sexta-feira, 2 de julho de 2021

Minha Versão - Capítulo 42 - O golpe - os tanques na 3 pontente - Os tiros no Estádio Nacional

 O golpe - os tanques na 3 poniente - Os tiros no Estádio Nacional - A invasão do ap. da Galvarino Gallardo - Os vizinhos socialistas.

O trauma do Tancazo na sexta-feira, 29 de junho ainda não tinha passado quando numa terça-feira dia 11 de setembro às sete da manhã, acordo com a cama e a casa tremendo.

 

Pensei, ainda sonolento que era mais um “temblor” (pequenos terremotos)  que acontecem em Santiago quase que semanalmente, mas prestando mais atenção, o “temblor” era acompanhado de um enorme barulho de motores. 

 

Corri para a janela da sala, e afastando levemente a cortina, vi que tanques passavam na rua. Logo na “3 poniente”, uma rua tranquila e estreita da “Villa Santa Carolina onde eu morava.

 

A rua é estreita, e mal dá para passarem dois carros pequenos ao mesmo tempo, um tanque de guerra então, ocupa quase toda a largura da rua. 

Da janela vi que atiravam, com suas metralhadoras .30 para o chão da pacata “3 poniente”

 

Estratégica e taticamente a rua “3 poniente” não significa nada. Ficou claro que as rajadas das metralhadoras eram apenas para assustar e ameaçar os moradores, 

 

Agora sim, ERA O GOLPE. E constatei que tinha errado meus cálculos.

 

Eu imaginava que o golpe seria no dia 18, data nacional do Chile, quando as forças armadas desfilam exibindo todo o seu poderio. 

Mas resolveram antecipar em uma semana.

 

Segundo meu plano de fuga, havia comprado duas passagens de VARIG para o Rio de Janeiro usando todos os dólares guardados dos enviados mensalmente pelo meu querido pai. Só que eram para o dia 15, três dias antes do presumido golpe, que afinal ocorreu no dia 11, quatro dias antes da viagem.

 

É claro que essas passagens dependiam de muitas coisas, principalmente da autorização de Pepin, o pai da Marisol para liberar a viagem da filha para o exterior, sendo que ela com 18 anos era menor de idade pelas leis chilenas da época, a maior idade para viajar sem autorização dos pais era de 21 anos. 

 

Mas eu pensava, romântica e adolescentemente que o convenceria do nosso amor e das minhas boas intenções, embora ele fosse militante de uma milícia de extrema direita de defesa do bairro contra comunistas e exilados terroristas

 

Liguei o rádio na estação socialista que ouvia todas as manhãs, e depois de alguns minutos informando sobre os desdobramentos e avanços do golpe, subitamente saiu do ar, ficando um chiado apavorante do qual me lembro e escuto até hoje.

 

Tentei sair para ir até a praça central da Villa Santa Carolina, para quem sabe me informar  de mais notícias e comprar víveres, mas passavam novos tanque e caminhões de transporte de tropas. 

 

Resolvemos ficar quietos em casa, aguardando acontecimentos que nunca vinham, porque as rádios estavam todas silenciadas e invadidas pelo exército.

 

Felizmente tínhamos alguma coisa para comer nesses dias, e resolvemos nos trancar e aguardar.

 

No segundo dia, todas as rádios começaram a transmitir as mesmas notícias, informando que o governo da Unidade Popular tinha sido deposto, e que as Forças Armadas controlavam todo o país. E mais um monte de besteiras assustadoras, como convocando todos os asilados a comparecerem ao Estádio Nacional para serem registrados e conclamando todos os trabalhadores que ainda resistiam nas fábricas a se entregarem, senão seriam presos, etc...

 

Continuei em casa, é claro que não acreditei na história dos exilados comparecerem ao Estádio Nacional.

 

No terceiro dia, arrisquei ir novamente ao centro comercial do bairro para comprar alguma coisa para subsistência, como pão e leite.

 

No bairro, todos se conheciam, e ao chegar na padaria, o dono, “momio” reconhecidome perguntou:

 

— Oye brasilero, todavia no te agarraram? Todos aqui sabemos que eres terrorista weón. Correte de aqui que te vamos a denunciar, weón.

 

Comprei o meu pão, dei um sorriso como se fosse uma brincadeira e voltei correndo pra casa, para mais uma noite de pavor.

 

O toque de recolher terminava às sete da manhã. Sai para a avenida. Maraton para averiguar a verdadeira situação.

 

Logo que dobrei a esquina, na primeira quadra, vi no chão uns vinte corpos, fuzilados na noite anterior por desrespeitarem o “toque de recolher”.

 

Estavam alinhados um ao lado do outro na calçada, organizadamente como num desfile militar, junto ao muro de uma fábrica. Fingi não parecer chocado nem ao contrário, continuei caminhando, ao lado dos corpos dos operários como se tudo fosse completamente normal.

