sexta-feira, 28 de maio de 2021

Minha Versão - Capítulo 37 - A rotina - Rosy y Rodrigo - Santiago – Mercado Mapocho – Mariscos - Vinhos

A rotina - Rosy y Rodrigo - Santiago – Mercado  Mapocho – Mariscos -  Vinhos

 

Entramos numa maravilhosa rotina.

 

Digo isso, maravilhosa, porque além de ser muito prazeirosa, eu depois de tantas aventuras, viagens, tensões, precisava de um pouco de calma, e só uma rotina diária com atividades previsíveis poderia me acalmar do stress vivido.

 

Todo dia, de moto para chegar às 7:00 na obra. Trabalho o dia inteiro de segunda a sexta, com saídas em duas tardes da semana para aulas de antropologia no Pedagógico.

 

A novidade, para mim, era o inverno. Com temperaturas abaixo de zero, neve, chuva e muito frio. 

 

Chegava na obra “congelado”, molhado da chuva ou da neve derretida no caminho. Ligávamos o aquecedor, fazíamos um chá bem quente e esperávamos um tempo para nos aquecer um pouco e sair do escritório para a obra. 

 

Eu tinha que subir todo dia nas formas das lajes para verificar dimensões, prumos, níveis e contra-flechas. Eram 5 lajes por bloco e 54 blocos em construção simultânea. Lá em cima, sem nenhum abrigo e com o vento gelado vindo dos Andes era um “frio de rachar”. A caneca de vinho na hora do almoço nos aquecia um pouco e nos dava coragem para enfrentar a tarde, quando esfriava mais ainda depois que o sol se punha, no inverno, lá pelas 16:00. Mas com 21/22 anos a gente aguenta tudo.

 

Maria seguia com o curso integral e vendendo pôsteres para fazer um dinheirinho. Saia com uma sacola cheia de pôsteres enrolados e visitava empresas, órgãos públicos, departamentos da universidade, etc. Ela continuava com o curso no Pedagógico com toda a carga horária. Tudo estava calmo como precisávamos

 

À noite, um cinema, um jantarzinho em casa, ou um “lomito mayo” numa “fuente de soda” e uma bela garrafa de vinho “nacional”.

 

Rosy Y Rodrigo vinham umas três ou quatro vezes por semana, e curtíamos muito. Rosy, irmã da Marisol e Rodrigo seu marido e irmão de Pepe o filósofo do pedagógico, mas Rodrigo era tanto ou mais filósofo que o irmão.

 

Sempre fazíamos um belo jantar, Rodrigo era um  “chef”, e depois cantávamos. 

 

Eles são músicos, e cultivam o folclore latino-americano. Cantávamos músicas andinas, bolivianas, chilenas e peruanas, guarânias paraguaias, boleros caribenhos, tangos, chacareiras  e milongas argentinos, sambas e bossa nova brasileiros,  salsas, rumbas e cúmbias cubanas, além, é claro das cuecas chilenas que eu adoro, principalmente as “cuecas choras”.

 

Rosy tocava o violão, Rodrigo variava entre o charango, as quenas e o bombo, Maria cantava ou acompanhava no violão, e eu tentava manter o ritmo com um bongô. 

 

Depois do jantar e da cantoria, quase sempre Rodrigo me olhava com um sorriso maroto e mexia os dedos da mão direita como quem move uma pedra de xadrez. Era o nosso código. Estava me convidando para uma partida que eu invariavelmente perdia, mas aprendia mais um pouco.

 

Jogávamos numa mesinha de pinho, que eu havia construído como os demais móveis da casa. Pintei de branco e em cima, no tampo, um tabuleiro vermelho e branco. 

 

Muitas partidas eu perdi, para depois atribuir a derrota ao vinho do jantar ou ao que prosseguia durante o jogo de xadrez.

 

***

 

Rodrigo tinha duas  Kombis , onde ele e Rosy heroicamente transportavam crianças para a escola todas as manhãs. 

 

Saíamos de Kombi para dar voltas por Santiago. 

Aqui um breve depoimento.

Não sei se hoje, mas na época, 1971 a 1973, Santiago de Chile era uma cidade fantástica, não só pela sua cultura uma mescla do colonizador espanhol com a nação Mapuche, como pela diversidade, a democracia que pairava no ar e enraizada na convicção do povo. Os chilenos, eram receptivos a todos latino-americanos que aí buscavam refúgio, liberdade e uma nova vida. Esse sentimento é tão concreto, que está expresso no próprio hino chileno que diz:

 

Dulce Patria, recibe los votos

Con que Chile en tus aras juró

Que o la tumba serás de los libres

O el asilo contra la opresión

Que o la tumba serás de los libres

O el asilo contra la opresión

 

Curtimos muito Santiago, percorrendo sua belas avenidas, de trânsito caótico, visitando os diversos bairros, desde os mais pobres como San Bernardo, no sul, até os mais ricos nas encostas dos Andes Nevados, Las Condes, Vitacura e Lo Barnechea. 

