fizemos a mudança imediatamente, mas eu não quis caracterizar um reatamento e que moraria ali com Eliane.

 

Nas semanas que ficamos na casa de Elígio, passamos a limpo toda a relação, discutimos exaustivamente, e pela primeira vez conseguimos serenamente concluir pela inevitável separação.

 

Ficou combinado que não contaríamos a Elígio, para não criar uma frustação para quem estava nos ajudando com tudo. Eu pagaria o aluguel e uma pensão até que ela conseguisse um trabalho. 

 

O apartamento, o bairro, a vizinhança eram ideais para o crescimento da Carla que tinha acabado de fazer dois aninhos.  A saudade da nossa gordinha era enorme, e era compartilhada intensamente pelos dois, e foi o motivo para nos mantermos amigos, solidários e companheiros por todos os anos seguintes.

 

Como eu poderia pagar o aluguel e a pensão? 

Os dólares que trouxera transformaram-se numa enorme soma de dinheiro em Escudos pois a defasagem cambial era enorme, além disso, meu querido, solidário e compreensivo pai enviaria via Elígio, 100 dólares mensais, praticamente um salário de classe média nessa época de crise econômica.

 

Com a situação política devida à vitória da Unidad Popular e a eleição de Salvador Allende, a burguesia apavorada comprava dólares a qualquer preço para mandar para fora do país, e com medo de uma revolução à cubana, preparavam-se para uma fuga para Miami, como os gusanos de Cuba.

 

Mas a minha participação no pagamento do aluguel do apartamento que inicialmente era 100%, foi diminuindo rapidamente.

 

Acontece que os exilados brasileiros encontravam dificuldades para alugar   residências. Tanto pela falta mesmo de habitação de classe média no mercado, como pela pouca confiança que os proprietários, quase todos de direita, tinham nos exilados, que também não conseguiam empregos estáveis.

 

Assim, quando alguém conseguia um imóvel, logo surgiam amigos para dividir o espaço e o aluguel.

 

O apartamento, bem espaçoso, tinha três dormitórios, e Eliane logo teve a proposta de dois casais para os outros dois quartos.

Além disso, logo começou a namorar um brasileiro, estudante de economia de Santos, que ficou muito meu amigo, mas de quem, infelizmente não consigo mais lembrar o nome. E ele que já estava há mais tempo no Chile, tinha um emprego bem remunerado. 

 

Eles resolveram morar juntos, e assumiram a terça parte do aluguel que caberia a mim.

Logo no início das férias de verão de 1972 tudo tinha dado certo, como num happy end de comédia romântica americana.

 

Tudo estava se encaminhando bem, e eu resolvi voltar para casa do Jones, onde ainda tinha meu quartinho.

 

Eram tantas descobertas, na cultura, no país, nas pessoas, nas leituras, que estava maravilhado.

Resolvi curtir a liberdade, a vagabundagem e as novidades de um país e uma cultura novos pelo qual já tinha me apaixonado.

 

 

Nesse breve período de responsabilidades e coisas práticas, fiquei afastado dos colegas da faculdade e dos amigos de Macul.

Logo que pude fui procurá-los.

 

Jones já tinha superado a fase depressiva, e conversávamos muito. 

Eu adorava nossos papos, conheci os bons vinhos, a distinguir as uvas, as viñas, e os vales de cultivo, de Colchagua, do Maipo, do Maule, Central, etc.

Bons jantares na casa de Jones onde eu bebia dos bons vinhos e da sua inesgotável cultura e erudição.

 

Consegui contactar a galera do Pedagógico, alguns casais tinham se formado. Rafael Rengifo namorava uma amiga de secundário da Marisol, Pablito tinha conseguido uma namoradinha, mas felizmente, meu interesse inicial daquela aula de arqueologia ainda estava sozinha. 

 

Marisol tinha grande interesse pelo Brasil, pela cultura brasileira e pelos brasileiros, e foi por aí que me insinuei e consegui ser notado. 

 

Começamos a namorar, namorinho comportado, cinema, beijinhos, mas a coisa só pega fogo mesmo, no próximo capítulo.  

Numa viagem ao porto e aos mistérios das ladeiras de Valparaiso ...