 

Depois vim a saber que todos os corpos fuzilados durante o toque de recolher, eram recolhidos antes das sete, mas naquele local houve um atraso. Atraso que até hoje me assombra em alguns pesadelos.

 

As casas da “población” eram pareadas duas a duas, e eu tive a sorte de que o nosso vizinho de parede fosse uma família socialista, solidária, e tinham telefone. Para não transparecer cumplicidade, pulei o muro de trás, entre os quintais e consegui ligar para Eliane. 

 

O apartamento dela na Rua Galvarino Gallardo tinha sido invadido pelo exército, denunciada pelos vizinhos direitistas, mas que procuraram armas e como nada encontraram e viram que era uma família com uma criança pequena, foram embora. 

 

Eliane, Carla e o marido estavam bem e tinham um esquema para tentar sair do pais por terra, pelos Andes.

 

Passamos ainda algumas noites de terror.

 

Como já disse num capítulo anterior, morávamos muito próximo de Estádio Nacional, para onde foi levada a maioria dos prisioneiros iniciais do golpe em Santiago.

 

A cada noite, depois do toque de recolher, vivíamos verdadeiras seções de terror. 

De hora em hora, escutava-se um saraivada de balas. Eram as execuções sumárias que aí se realizavam. Mas o pior, eram os tiros que vinham depois da saraivada. Eram o “tiros de misericórdia”, dados um a um nas cabeças dos executados para que não restasse dúvida de que foram mortos.

 

Até hoje me lembro desses tiros, porque contando, eu sabia quantos teriam sido mortos naquele fuzilamento.

 

Como salvar-me desse inferno?

 

Graças aos tangos argentinos e boleros caribeños como verão no próximo capítulo.


capítulo.


sábado, 26 de junho de 2021

Minha Versão - Capítulo 41 - O tancazo

 O Tancazo - A resistência no Pedagógico - O revólver calibre 22 - Adriana Goñi e Henrique – O MIR vai cair na clandestinidade – a “extrangeria

Foi na sexta-feira, 29 de junho de 1973, que explodiu o “Tancazo”.

Com os ânimos e acontecimentos cada vez mais acirrados, já há alguns meses eu tinha comprado um radio com ondas curtas para acompanhar as notícias do dia a dia chileno e pegar alguns programas do exterior.

Nessa sexta-feira, como todos os dias, acordei e ainda deitado liguei o rádio na minha estação preferida, uma pertencente ao Partido Socialista que tinha o melhor jornalismo.

O narrador anunciava insistentemente, seguidamente, que uma companhia de tanques havia deixado seu quartel e se dirigia para o palácio La Moneda, com o objetivo de depor o presidente Allende. Alertava e convocava a população para reagir ao golpe e instruía os militantes a se dirigirem imediatamente para seus locais de trabalho, fábricas, universidades, etc...

Era o golpe. Não vou tentar descrevê-lo já que temos inúmeros artigos disponíveis na internet

Uma ótima descrição foi feita pelo Jornalista Maurício Brum para o jornal Sul21 da Internet em 2013. No final deste capítulo deixo links para o jornal e o filme do cinegrafista argentino Leonardo Henrichsen.

Era o golpe, nos levantamos rapidamente, nos vestimos com roupas de frio, estávamos em pleno inverno e não sabíamos se, ou quando voltaríamos para casa. Coloquei os dólares no bolso interno do casaco e partimos.

Dois episódios foram marcantes nesse pré-golpe que resultou fracassado.

O primeiro foi a morte em 15 de junho de Nilton da Silva, um jovem exilado brasileiro, duas semanas antes.

Assassinado por militantes da organização facista “Patria y Libertad” que já há algum tempo se organizava como milícia armada, e prometia acabar com os exilados de esquerda de todas nacionalidades.

O segundo, foi o assassinato do cinegrafista argentino Leonardo Henrichsen que filmava para uma agência sueca e acabou gravando o próprio assassinato. Outra história conhecida é a frase de um certo tenente Pérez, da guarda policial de La Moneda, respondendo aos pedidos do Regimento Nº 2 para que se rendesse: “La Guardia muere, pero no se rinde nunca, mierda”.

Fomos para o Pedagógico porque se eu fosse para a obra, teria que ir sozinho e não saberia se voltaria a ver à Maria.

Quando chegamos, o pátio já estava cheio de gente, aguardando orientação.

Militantes do MIR organizavam as pessoas em grupos.

Haviam grupos de propaganda, de manifestantes, de trabalho e quem tivesse experiência com armas era levado para uma sala à parte.

Com minha experiência nas escolas militares, me inscrevi para compor a luta armada contra o golpe que se avizinhava. Fomos levados para uma ampla sala de aula, e ali informados que tínhamos que nos organizar em duplas, que iriamos receber uma arma por dupla.

As armas foram distribuídas, eu e Marisol recebemos um revolvinho calibre 22 da idade do velho oeste e cinco balas.