 

Mas o que mais me fascinava eram as visitas ao Mercado Central, ou mais conhecido como Mercado Mapocho. Com a impressionante variedade de frutos do mar de toda a costa chilena, desde Punta Arenas e Chiloé, até Arica no norte. 

 

E todas essas maravilhas podiam ser degustadas nos diversos restaurantes locais. Aí comíamos, comprávamos o rancho da semana e curtíamos a cultura, digamos “raiz” do “huasos” chilenos.

 

Porém, toda essa diversidade, essa riqueza cultural que eu experimentava, seria superada pela viagem seguinte ao norte do Chile pelo deserto de Atacama, o mais seco do mundo, até Arica na fronteira com o Peru, passando por Antofagasta e Iquique.

 

Está no próximo capítulo...






sexta-feira, 21 de maio de 2021

Minha Versão - Capítulo 36 - A Obra de Santa Rosa Paradero 23. As greves. A administração socialista.

 A Obra de Santa Rosa Paradero 23. As greves. A administração socialista. Mario Riquelme, George o suiço. El cacho. O refeitório. O camionazo.

 

Quem segue por Santa Rosa, na direção da via expressa Américo Vespucio, pode ver no paradero 23 à esquerda uma sequência de sobradinhos pareados e à direita um conjunto de edifícios de quatro andares. 

 

Foram todos construídos em 1972 num programa da CORVI – Corporación de la Vivienda.

 

A CORVI foi criada no governo da Unidad Popular com o objetivo de proporcionar habitação digna, de qualidade, para a população de baixa renda, especialmente os habitantes das poblaciones callampas isto é, favelas.

 

Através do Jones, conheci o pessoal da CORVI e entrei na corporação para trabalhar de fiscal de obra. Foi minha primeira experiência de obra, e me mostrou que realmente era essa minha vocação e o trabalho que me dava mais prazer.

 

O projeto era muito ousado e revolucionário, técnica e socialmente.

 

Tecnicamente, era um projeto soviético de edifícios populares que, com armações pré-montadas, formas removíveis e reaproveitáveis, mais um sistema de guindastes móveis, conseguia construir um bloco de 4 andares e 16 apartamentos de 2 e 3 quartos em 3 ou 4 meses. Isso que as lajes e paredes principais eram construídas inteiramente de concreto armado à prova dos terremotos tão comuns nessa parte do Chile.

 

Socialmente, o projeto utilizava os próprios moradores da favela como mão de obra. A idéia era que construíssem suas próprias moradias, implicando numa grande motivação para o trabalho. Pessoas que estavam na sua maioria desempregadas ou sub-empregadas, eram formados como pedreiros, carpinteiros, encanadores, enferradores, pintores, etc.. 

 

Adquiriam assim, além de sua moradia, uma profissão para o futuro. 

 

Eram todos remunerados dignamente tanto na fase de treinamento como durante a obra. Dos seus salários já era descontada uma parcela a título de prestação para pagamento do seu futuro imóvel.

 

Tudo se encaixava perfeitamente, mas ninguém contava com as particularidades políticas do Chile naquela época...

 

***

 

Cheguei na obra já no outono, com o friozinho do inverno começando a aparecer. 

 

Cheguei ressabiado, tudo era novo. A obra no meio de uma favela, o pessoal muito mal encarado, as instalações super precárias. Fui recebido pelo chefe da obra, um arquiteto socialista que me deu pouca conversa e indicou que iria trabalhar com Riquelme e George, e que eles me ensinariam o trabalho. 

 

Ok, pensei, e saí procurando pelos dois, mas George não tinha ido trabalhar nesse dia e Riquelme estava em cima de uma laje, de capacete e com uma trena na mão, pediu que eu voltasse no dia seguinte às 7 da manhã.

 

Apesar das más impressões, lembro que voltei feliz para casa, agora com a perspectiva de um trabalho concreto, de viver a realidade chilena longe da colônia brasileira e de sua eterna masturbação teórica sobre a revolução, sem engajar-se numa frente de luta, no trabalho.

 

Era longe mesmo, gastaria por dia pelo menos duas horas, ida e volta, pegando dois ônibus (micro-buses) lotados. Mas ônibus lotado nessa época em Santiago era muito mais do que nosso conceito de ônibus lotado. Viajavam até pendurados nas portas o que o motorista não podia evitar.