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

sexta-feira, 9 de abril de 2021

Minha Versão - Capítulo 30 - Natal na casa de Mario Pedrosa - Geraldo Vandré em busca de platéia - casais trocados.

 Natal na casa de Mario Pedrosa - Geraldo Vandré em busca de platéia - casais trocados.

E o Natal chegou. Nós todos, quase todos marxistas, materialistas, dialéticos, no exílio, chorávamos e nos embriagávamos no Natal, com a saudade da família e dos vários significados que a data tinha para cada um.

 

Mario Pedrosa na época com 71 anos,  resolveu fazer um “Natal dos exilados”.

Convidou sua secretária que era esposa de Jones, que me convidou, e vários outros amigos que também convidaram outros amigos. 

O número de convidados crescia em proporção geométrica, chegando praticamente a quase toda a colônia brasileira no exílio em Santiago.

 

Eu e Eliane, morando temporariamente na casa de Elígio fomos curiosos e alegres à festa, afinal íamos conhecer muitos e importantes brasileiros no exílio.

Era uma sexta-feira, e isso contribuiu para a presença maciça.

 

Um Natal estranho, sem Papai Noel, sem presentes e sem crianças. Só caras barbudos discutindo política e a apropriação comercial que a burguesia havia feito da data,  principalmente entre tantos ateus, até que, depois de bêbados, choravam lembrando dos seus Natais, suas infâncias e suas famílias.

 

Estavam na festa, Jones e sua mulher, Jorginho e Zezé, ela correspondente da Folha de São Paulo, e ele que se dizia colaborador do Pasquim, embora só tivesse publicado uma pequena coluna há algum tempo. 

 

Geraldo Vandré trouxera seu violão, pensando, como vim a saber depois, em fazer uma breve apresentação. 

 

Léo e sua esposa Helena, amigos de Jones, com já alguns anos de casados, chegam e somos apresentados, ele jornalista e ela psicóloga freudiana.

 

Roberto e sua esposa Rosane, arquitetos que trabalhavam com Jones na CORVI também nos são apresentados. 

 

Todos carinhosamente recebidos por Mario Pedrosa e Mary, ficamos no living, uma ampla sala decorada ao estilo inglês. Nos apertamos os cinco casais nos confortáveis sofás, gozando do privilégio da companhia dos anfitriões. 

 

Cada vez chegava mais gente, e felizmente como chegamos cedo, conseguimos manter nossos lugares privilegiados.

 

Excelente vinho, conversa melhor ainda, mas eu não conseguia me concentrar nos assuntos. Observava todos que chegavam, eram cumprimentados educadamente por Mario e Mary e seguiam para outros cômodos da casa.

 

Um belo Peru à Califórnia foi servido, um jantar maravilhoso embora um tanto tumultuado. Todos se servindo como num buffet e comendo com o prato na mão. Era muita gente, e todos famintos como retirantes de João Cabral de Melo Neto. 

 

Depois do jantar, voltamos a nossos lugares no sofá, e a conversa continuou, agora mais solta mais relaxada pelo vinho. A atividade nos fundos era tão intensa e tão barulhenta que resolvi conhecer. 

Pedi a Eliane que guardasse nossos lugares no living e parti com um Undurraga Carmenere na mão.

 

Passei por outra sala, também lotada de gente bebendo e conversando. Idem na sala de jantar com mais gente ainda e também na cozinha, que cruzei pedindo passagem aos grupinhos que conversavam, para chegar ao pátio traseiro da casa de onde vinha uma voz e violão.

 

Depois de um pequeno pátio, havia uma casinha como se fosse dependência de empregada, mas muito bonita, do mesmo estilo da casa principal.

 

Lá dentro, num único ambiente, que deveria fazer o papel de quarto, reconheci a voz e violão. Era Geraldo Vandré, que também estava exilado,  cantando seus sucessos dos festivais da década anterior. 

 

Ele já deveria estar na décima música, e o pessoal fazia menção de sair, mas ele insistia: “Escuta só mais essa”.

 

Depois fui saber, que Vandré, no meio de uma depressão do exílio, buscava público em todas as festas que ia, mas ninguém tinha mais saco de escutar “Caminhando e Cantando” e fugia de suas apresentações gratuitas e repetitivas. 

 

Me deu pena, mas nunca mais curti essa música tanto como eu curti no seu lançamento no Terceiro Festival Internacional da Canção.