Fiquei imaginando, um tanque avançando em minha direção e eu atirando, até cinco balas, com um revólver 22. Eu sabia que um tiro de 22 não parava nem um homem forte, que dirá um tanque.

Desconfiados, passamos ali toda a tarde aguardando notícias do Tancazo e instruções.

No fim da tarde fomos informados que o Tancazo havia fracassado e que podíamos voltar para nossas casas.

Foi aí que me apavorei com o nível de organização de uma possível resistência ao golpe.

Frequentávamos um casal de grande amigos dirigentes do MIR que moravam em El Arrayán, bairro alto de Santiago. Adriana era filha de um dirigente da Federação Chilena de Futebol, portanto figura importante, e pelo lugar de sua moradia, fora de qualquer suspeita.

Chegamos e como sempre fomos muito bem recebidos. Seu companheiro da época, Enrique, era uma pessoa dessas alegres de personalidade positiva, com excelente humor e grande disposição de luta. Tomava sempre whisky, embora cultivasse uma úlcera estomacal que sempre doía ao tomar a primeira dose.

Conversamos muito sobre o Tancazo, suas causas, raízes e consequências políticas. Todos estávamos certos de que era uma antecipação desastrada do golpe que estava por vir.

Concordamos que esse golpe estava mais do que maduro para acontecer, e que seria pelos próximos dias.

Entendi que tínhamos que resistir na hora mesma do golpe, com todas as forças que dispúnhamos, pois a cada momento perderíamos capacidade de luta, principalmente armada.

Decidido a participar da resistência ao golpe, que seria comandado mais pelo MIR do que pelo Partido Socialista, me dispus a participar da luta armada no Chile, embora tenha tido minhas restrições a fazê-la no Brasil.

Num momento da conversa, finalmente perguntei de chofre à Henrique:

-- O que faria o MIR em caso de se concretizar o golpe militar nos próximos dias.

Ele respondeu com um balde de água fria:

-- O MIR vai cair na clandestinidade e combater com guerrilha rural e urbana.

Falei para mim mesmo: “já vi esse filme”.

Se o momento não fosse aproveitado pela grande união da esquerda existente , e pela mobilização popular em curso contra o golpe, a força da reação seria irresistível militarmente, e cairíamos numa ditadura como a brasileira, e a uruguaia que havia se iniciado nesse mesmo dia, com o fechamento do congresso pelos militares.

Além disso, o MIR na clandestinidade, numa guerrilha urbana, estaria fadado a um fracasso como o do Brasil, além de que os militares chilenos eram muito mais competentes que os brasileiros.

O Tancazo foi em 29 de junho. O dia 18 de setembro é a data nacional da independência chilena, como o nosso 7 de setembro, quando as forças armadas desfilam exibindo todo o seu poderio militar.

Para mim, restava claro que o golpe ocorreria no máximo até o “dieciocho”, dia nacional chileno.

Eu já estava há dois anos no Chile, e com um processo na “extrangería” solicitando visto permanente de exilado. No dia seguinte ao Tancazo e à informação de Enrique sobre a atuação do MIR e da esquerda, me convenci de que ficar no Chile era uma opção de suicídio ou cadeia.

Corri até a “extrangería” e retirei todos os papéis do meu processo de pedido de residência e pedi um visto temporário de turista de três meses.

Por incrível que pareça, isso salvou a minha vida, pois após o golpe, todos os estrangeiros exilados ou com pedido de exílio foram sumariamente executados.

TANCAZO

https://www.sul21.com.br/noticias/golpe-no-chile-40-anos/2013/06/o-tancazo-o-golpe-fracassado-de-29-de-junho/

FILME:

https://youtu.be/XrhQWzFUFS0





sexta-feira, 18 de junho de 2021

Minha Versão - Capítulo 40 - As passeatas em defesa do regime - O Grupão discutindo o Brasil - Fidel no estádio Nacional.

As passeatas em defesa do regime. Vicuña Maquena, Las Condes, Av. Bernardo O’Higgins - O Grupão discutindo o Brasil e o pau comendo lá fora - Fidel no estádio Nacional.

 

A reação popular ao golpe que se aproximava demorou a chegar.

Num governo com tantos partidos, da extrema esquerda ao centro, era difícil qualquer reação imediata. 

 

Mas ela veio, talvez mais por iniciativa dos partidos de esquerda e dos sindicatos que do governo propriamente. 

 

As forças mais centristas e mais moderadas da Unidade Popular receavam lançar as massas nas ruas, com medo de uma radicalização que reforçaria as posições mais à esquerda, lideradas pelo MIR – Movimiento de Izquierda Revolucionaria e desafiaria a direita e consequentemente os militares.

 

Mas o perigo iminente de golpe e as manifestações cada vez mais fortes da direita, convenceram os moderados à uma reação forte e popular.

 

Uma vez deflagrado o processo na massa, foi impossível reverte-lo. 

A primeira grande manifestação coordenada pela central sindical, partidos e movimento estudantil foi arrasadora e ao mesmo tempo assustadora.