 

Por isso, resolvi torrar parte de minhas economias e comprar uma motinha velha. Uma Ducati 175 italiana, que devia ter no mínimo uns dez anos de idade. Passei mais de um ano indo todos os dias de moto para o trabalho, e minha maior lembrança era no inverno, quando nevava, o asfalto com uma fina camada de gelo me obrigava a dirigir a 20km por hora para não cair. O pior é que não tinha roupas apropriadas para esse frio abaixo de zero, e minhas luvas e o cachecol que enrolava no rosto, de lã tricotada, deixavam passar o vento gelado que me fazia chegar na obra com os dedos e nariz vermelhos e duros de frio. Lembro que revestimos as paredes de tábuas do barraco que era o nosso “escritório”, com placas de isopor. Conseguimos um aquecedor elétrico que não dava conta de amenizar o frio no trabalho.

 

Dia seguinte, pontualmente às 7:00 estava eu na porta da obra. Custei um pouco para que me deixassem entrar. Ainda não tinha crachá, e a segurança era estrita, feita pelos próprios operários. Temiam ataques terroristas da ala mais facista da direita que já começava a se organizar para o golpe.

 

Riquelme veio me buscar na porta, fomos para o “escritório” dos “fiscais da obra”. Os fiscais éramos nós três, e o escritório era um barraco de tábuas de pinho com teto de zinco com 3x2 metros.

 

Ali me indicou uma mesa-prancheta com uma banqueta, meu posto de trabalho. Sem problema, porque a maior parte do tempo passaríamos na obra.

 

Riquelme era magro, alto, fartos cabelos pretos e um bigodinho fino já ultrapassado na época. Usava invariavelmente um terno escuro, mesmo no frio mais intenso, quando colocava uma blusa de lã por baixo do paletó e um cachecol de tricô.

 

Até há pouco, tinha sido professor primário. Agora, recém-formado como Técnico de Construção também estava começando no ramo. Deveria estar em torno dos 40 anos, casado, três filhos, morava bem mais longe que eu, em Puente Alto se não me engano.

 

Tinha no incisivo superior, um pivô formado por uma base de ouro coberto com uma fina lâmina de porcelana. Só que já há algum tempo, a porcelana havia caído, então Riquelme recortava com todo cuidado um pedacinho de papel branco e colava no lugar da porcelana. É claro que tinha que repetir a operação restaurando o dente a cada refeição.

 

Era uma pessoa muito simpática, alto astral, feliz com a família e seus progressos profissionais recentes. Todas as manhãs esquentávamos uma água para um chá com um “rabo quente” (resistência elétrica que se coloca dentro d’água).  Era nessa hora que Riquelme nos contava com humor sua noite anterior. 

 

Costumava jogar cartas e tomar vinho de noite com amigos e depois descrevia as maravilhas que sua mulher preparava para o jantar. Entrava inclusive nos detalhes do que acontecia depois no quarto, entre os lençóis, depois do lauto jantar.

 

Sempre chegava feliz no trabalho, com frio, chuva, neve ou sol abrasador. Um dia chegou especialmente alegre pela manhã e lhe perguntamos a que se devia tanta alegria.

 

— És que me eché una mañanera hoy, weón!

 

Explicando melhor, a sua senhora havia lhe prestado um favor especial pela manhã, isto é, “una mañanera

 

Era militante do Partido Radical, que na época integrava a Unidade Popular, e que o indicou para o posto.

 

O leque político na obra era bem democrático, mas como em todo o Chile na época, todos tinham um partido, que eram mais que uma posição ideológica, também evocavam paixões como nos times de futebol.

 

A maioria era socialista, isto é, militavam ou simpatizavam com o Partido Socialista de Chile, o de Salvador Allende. Depois vinham os “nachos” ou comunistas, a “Izquierda Cristiana”, dissidência da “Democracia Cristiana” , os miristas do “Movimiento de Izquierda Revolucionária”, e o “Partido Radical” de centro. Só não se admitiam “momios”, ou múmias como chamávamos os direitistas opositores ferrenhos da “Unidad Popular”.

 

Com toda essa diversidade partidária e com a necessária democracia interna, todas as decisões da obra passavam por uma assembléia, onde os partidos disputavam espaço, faziam conchavos, acordos, etc.

 

Praticamente todo dia tinha assembleia, seja para definir a segurança da obra contra os “momios”  que cada vez se tornavam mais violentos, seja para definir a comida, os turnos de trabalho, atrasos, pagamentos, etc...