 

Voltei para o sofá do living, pensando nas consequências da nossa diáspora, mas senti um clima meio pesado no ambiente.

 

O papo era sobre fidelidade, casais, novas experiências com pessoas diferentes, o que isso poderia ajudar ou atrapalhar a vida conjugal, etc...

 

Opa! Pensei, será que estão cantando a Eliane?

Mas não, a conversa seguia muito natural, ou tentando ser. 

Notei que Helena, a psicóloga freudiana, mulher de Leo, olhava candidamente para Roberto, marido de Rosane. 

Olho comprido, sorriso recatado em boca húmida de lábios exibidos e propositalmente carnudos. 

 

Pensei comigo, isso vai dar merda...

Mas não deu.

Acho que só eu saquei o clima que surgiu entre os dois, sim entre os dois, porque Roberto correspondia aos olhares de Helena com um “sorriso de frete” como diria Jorge Amado. Super interessados. 

 

A conversa corria solta, e os dois já quase não prestavam atenção aos assuntos, quase se comiam com os olhos. Pairou um tesão avassalador no ar. 

 

Um momento, depois de uma gargalhada coletiva sobre uma série de piadas de Charles De Gaulle, que depois posso contar, Helena se levanta, cruza o living em passos leves e decididos, em seu vestido longo, acerca-se de Roberto, sem falar nada nem com ninguém, toma sua mão e o conduz para a escada que dava acesso ao piso superior onde ficavam os quartos.

 

Imagina o clima! 

Leo, o marido, permaneceu com um sorriso amarelo de “não está acontecendo nada, isso tudo é natural”. Já Rosane, afundou no sofá e olhava para o teto como que segurando um choro. 

 

Nós todos embaraçadíssimos, sem saber o que fazer nem falar. Nos olhávamos  buscando reações nos rostos dos outros, mas era só cara de “que está acontecendo?”.

 

Nossa dúvida foi logo esclarecida. Do piso superior vinham gemidos cada vez mais fortes, foram se transformando em gritos, e finalmente, Helena gozou entre gemidos, gritos e gargalhadas. Ela era do tipo que goza rindo.

 

Léo não aguentou, levantou-se, pegou Rosane pela mão e disse vamos embora. 

 

E aí, perguntamos, que dizemos para Helena e Roberto?

 

Bem, Léo e Helena, bem de vida, moravam numa casa e tinham uma Citroneta. Já Roberto e Rosane moravam num apartamento e não tinham carro.

 

Quando perguntamos, Léo deu a seguinte solução:

 

— Digam para eles que vamos morar no apartamento de Rosane, mas levamos a Citroneta em compensação. 

 

E foram embora.

 

Ninguém comentou nada. Servimos mais um vinho, 

 

— Pois é, né?

— Que coisa né?

— Legal né?

 

Sem opiniões ou observações comprometedoras, maior saia justa.

Até que Helena e Roberto descem do quarto, cabelos despenteados, roupas amassadas, caras de satisfação.

 

— E aí, cadê os dois?

 

Jones, o amigo comum a todos, e muito sério, contou o que tinham dito.

Riram achando bom o negócio, apenas Roberto perguntou:

 

— e os filhos?

 

Jones decidiu Salomonicamente:

 

— Ficam com as mães.

 

Como eu disse, “não deu merda” os dois casais, ou porque já queriam ou porque descobriram algo de novo, viveram felizes em suas novas casas com novos filhos e novos carros.

 

Voltei a pé para a casa de Elígio que ficava perto, curtindo o sol que aparecia no pico dos Andes, atrás da cordilheira nevada, e pensando no quanto a vida é surpreendente, principalmente no exílio.




 


sexta-feira, 2 de abril de 2021

Minha Versão - Capítulo 29 - Elígio - apoio para chegada da Eliane.

 Elígio - apoio para chegada da Eliane, uma semana na casa de Enrique Foster.

 

Capítulo Anterior:

Meu pai tinha feito contato com um antigo colega de IBGE que estava trabalhando na CEPAL, o Elígio. Ele deu seu endereço e prontificou-se a me ajudar no que fosse possível. Eliane trouxe o endereço para que o visitássemos...

 

                                                                ***

 

Elígio tinha um status de diplomata, pois trabalhava num órgão da ONU e com um alto cargo.