 

A força do povo enchendo as avenidas de Santiago com suas bandeiras e gritos de guerra, os partidos mostrando suas forças com militantes de todos os segmentos sociais, e principalmente os trabalhadores das fábricas, minas, obras, nos trazia a certeza de que venceríamos a tentativa de golpe, o fascismo e a reação das classes dominantes.

 

As grandes avenidas de Santiago se encheram de povo. Vicuña Maquena, Las Condes, Irarrázabal, Bernardo O’Higgins formaram rios de gente de todas as cores, etnias, nacionalidades e idades. Dos velhos operários que haviam combatido em antigas lutas aos estudantes secundaristas ainda com seus uniformes azul marinho.

 

Vivíamos um daqueles raros momentos históricos em que o povo toma em suas mãos as rédeas do próprio destino.

 

O internacionalismo proletário expressava-se naturalmente nas representações de outros países, com militantes participando das passeatas. Bolivianos, peruanos, venezuelanos, argentinos, gente de toda a “Patria Grande” de Bolívar. 

 

Mas brasileiros eram poucos, apesar de haverem muitos exilados na época em Santiago.

 

Todas as organizações da esquerda brasileira representadas em Santiago, resolveram criar o “Grupão”. Funcionava como uma grande assembléia em que se debatia a conjuntura política brasileira e se travavam acirrados debates sobre as diversas formas de atuação, possíveis alianças, estratégias da revolução brasileira, etc... 

 

Todos os sábados lá para as 10 horas da manhã, reuniam-se delegados enviados pelos diversos partidos e organizações. Participei uma ou duas vezes, mas sentia-me como um estranho. Via as reuniões como uma peça de teatro do absurdo. 

 

Era um grupo de pessoas totalmente descoladas da realidade, achavam-se os futuros dirigentes, a vanguarda de uma revolução num pais com o qual não tinham mais ligações funcionais, pois quase todas as organizações tinham sido destroçadas pela repressão da ditadura, e sabiam cada vez menos do que realmente acontecia no Brasil.

 

Era como se representassem papeis numa peça que eles mesmos sabiam que era pura fantasia, para se manterem ativos e justificarem o fracasso da luta armada.

 

O maior absurdo dessa realidade paralela era não verem a revolução que estava acontecendo embaixo dos seus narizes e recusavam-se a participar. 

Como já disse, fui uma ou duas vezes e constatei que era mais uma reunião social onde cultivavam suas próprias vaidades e reforçavam a existência do gueto brasileiro, como eu o descrevia.

 

Essa alienação do Grupão em relação ao Chile, me fazia cada vez mais mergulhar na luta chilena e esquecer as más notícias e a triste realidade  política brasileira.

Tanto que um querido amigo escritor a quem exponho meus rascunhos, me questionou porque eu não falo de notícias do Brasil, como passavam meus parentes, amigos que lá ficaram, etc.

 

Respondi-lhe com a seguinte mensagem via WhatsApp:

 

Meu caro,

Sobre o que se passava no Brasil na época, confesso que minha imersão no processo chileno, minha ojeriza ao “gueto” dos brasileiros exilados, o fato de estar apaixonado por uma chileninha, além de só falar “chileno” e me relacionar com chilenos, fizeram que eu me desligasse do Brasil, esquecesse de lá. 

Até falar português ia ficando difícil para mim. Esquecia as palavras, falava com sotaque e “pensava” em castelhano.

Mas você lembrou bem, vou incluir alguma coisa sobre esse meu processo de desnacionalização.

Abração e obrigado pelo toque.

 

As manifestações se repetiam, cada vez mais fortes e a Unidade Popular demonstrava acreditar que estava vencendo essa batalha, que os facistas “no pasarán” e que o golpe estava estancado. 

 

Para mim, embora entusiasmado com a forte reação popular às primeiras manifestações golpistas, no fundo eu  achava que essas posições da esquerda tinham uma certa ingenuidade, em achar que o fascismo se assustaria com a força do movimento popular.

 

E a esquerda foi advertida contra essa ingenuidade por ninguém menos que Fidel Castro.

 

Fidel visitou o Chile de Allende, visita essa que foi interpretada de várias formas, desde um apoio à experiência chilena até como uma luta interna na esquerda da América Latina.

 

Fidel discursou no Estádio Nacional para milhares de pessoas que lotavam o estádio como numa decisão de campeonato. Apertado na arquibancada fiquei muito impressionado com o discurso, principalmente quando ele  “jogou um balde de água fria” no entusiasmo da torcida, coisa que somente um líder como ele, acostumado a lidar com multidões sabe fazer.

 

Falando sobre o momento político chileno, Fidel fez para a platéia a seguinte pergunta:

 

— Digam-me, quem há aprendido mais na luta de classes que ocorre em Chile. A direita?

 

E o povo respondeu num grito uníssono:

 

— Nooooo!

 

— Volto a perguntar, quem há aprendido mais, nós, a esquerda?