 

O refeitório era um galpão todo construído de tábuas de pinho, desde as paredes, até as mesas e bancos. A comida era quase sempre um prato de metal com feijão, lentilha, grão de bico, etc... com um ovo cozido, duas ou três pimentas “dedo de moça” no Chile conhecidas por “aji”, e uma caneca de vinho tinto.

 

O pessoal comia o feijão com colher, tomava o vinho e comia o aji à dentadas.

Lembro que numa assembleia, um dos itens de pauta era a qualidade do vinho servido.

 

Como tinha assembleia quase todo dia, é claro que não se conseguia fazer cada bloco em 4 meses como previsto no projeto russo, durava bem mais.

A sorte era que o arquiteto argentino socialista, diretor, na verdade o chefão da CORVI, tinha uma liderança especial sobre os operários, conseguindo negociar e impedir a maioria das greves que também eram frequentes.

 

George era um arquiteto suíço que teria ido para o Chile participar da revolução. Na época, muitos jovens europeus idealistas de esquerda, acompanhavam os movimentos na América Latina e vinham participar de “La Révolution”, inspirados no Chê.

 

George me convidou uma noite para jantar em sua casa, dois casais. Foi aí que comi e aprendi a fazer o melhor fondue que já comi. Um autêntico fondue suíço. Foi uma noite muito agradável, ele e a esposa muito engraçados com boas piadas em forte sotaque francês. 

 

O fondue é simples. Derrete-se um gruyére (no Chile o “mantecoso”) no réchaud com um pouco de manteiga e noz moscada ralada e vinho branco. Tempera-se com um pouco de parmezão ralado e come-se mergulhando pedaços de pão. 

 

O Gran Final: quando acabar o queijo e restar uma casquinha no fundo da panela, coloca-se um pouco mais de manteiga quebra-se três ou quatro ovos e se mistura com um pouco mais de sal e pimenta do reino, raspando o fundo. Imagina os ovos mexidos com aquela casquinha de queijo frito que fica no fundo da panela. Uma “marravilha” como dizia George.

 

George, baixinho, com longas barbas e cabelo ruivos era muito engraçado, uma mistura de Asterix com a cara redonda do Obelix, e com seu sotaque e na sua quase incapacidade de entender a cultura, os hábitos e a informalidade dos latino-americanos.

 

 Embora falasse um espanhol correto, não conseguia entender as gírias dos operários, e vinha sempre me perguntar o significado do que ouvia e não entendia. Uma vez me pegou. Perguntou o que seria “cacho” que os operários falavam sempre. “Un cacho a la derecha”, “dos cachos abajo”. Eu também não sabia, e tive que pedir à Riquelme que traduzisse. “Cacho” era simplesmente centímetro.

 

As greves eram constantes e por qualquer motivo. Contra e até a favor da administração e do governo. 

 

Era um povo altamente politizado, a ponto de operários favelados saberem detalhes sobre a ditadura brasileira e me perguntarem sobre nossa situação política.

 

Minha impressão inicial de ter sido recebido com certa frieza e desconfiança, foi se desfazendo aos poucos, até que meses depois, eu era conhecido em toda a obra como “el brasilero guerrillero” e tratado com muito carinho, curiosidade e solidariedade. Tinham conhecimento detalhado do processo político por que passava a América Latina e me perguntavam sempre pelas notícias do Brasil. 

 

Eram também extremamente combativos.

Uma das greves “a favor” do governo, foi uma que ficou na história conhecida como “la Huelga de la volcanita”,

 

O Chile passava por uma forte reação da direita apoiada pela CIA e pelos principais empresários do país. A burguesia apostava no desabastecimento, na falta de todos os tipos de produtos nos supermercados, e no comércio em geral. O governo esforçava-se para manter os preços sob controle, 

 

Já perto do golpe de Pinochet estourou uma greve dos caminhoneiros, o “camionazo“, daclasse cooptada e financiada pelos sindicatos mafiosos americanos. Tinha um objetivo claramente político de derrubar o governo da Unidad Popular.

Os caminhões eram impedidos de circular tanto pelos grevistas, como por milícias facistas do movimento “Patria y Libertad”.

 

Com essa greve, a crise de desabastecimento piorou, os supermercados com prateleiras vazias, faltava tudo, até gasolina e gás de cozinha.

 

Na obra terminou o estoque de “volcanita”, placas de gesso acartonado que como os atuais “dry wall” serviam para fazer as paredes internas dos apartamentos. A obra não podia parar.

 

Os combativos companheiros, não tiveram dúvida, decretaram uma greve de apoio ao governo, e armados com seus instrumentos de trabalho, fecharam a avenida Santa Rosa e requisitavam todo e qualquer caminhão que passasse.