 

Morava numa belíssima casa da rua Enrique Foster em Las Condes, bairro chique de Santiago. A casa tinha um estilo e planta baixa das casas tradicionais inglesas. No térreo, um hall de entrada, uma gostosa sala de estar com poltronas e sofás fofos de couro, e lareira tradicional. Mais ao fundo uma ampla sala de jantar com uma enorme porta-janela envidraçada dando para um lindo e bucólico jardim. Um filme londrino. Tipo “Muito além do jardim”.

 

No hall de entrada uma escada de madeira escura levava para os quartos, banheiros e mezanino do piso superior. 

 

Lembro bem de todos os detalhes, por ter ficado muito impressionado com tudo aquilo, uma decoração tradicional, de extremo bom gosto com dimensões que não estava habituado, ou nunca tinha visto no Brasil.

 

Dois dias depois da chegada da Eliane, liguei para o Elígio, que foi muito simpático e imediatamente nos convidou para jantar em sua casa na noite seguinte.

 

Elígio, um pernambucano que tinha chegado para estudar no Rio de Janeiro sem muitos recursos, foi colega e confidente do meu pai quando entraram no IBGE. Sozinho na cidade grande, tinha praticamente sido adotado pela minha família e comparecia inclusive às festas de Natal e aniversários.

Foi muito constrangido, com minhas roupas e aparência geral de semi-hippie que chegamos para o jantar.

 

Ele e sua esposa nos receberam como da família, sentamos para um drink inicial no living. Scotch 18 anos, um vinho branco, etc... 

 

Prosseguimos com um lauto jantar regado a Cabernet Sauvignon, um verdadeiro banquete para nós, acostumados com o feijão com arroz de todo dia.

 

A conversa também começou muito agradável, Elígio contou suas peripécias de juventude com meu pai, os porres que tomaram juntos, viagens comuns, etc.

 

Eu sentia que ele nos adotaria também como foi adotado por minha família 20 anos antes em Niterói, mas contava minha história apenas superficialmente, como se tudo, inclusive a necessidade do exílio,  houvesse sido um mal entendido, sem expressar minhas posições políticas, em relação à ditadura brasileira e ao processo chileno.

 

Depois do jantar, durante o vinho do porto, ele abriu o jogo:

— Embora seu pai fosse PTB, janguista e brizolista, eu era UDN, e defendo  a “Revolução de 64”, e os militares que estão livrando o Brasil do perigo comunista.

 

Engoli em seco. Afinal de contas, minha vida, da Eliane e futuramente da Carla dependiam de um final “agradável” para esse jantar. Inclusive, meu pai já havia combinado de enviar-me 100 dólares mensais através de Elígio, que como funcionário internacional tinha o privilégio de poder, no Chile da Unidad Popular, receber dólares do exterior sem problemas.

 

Entendi a jogada, ele, um homem muito inteligente, já tinha percebido tudo e quis logo mostrar que me ajudava pela amizade com meu pai, mas não pela minha condição de exilado. Amigos amigos, política à parte.

 

 Também nada falei sobre a situação delicada do meu casamento, pois a ajuda era para um “jovem casal” com problemas que queria trazer uma filha para criar junto.

Nesse tempo, e hoje me arrependo, tinha uma concepção totalmente negativa da família tradicional, a qual contestávamos social e psicologicamente.

 

Elígio explicou que, como era fim de ano, iriam viajar de férias, mas deixariam que ficássemos na casa nas duas próximas semanas. Disse ainda que teria visto com um amigo, um apartamento para que alugássemos, e que ele serviria de fiador.

 

Voltamos para casa de Jones muito aliviados, pois mais uma vez, graças ao amor e dedicação de meus pais, estaríamos bem acomodados e com uma sobrevivência assegurada.

 

Passamos duas semanas naquela casa que para nós era uma mansão. Foram dias de curtição e muita briga, muita DR. Discutíamos a Relação revendo toda nossa história, e a fuga do Brasil com o mal entendido da saída.

 

Essa revisão da relação foi uma verdadeira terapia, e ficamos, pelo menos eu fiquei, convencidos de que a separação seria inevitável. 

 

Resolvemos esperar até o Natal que estava próximo, e a mudança para o novo apartamento para ficarmos seguros da decisão.