 

E o povo respondeu num grito uníssono:

 

— Siiiiii!

 

Fidel deu uma risadinha, apoiou-se no púlpito deu uma parada teatral olhando para o céu e terminou:

 

— Amanhã o New York Times vai dar como manchete: Fidel discorda do povo chileno. Mas companheiros, infelizmente vocês estão errados. A direita, as classes dominantes, as forças da reação aprenderam muito mais que nós em todos esses anos de luta de classes, e não podemos subestimar seu poder.

 

Essas palavras, embora causassem um certo desconforto ao público, foram proféticas, como se verificou nos anos seguintes. 

 

Fidel olhando de fora a conjuntura chilena, via friamente que estávamos todos tão entusiasmados com o processo que vivíamos nos iludindo e superestimávamos nossa força.

 




sexta-feira, 11 de junho de 2021

Minha Versão - Capítulo 39 - A montagem do golpe pela direita facista.

 A montagem do golpe pela direita fascista. A greve dos caminhoneiros, o desabastecimento, gás, carne, pão. Papel higiênico e açúcar no Sheraton. Churrascaria em Las Condes.

 

A direita chilena, com apoio e orientação da CIA, não poderia mais admitir o processo chileno de socialização, distribuição de renda e universalização da educação e da saúde.

 

Desde o primeiro dia do mandato de Allende, essa direita começou a montar o golpe de estado contra a democracia, no modelo clássico já utilizado largamente em vários países da América Latina, como o de 1964 no Brasil.

 

A fórmula é sempre muito parecida. Como já vivi algumas, posso explicar como funciona a receita, como de um bolo.

 

Primeiramente cria-se uma massiva campanha publicitária com poucas mas insistentes “fakenews” para assustar a classe média:

 

- A esquerda é formada por comunistas que querem tomar nossas propriedades.

- Uma potência estrangeira, quer dominar o país.

- Vão colocar várias famílias para morar na sua casa.

- Vai faltar comida.

- São financiados com o “ouro de Moscou” ou agora “de Havana” ou “de Pequim”

- O Estado e as instituições estão infiltrados pelos comunistas.

- São todos ateus, vão proibir a religião e acabar com os costumes cristãos.

- Vão acabar com a família, a pátria e a liberdade.

- As eleições estão sendo fraudadas.

- etc. etc. etc.

 

O objetivo principal dessa campanha é desacreditar as instituições democráticas para justificar sua eliminação, além de apavorar a classe média que vai servir de massa de manobra em futuras manifestações de rua.

 

Num segundo estágio, conseguido o apoio da maioria de empresários e da pequena burguesia, incentiva-se a sabotagem econômica. Por iniciativa dos próprios fabricantes e comerciantes diminui-se a produção e começam a faltar produtos de primeira necessidade na ponta. Esse processo começa com os grandes monopólios, como combustíveis, farinha de trigo, aço, alumínio,  energia...

 

Com a falta de produtos, aparece o “Mercado Negro” onde tudo é vendido pelo dobro, triplo do preço, resultando numa inflação galopante. Em seguida vem a sobrevalorização do dólar e a disparada dos juros aumentando ainda mais a inflação e a fuga de capitais.

 

A esse pré-caos, largamente alardeado pela mídia golpista, que é sempre a grande maioria, pois pertencente desde sempre ao grande capital, faltam somente ser agregadas as primeiras manifestações de classes ou corporações também golpistas.

 

Algumas categorias estratégicas na economia, como caminhoneiros, policiais, mineiros, metalúrgicos, são mais facilmente cooptáveis pela “inteligentzia” golpista. O método é a criação de uma organização clandestina, onde se injeta grande quantidade de dinheiro, geralmente da CIA.

 

Essa categoria, como foram os caminhoneiros no Chile, serve de exemplo da propalada insatisfação geral da população e de alavanca para o passo seguinte.

 

Quando a mistura começa a chegar no “ponto de ebulição” iniciam-se as manifestações de rua, normalmente defendendo a família, a pátria, a propriedade privada, os costumes e a religião.

 

No Brasil de 64, foram as “Marchas da família com Deus pela liberdade”, onde a classe média mais abonada, tendo na linha de frente senhoras menopáusicas, loiras artificiais, carregavam bandeiras nacionais e cartazes pedindo “Intervenção Militar”. No Chile de 73 foi muito parecido.

 

Para os primeiros enfrentamentos, com intenções claramente terroristas, são criadas, remuneradas e treinadas milícias formadas normalmente pelos filhos violentos da burguesia e por integrantes do lupemproletariado . Esse tempero é importante para mostrar que existe violência “de ambas as partes” o que vai justificar uma intervenção também pela força, isto é, dos militares.

 

No Brasil foi criado o “CCC – Comando de Caça aos Comunistas” e o Opus Dei incentivou a criação do “Deus, Família e Propriedade”. Na Argentina foi criada a  “AAA - Alianza Anticomunista Argentina”, todos verdadeiros Esquadrões da Morte incentivados pelas ditaduras que se seguiram.