 

Numa caravana de caminhões expropriados, dirigidos pelos próprios operários foram todos à buscar volcanita na fábrica “El Volcan” que ficava na localidade de “Puente Alto”.

 

Foi uma festa. Embora estivessem dispostos a um enfrentamento com os facistas, não encontraram problema. Os militantes de “Patria y Libertad” eram todos jovens da burguesia e da classe média e não teria coragem para enfrentar operários armados de pás, foices, marretas, etc, e dispostos a tudo.

 

A chegada dos caminhões de volta na obra, carregados de volcanita também expropriada, foi uma segunda festa, agora regada a vinho nacional.

 

Os trabalhadores de todo Chile, conscientes do processo político que viviam, organizaram-se, como o pessoal da minha obra, em torno de seus sindicatos com orientação de seus partidos para defesa do governo da Unidad Popular e da “via chilena hacia el socialismo”.Essa organização detonou o alarme nas classes dominantes, prestes a perder seus privilégios.

 

Mas isso foi apenas no início da organização da direita para, no ano seguinte, desferir um dos mais violentos e sangrentos golpes militares da nossa América Latina. A sequência e organização dessa reação facista aparece, não como objeto, mas como cenário nos próximos capítulos.

 



sexta-feira, 14 de maio de 2021

Minha Versão - Capítulo 35 - Vida de casado, móveis de pinho – trabalho

Vida de casado, móveis de pinho – trabalho – pedagógico – Escuela Técnica –  pôsteres – cantorias – vino e mais vino – a plantação de trebol encontrando raízes de parreira.

 

Não sei como nem porque, Zezé e Jorginho se separaram deixando a casa exclusivamente para nós.

 

Foi como começar tudo do zero, ajeitamos a casa toda ao nosso gosto, consegui um aquecedor industrial à querosene que aquecia a casa toda no inverno, permitindo-me andar de calção e camiseta no pior inverno. Mas essa compra foi muito depois, estou misturando a linha do tempo.

 

Digamos que a vida se encaixou no que queríamos. 

Além das aulas no Pedagógico, tentei sem sucesso voltar à engenharia, matriculando-me na “Universidad Técnica del Estado”, que ao contrário da engenharia da “Universidad de Chile” tinha uma administração de esquerda, liderada pelo Partido Comunista Chileno. 

 

Cursei em um semestre duas cadeiras iniciais, esperando que me validassem os quatro anos de engenharia da UERJ, mas não teve jeito, o cipoal burocrático era intransponível, e desisti.

 

Através do Jones, e daquela sua amiga na CORVI – Corporación de la Vivienda consegui um trabalho de fiscal de obra na construção de um conjunto habitacional para “pobladores”, no local da própria “población”. 

 

Era um programa de construção para urbanização de favelas que utilizava como mão de obra os próprios moradores. Foi uma experiência incrível, social, técnica e antropológica na interação com os operários.

No próximo capítulo entro em detalhes sobre toda essa rica vivência.

 

Foi uma fase de “brincar de casinha” que curtimos muito. Eu trabalhava na CORVI, nós dois assistíamos às aulas no Pedagógico e Marisol arrumou um emprego para vender pôsteres. Eram gravuras lindíssimas que vendiam muito bem. Com isso nossas paredes ficaram lindas. Uma gravura que me encantava e ficou na memória foi um pôster de Valparaiso, com seus morros e casinhas coloridas.


Nos escritórios da obra usava-se uma mobília toda feita no próprio local com caibros e tábuas de pinus. Tinham um design muito bonito e eram simples de fazer.

 

Comprei ferramentas de marcenaria, descobri uma madeireira perto e me propus à mobiliar a casa.

 

Fiz todos os móveis, poltronas, sofás, camas, armários e mesas, de forma muito econômica. 

 

Uma de minhas criações foi uma mesinha com duas cadeiras que pintei de branco sendo que no tampo da mesa desenhei em vermelho um tabuleiro de xadrez.

Vim a curtir muito essa mesinha, onde jogava sempre com Rodrigo acompanhado de um bom vinho.

 

Rosi e Rodrigo ficaram nossos melhores amigos. Ela, irmã de Marisol e o marido Rodrigo Barrientos irmão de Pepe, o filósofo. Só depois de saber que Rodrigo e Pepe eram irmãos, vim a entender o carinho paterno que Pepe tinha sobre a Pollito (Marisol),

 

Nós quatro passamos muitos e bons momentos na casinha de Tres Poniente. Eles vinham sempre, antes do almoço ou do jantar eu saia com Rodrigo para comprar vinho numa “botilleria” da esquina. Ali sempre tomávamos uma antes de voltar para casa, e Rodrigo dizia: “Ese me lo llevo puesto“.

 

Fazíamos comidas chilenas, tomávamos bons vinhos, tocávamos e cantávamos musicas latino-americanas. Rosi tocava um lindo violão, Rodrigo quena, charango y bombo, e todos cantávamos. Eles vieram a se especializar no folclore e a montar mais tarde o “dúo Humanaya”.

 

Quase sempre depois do jantar, jogava xadrez com Rodrigo. Ele sempre ganhava, sabia muito. Mas eu aproveitava para aprender, aberturas e finais.

 

Rodrigo gostava de me provocar falando um “chileno”  muito rápido e cheio de gírias. No início não entendia nada, e ele ria. “Cachay weón?”.

Aos poucos fui entendendo e foi graças a essa brincadeira que consegui me comunicar bem com “los obreros” da obra em que trabalhava.

 

Eu me apaixonei por eles, meus cunhados, tanto que até hoje, cinquenta anos depois, nos falamos por chamadas de vídeo ou diretamente no WhatsApp.

 

Na frente da casa tinha um pequeno espaço de terra tomado pelo mato seco, típico da região semi-árida de Santiago. Era muito feio e abandonado desde que chegamos. Resolvi fazer um jardim.

 

A grama era muito cara e requeria regas constantes, diárias, para não morrer.

Resolvi plantar trevo. O trevo fecha e cobre todo o jardim dando uma agradável impressão e não precisa de tanto cuidado como a grama.

 

Eu só não esperava a secura e dureza da terra. O trabalho na enxada foi enorme, me sentia um camponês nordestino tentando plantar na caatinga.

Mas a grande surpresa foi quando comecei a bater com a enxada em raizes grossas e muito duras. Estavam por toda parte, e eram, para mim, impossíveis de arrancar. 

 

Consultei o vizinho sobre meu achado, e ele explicou.

 

Toda a área de Villa Santa Carolina, tinha sido uma plantação de uva da Viña Santa Carolina, que permanecia próxima. Na construção das casas e ruas, derrubaram as parreiras e lançaram uma fina camada de terra por cima.

 

O mais surpreendente, é que eram cepas bem antigas, que deveriam produzir uma ótima uva e melhor vinho.

 

Por conselho do vizinho, plantei o trevo deixando partes dessas raizes e galhos expostos. Em pouco tempo, começaram a nascer mudinhas de parreiras. Aproveitei para enfeitar a cerca e o muro do quintal com lindas trepadeiras, que chegaram a dar alguns cachinhos de uma deliciosa uva preta. 

 

No meio de todas essas realizações e curtições, comprei uma motinho velha. Uma Ducati 175 toda remendada para ir trabalhar na obra que ficava bem longe.

 

A rotina de trabalho, a viagem diária de moto, o pátio da obra, no frio e no calor, no tempo seco e abafado do verão e na fria neve e no asfalto coberto de gelo do inverno já é por si só uma nova aventura ...

 

Que fica para o próximo capítulo.




sexta-feira, 7 de maio de 2021

Minha Versão - Capítulo 34 - A separação de Jorginho - imagem de Trotsky - a malha de balé - a babá da Carla e o tombo da tábua de passar roupa.

 A separação de Jorginho - imagem de Trotsky - a malha de balé - a babá da Carla e o tombo da tábua de passar roupa.

 

Não sei como nem porque, Zezé e Jorginho se separaram deixando a casa exclusivamente para nós.

 

Curtimos muito a casinha. Para nossas expectativas, a casa era um sonho, um quarto maior para o casal, o segundo para hóspedes, e o terceiro, menor,  para um escritório. Além disso, um grande quintal cimentado com floreiras.

 

Zezé foi morar num apartamento em Ñuñoa e Jorginho aproveitou a oferta da Eliane e foi morar no terceiro quarto do apartamento de Galvarino Galhardo rachando o aluguel.

 

Eliane a essa altura já estava “casada” de novo com o exilado brasileiro de Santos, estudante de economia. Muito simpático que ficou meu amigo, a quem já me referi num capítulo anterior.

 

O apartamento tornou-se uma verdadeira “comunidade” no estilo hippie da época. Um “point” de encontro de brasileiros. 

Sempre que eu o visitava, tinha gente, exilados brasileiros conversando, ouvindo música, fumando um. 

A ampla sala, com confortáveis sofás, parecia uma festa constante, gente entrando, gente saindo, muita alegria.

 

Nessa época, minha mãe já tinha trazido a Carla para Santiago que ficara ai com Eliane, por isso eu e Marisol sempre visitávamos o apartamento, ou para ver a Carla, ou para pegá-la para passar o fim de semana conosco.