 

Outro exemplo no Brasil foram os “Camisa-Verdes” do Partido Integralista que precedeu o golpe de Getúlio em 37 e criou o “Estado Novo”.

 

No processo chileno teve muita relevância o “Patria y Libertad” que acompanhava e dava a devida logística para as manifestações de direita da classe média. 

 

Finalmente, chega a hora das lideranças golpistas fazerem o devido contato com as Forças Armadas e convencer, cooptar ou até comprar alguns generais que em sua maioria e quase por definição são contra “a baderna em que se transformou esse país, com tanta violência e corrupção”.

 

Pronto, está pronta a massa do bolo, é só levar ao forno.

 

No Chile, todos os passos foram cumpridos à risca.

 

Os caminhoneiros, como depois ficou provado, com grande financiamento da CIA e dos sindicatos mafiosos americanos, pararam o país diversas vezes. 

 

O desabastecimento que já vinha acontecendo, se agravou enormemente. Os supermercados com todas as prateleiras vazias. Não existia farinha de trigo, portanto pão. Filas enormes para se conseguir comida, gás, combustível. Filas intermináveis nos postos de gasolina.

 

Não existia carne, e quando aparecia um carregamento de frango no açougue do nosso bairro, a notícia corria como um rastro de pólvora e logo se formava uma enorme fila, e o frango, inevitavelmente, não dava para todo mundo.

 

Embora cozinhássemos pouco, eu levava nas costas por cinco quadras um bujão de gás vazio para depois de algumas horas de fila trazer um cheio de volta.

 

Não havia papel higiênico, pasta de dentes, absorventes íntimos. Carne de gado era uma raridade. O açougue chegou a vender carne de cavalo vinda da Ásia e uma merluza congelada russa, muito ruim.

 

Mas nós, pela juventude e condição social éramos naturalmente descolados desse dia a dia terrível para o resto da população, imaginava o que passariam  famílias com filhos, idosos, sem conseguir o básico para sua subsistência. 

 

Era de se esperar que 100% da população ficasse contra o governo da Unidade Popular, mas não. A consciência política da população chilena, ao contrário da brasileira era surpreendentemente sólida. A tradição dos partidos políticos, o engajamento da população mais pobre foi o que segurou o golpe por tanto tempo, e por isso mesmo o golpe de Pinochet e seus asseclas teve que ser tão sangrento, talvez o mais sangrento de todos em nossa Latino-America. A burguesia, o fascismo chileno e o Departamento de Estado dos EUA só conseguiram êxito nesse golpe a custo de muito sangue, muita prisão e muitos, muitos milhares de assassinatos.

 

Utilizávamos uma série de expedientes para superar a difícil situação geral.

Fomos algumas vezes no Sheraton, um dos melhores hotéis da cidade, falando português e inglês como em Arica, passando por turistas ricos pedíamos uma café no bar do térreo. A xícara de café era acompanhada por um potinho com cubinhos de açúcar, produto totalmente inexistente no mercado. Tomávamos o café e despejávamos os cubinhos de açúcar cristal num saquinho plástico levado para esse fim. Depois do café, íamos cada um no seu banheiro e trazíamos todos os rolos de papel higiênico disponíveis. Tudo seguia em bolsas peruanas de lã embaixo dos ponchos.

 

Não gostava de comprar no Mercado Negro, para não incentivar as ações golpistas, mas a única excessão eram os cigarros. Comprava uns pacotes  americanos contrabandeados, porque o vício era grande. 

 

Mas para as classes dominantes, o desabastecimento não assustava. Tinham seus próprios fornecedores, de carne a whisky de sapatos a esquis de neve.

 

Os restaurantes dos “barrios altos”, isto é, chiques, tinham de tudo. De churrasco a lagosta, tudo com os excelentes vinhos chilenos e franceses. 

 

Com a loucura do arrocho à economia chilena, um dólar chegou a valer 3.000 escudos, e os 100 dólares que meu pai me mandava via Elígio, se transformavam em 300.000 escudos. Uma fortuna.

 

Graças a isso, resolvi numa noite, depois de muita escassez por motivos ideológicos, checar se os ricos realmente continuavam a curtir sua boa vida de sempre como diziam os jornais de esquerda.

 

Fomos jantar um “asado” no melhor restaurante de carnes da cidade no bairro de “Las Condes”, de Santiagocidade onde não se achava qualquer tipo de carne para comprar.

 

No menu, carne bovina, suína, ovina, frango, pato e caças. Garçons elegantíssimos ofereciam um belo espumante de cortesia na entrada, te conduziam à mesa e ofereciam o serviço do “somelier” para te orientar no vinho que melhor se harmonizava com a carne que escolherias. 

 

Ficaram um pouco ressabiados com nossas roupas, meio hippies, mas se tranquilizaram e voltaram a nos sorrir quando dissemos em inglês e português que éramos um casal de turistas, americana e brasileiro em férias no Chile.




sexta-feira, 4 de junho de 2021

Minha Versão - Capítulo 38 - Antofagasta – Iquique - Arica – pelo deserto de Atacama.