 

Como já expliquei nos capítulos pós chegada ao Chile, peguei uma certa antipatia pela colônia brasileira, e a casa de Eliane era um lugar de reafirmação do “gueto”. 

 

Por isso, quando ia buscar a Carla, ficava apenas o tempo necessário para um papo curto, que disfarçasse minha antipatia. 

Mas às vezes era inevitável uma conversa mais longa, e até algumas reuniões festivas, com vinho e música.

 

Jorginho depois da separação definitiva e mudança de 3 poniente para Galvarino Gallardo, tinha afirmado muito mais sua admiração, quase veneração por Trotsky, de tal forma intensa que começou a tornar-se seu alter-ego, até fisicamente.

 

No início deixou um cavanhaque, que já estava grisalho, um vasto bigode, trocou os óculos por um modelo retrô “aro de tartaruga” e passou a usar o cabelo estilo rebelde.

 


Lia Trotsky e Isaac Deutscher.  Recorrentemente, relia “A História da Revolução Russa”, “A Revolução Permanente” e “A Revolução Traída”. De Deutscher, toda a trilogia da biografia de Trotsky.

 

Tinha uma enorme capacidade de memorizar parágrafos dos livros, e nas discussões teóricas, seus argumentos se limitavam a citar trechos inteiros, com ar professoral de certeza definitiva, incontestável. 

 

Por isso eu desconfiava de sua capacidade de raciocínio lógico e elaboração de uma linha própria de pensamento. Se o partido desse certo, seria um perfeito burocrata do politburo, como eu brincava.

 

Mas Jorginho, embora tenha incrementado suas atividades intelectuais, não deixara de ser aquele leão sexual da casinha da Villa Santa Carolina.

 

Nenhuma das amigas, companheiras, camaradas de qualquer orientação política que visitava o apartamento de Eliane, escapava de uma cantada revolucionária, insistente, quase assédio. 

 

Porém, não sei se pelo estilo, pela insistência desagradável ou pelo próprio visual dele, todas cantadas eram fadadas ao fracasso.   

 

Uma noite, Eliane e amigos do apartamento, resolveram fazer uma festa brasileira regada a vinho e umas cachacinhas que tinham contrabandeado direto de Minas Gerais.

 

Eliane pediu que Nina, a babá que cuidava da Carla, ficasse para dormir e ajudasse na festa, servindo taças e salgadinhos. Nina era uma chileninha de uns 18 aninhos, longos cabelos negros, corpinho “ajeitadinho”, pequena como Jorginho.

 

Era muito tímida, com sorrisos envergonhados, mas tinha uns olhinhos ágeis, espertinhos. 

 

A festa transcorria calma, um vinil de jazz na vitrola, a sala à meia luz, todos estranhamente muito comportados, até então. 

 

Menos Jorginho, que com saudades da cachacinha, usava uma taça de vinho para tomá-la e entornava uma atrás da outra.

 

Vestiu-se bizarramente, com uma camiseta de malha transparente e uma malha de balé que mostrava bem o contorno de suas pernas e um “volume” meio desproporcional aos seus 1,50 metros de altura.

 

Depois de algumas doses de cachaça em taças de vinho, Jorginho entusiasmou-se e passeava pela sala lendo em voz alta, “A Revolução Traída” em apenas uma mão. Na outra levava a taça de cachaça. 

 

Um mal estar, um constrangimento espalhou-se pela sala, mas Jorginho não notava. Todos fingiam não vê-lo, mantendo conversas paralelas, sem se impressionar com a cena, menos Nina, a babá.

 

Nina entrava e saia da cozinha com pratinhos de salgadinhos, garrafas de vinho, e cada vez que Jorginho se aproximava elevando o tom do discurso trotskista, para impressioná-la, Nina soltava risinhos, gritinhos e olhava para baixo, para as “pernas” de Jorginho. 

 

Na terceira ou quarta entrada, Jorginho seguiu Nina e vimos meio de lado que ele a agarrava pelas costas dentro da cozinha.

 

Nina resignada, pegou na mão dele e o levou para o quartinho onde era passada a roupa da casa. 

 

Na sala, apesar do Jazz, que alguém teve a caridosa iniciativa de aumentar o volume, podia-se ouvir os urros masculinos e gritinhos femininos que vinham do quartinho de passar roupa. 

 

De repente, depois de um urro mais forte, ouviu-se um violento estrondo, de alguma coisa grande desabando no chão, e um grito.

Pensei maldosamente que fosse um violentíssimo orgasmo, mas não faria tanto barulho. 

 

Corremos para lá, e surpreendemos Nina no chão com Jorginho em cima. 

Acontece que mesmo sendo pequenos e leves, a tábua de passar não aguentou o peso dos dois e veio ao chão ...