Antofagasta – Iquique - Arica – pelo deserto de Atacama.

 

A imagem que eu tinha de um deserto era aquela clássica e monótona de montanhas infindáveis de areia do deserto do Saara. 

 

Mas o Atacama, deserto mais seco do mundo, é muito mais que isso. Parece um cenário de filmes de ficção científica, de viagens a outros planetas. Realmente, o deserto de Atacama é outro, ou outros, planetas.

 

Meu destino final era Arica, última cidade da fronteira norte do Chile, que foi tomada do Perú na Guerra do Pacífico, bem como Iquique, que fica 300 quilômetros antes de Arica. Mas passaria antes por Antofagasta, também tomada da Bolívia na mesma guerra, cortando seu acesso ao mar, ao Pacífico.

 

Nosso projeto era viajar de ônibus: Santiago – Antofagasta – Iquique – Arica.

A volta seria um mês depois de avião pela LAN Chile. As passagens na época eram baratíssimas, todos podiam andar de avião, e por isso tinha-se que comprar com meses de antecedência e era impossível remarcar.

 

Poucos quilômetros depois de Santiago, ingressa-se no deserto. É ao mesmo tempo impressionante pela sua beleza e assustador por suas dimensões, secura e a infinita solidão que senti só de olhar para aquele deserto.

 

Ao invés das areias do Saara, vemos rochas enormes, montes, montanhas, vales completamente secos e com as mais diversas cores. Montanhas intensamente vermelhas, amarelas, ocres, vales azuis, cor de rosa e o branco dos salares. Enormes formações rochosas violetas como a ametista, azuis como o lápis-lazúli. Um verdadeiro cenário impressionista. O Valle de la Luna parece mesmo uma réplica de paisagem lunar.

 

Eu, vindo dos trópicos, onde por toda parte se vê o verde da vegetação, principalmente nos morros, tive uma impressão avassaladora, nenhuma vegetação, nem um capim. Fiquei realmente embasbacado. Depois da viagem, e até hoje, sonho estar nessas paisagens, sem água ou comida, impressionado com as cores e formas variadas das formações rochosas.

De dia o calor chega próximo dos cinquenta graus, e à noite a zero.

 

Durante toda a viagem, tem-se os Andes nevados à direita e o oceano à esquerda, os Andes eram sempre presentes, e conseguia ver o mar quando a estrada se aproximava da costa. 

 

Antofagasta a primeira parada, porto ligado à exploração do cobre, principal produto de exportação do Chile, fica como todas as cidades costeiras, espremida entre o deserto e o oceano. Ali percorri algumas ruas, conheci o porto e no mesmo dia segui viagem para a próxima parada.

 

A região tem episódios de revolta e repressão brutal aos trabalhadores das minas nas pequenas cidades à sua volta, como San Pedro de Atacama.

 

De Antofagasta seguimos para Iquique, e daí chegamos a Arica, uma cidade muito particular, tanto pela sua situação geográfica de fronteira quanto por sua história de ter sido tomada do Perú na guerra do Pacífico.

 

De Arica parte um trem que sobe os Andes até La Paz, estrada de ferro construída para manter o acesso da Bolívia ao mar, resultado de um acordo dos dois países depois do Chile ter tomado toda a parte costeira da Bolívia. A ferrovia tem o apelido de Ferrovia da Coca, e os motivos pode-se imaginar.

 

Por essas condições, e também por ser um belo destino turístico, Arica tem gente de todos os tipos, de todas partes do mundo, chilenos, peruanos, bolivianos, chineses, argentinos, europeus, e turistas de toda América, do sul e do norte. 

 

Por estar nas fronteiras, tem um próspero comércio de coca, da folha e da refinada, de marijuana e outras drogas,  o que por sinal é até histórico e um traço cultural, pois a cultura Inca e outras que a antecederam já conheciam e utilizavam habitualmente várias substâncias alucinógenas no dia a dia e nos rituais religiosos. Aliás, as paisagens multicoloridas do deserto têm tudo a ver com as viagens psicodélicas dos produtos utilizados pelo povo inca.

 

Nessa época, a cidade era parada obrigatória para todos os “doidões”, hippies, roqueiros, easy rides seguidores de Jack Kerouac e James Dean, com suas motos barulhentas, roupas de couro colares, anéis, etc. 

 

Por Arica passa a estrada Pan-americana, conjunto de rodovias interligadas  que atravessa todo o continente americano, com aproximadamente 30.000 quilômetros, ligando desde Ushuaia na Patagônia Argentina, até Prudhoe Bay no Alaska. É claro que viver a aventura de percorrer essa estrada de moto, ou parte dela, era o sonho de todo beatnik da época.

 

Com todas essas características, podemos imaginar o conjunto das “tribos doidonas” que se encontravam e o que realizavam na cidade.