 




      



sexta-feira, 30 de abril de 2021

Minha Versão - Capítulo 33 - Dividindo com Jorginho e Zezé a casinha de 3 Poniente, 2330

 Dividindo com Jorginho e Zezé a casinha de 3 Poniente, 2330

 

Voltamos de Valparaiso, e sem pensar em mais nada, sem combinar nada, com a maior naturalidade, fomos morar juntos no meu quartinho na casa de Jones. 

 

Sem conversar nada, como se fosse decorrência natural daqueles dias na mansarda da Hostal com vista para o Pacífico. Andávamos como a dois palmos acima do chão, duas crianças de 21 e 17 anos indo morar juntas sem pensar em nenhuma consequência.

 

O meu futuro sogro, José Etcheverry ou Pepin como o chamávamos, estava viajando pela Índia, estudando Yoga. Por isso, Marisol pôde contar a estória em casa de que ía viver com “umas amigas” da faculdade.

 

A casa de Jones nas “Torres de Macul” não era muito apropriada para nós, mas logo surgiu uma oportunidade melhor. 

 

Jorginho e Zezé, com quem eu havia passado o Natal na casa de Mario Pedrosa, moravam numa adorável casinha de três quartos na “Villa Santa Carolina” estavam procurando alguém para dividir o aluguel.

 

Villa fica nos fundos da “Viña Santa Carolina” e a casinha na rua 3 Poniente número 2330.

 

Fica um pouco depois da Avenida Maratón, perto do Estádio Nacional de tétricas lembranças, e de um conjunto de edifícios conhecidos como “Villa Olímpica”.

 

Entrei nesses detalhes geográficos, porque a proximidade com o Estádio Nacional, onde foram presos milhares de opositores, inclusive brasileiros, durante o golpe de 1973, é um dado importante para quando, num capítulo adiante, descrevo minha experiência com o golpe de Pinochet e os fuzilamentos noturnos no estádio.

 

Mas na época, a proximidade com a “Viña Santa Carolina” era um fator positivo. Tinham uma pequena loja onde podia-se comprar vinho no varejo, por preços excepcionais. Gostava muito de um Cabernet Sauvignon conhecido com “Santa Carolina Tres Estrellas” com três estrelinhas douradas no rótulo.

 

A casa, que mostro na foto, era um doce, uma maravilha romântica para nós.

Jorginho e Zezé não eram muito de curtir casa, “brincar de casinha” como os casais novos. Talvez por Zezé trabalhar muito, cobrindo a realidade chilena para a Folha de São Paulo, ou por já estarem há alguns anos juntos, com uma certa antipatia latente entre os dois.

 

Nós sim, curtimos muito nossa primeira casinha, colocando móveis, tapetes, artesanato, pôsteres do nosso gosto da época. Uma estética meio revolucionária, “handmade” com um forte colorido latino-americano.

Como por exemplo, pôsteres de Valparaiso e de Che Guevara.

 

Jorginho que se dizia “freelancer” do Pasquim, trabalhava pouco, e passava a maior parte do tempo em casa lendo. Se não me engano, nesse tempo militava na “Dissidência” como era chamada a ala resultante do grande racha do PCB, mas estava cada vez mais próximo de Trotsky e do nosso grupo, o “Ponto de Partida”.

 

O Ponto de Partida, no qual eu havia entrado pelas mãos de Jones, achava-se a semente do futuro, verdadeiro, autêntico, partido Bolchevista/Leninista e o próprio representante da IV Internacional no Brasil.

Embora coubéssemos todos numa Komby e estivéssemos todos exilados, portanto fora do Brasil. 

Mas pelas suas concepções, eu via Jorginho no novo partido como uma indiscutível vocação para um futuro burocrata do politburo.

 

Jorginho e Zezé, acho que ele carioca e ela nordestina, tinham uns 1,50 m de altura cada um. Eram pequenos, magros, ativos, e não sei se os dois, ou só Jorginho, verdadeiros leões na cama. 

 

Eu sabia disso porque ficamos com o quarto ao lado, separado apenas por uma parede de um material de gesso, na época chamado “Volcanita”.

A volcanita era um bom isolante térmico, mas péssimo acústico, e quase sempre, passávamos as noites acordados ouvindo urros, que se não fosse do Jorginho, eu facilmente atribuiria a um leão no cio.

 

Fora isso, nossa vida era muito, digamos, agradável, romântica, idílica. Andávamos em êxtase com essa nova experiência de pombinhos em novo e próprio pombal.

 

Melhor ficaria, logo depois, quando assumíamos a casa inteiramente para nós, como acontece no próximo capítulo...