 

Resumindo, muita droga, sexo e rock and roll. Existiam inúmeras bandas de rock vivendo em comunidades, e apresentando shows diários de graça.

 

Mas apesar de toda essa “tribo urbana”, o maior espetáculo de Arica estava na natureza.

 

Ao contrário do Atlântico, onde o sol nasce no mar, no Pacífico ele morre no mar, todos os dias... 

 

Como nunca chove, e as nuvens são raríssimas, o pôr do sol é sempre um grande e deslumbrante espetáculo.

 

São muitas as cores, do vermelho intenso ao laranja e amarelo, além dos diferentes tons do azul e verde que se alternam no azul profundo do mar.

 

Ele, uma enorme bola de fogo entra e se apaga no oceano, indo iluminar a Ásia do outro lado do Pacífico. É uma lenta descida, e quando finalmente começa a mergulhar, quase se escuta o chiado da água fervendo ao apagar aquela bola de fogo. Dependendo do estado em que se encontra, tem espectador que jura ter ouvido o chiado da água fervendo.

 

Toda essa descrição poética de “la posta del sol” tem muito a ver com a impressão transmitida pela galera que vai assistir; num estado de espírito calmo, tranquilo, quase no Nirvana.

 

Acontece que na avenida Costanera, um calçadão de frente para o mar onde se dá o espetáculo, dezenas de pessoas sentam-se desde cedo numa mureta larga e baixa  para apreciar o fenômeno, e só saem de lá quando começa a escurecer.

 

A poesia se deve, em parte, a uma banda que está sempre por perto tocando blues para os espectadores, e ao fato de estarem todos chapados. 

Seria realmente um desperdício apreciar um espetáculo único como esse sem antes dar uns “tapinhas” num baseado.

 

***

 

Além do programa diário no pôr do sol na Costanera, íamos à praia pela manhã e saíamos à noite para ouvir um rock e dançar um pouco. Havia lugares muito doidos e também muito alegres.

 

Tínhamos ficado num hotelzinho barato e por isso longe da costa e do maior agito. Ficava numa área, digamos, não muito confiável de Arica. 

 

Mas lá pelo quinto ou sexto dia, não queríamos ir muito longe, e resolvemos conhecer uma boate que ficava na esquina do nosso hotel.

 

A boate tinha um cartaz na porta que anunciava um strip-tease e uma garrafa de espumante de consumação. Entramos. 

 

O amplo salão ficava no fundo de um longo corredor, e o conjunto tocava boleros e guarânias. O ar era pesado, da fumaça de cigarros e da aparência dos fregueses e garçons. Estava meio vazio, sentamos à uma mesa com uma toalha de plástico, assim como as flores que a enfeitavam e uma garrafa de espumante dentro de uma geleira cujo gelo já tinha derretido há tempo.

 

O garçom muito solícito, de grandes bigodes e barriga estilo Sargento Garcia do Zorro, logo apareceu se oferecendo para colocar gelo no balde e perguntar se queríamos algo mais. Nós sempre aplicávamos um golpe para sermos bem recebidos, como turistas estrangeiros, eu falava português e a Marisol inglês com o garçom que se esforçava para entender. 

 

A “orquestra” atacou com um tango e logo depois com Lucho Gatica. 

Em seguida transformou-se num conjunto de mariachis e dá-lhe música mexicana.  

 

Tudo corria bem, até que resolvi pedir a conta, o show não estava agradando. Se não fosse a garrafa de espumante vagabundo e o Cuba Libre que tinha tomado, teria desmaiado quando vi a conta.  

 

O total era simplesmente todo o dinheiro que tínhamos para viver o resto do mês até a viagem de volta de avião, e isso que não seria possível remarcar.

 

Com a coragem que tinha adquirido com os drinks, tirei a Marisol para dançar e a fui conduzindo até a porta que dava para o longo corredor. Chegando lá, peguei sua mão e gritei: CORRE!

 

Corremos como loucos até o fim do corredor, ninguém. Estávamos livres, o golpe tinha funcionado.

 

Voltamos a caminhar tranquilos pela noite de Arica. Ao chegar no semáforo para atravessar a esquina que dava para o hotel, senti uma mão pousando sobre meu ombro dizendo: “Caballero, los voy acompañar hasta el hotel para que pague la cuenta”.

 

Era um índio com quase dois metros de altura e um de largura. Não teve jeito, fomos até o hotel, e enquanto a Marisol conversava com ele em inglês na portaria, fui até o quarto e trouxe todo o dinheiro que restava.

 

***

Tínhamos ainda três semanas até o voo de volta, e o dinheiro que sobrou não dava nem para pagar o que restava do hotel. Dia seguinte, saímos para procurar alguma coisa mais barata e encontramos um bed&breakfast bem ruinzinho, mas que podia pagar até a viagem de volta.

 

O problema era comer até lá. 

 

Apelamos para os expedientes mais insólitos. Afinal tínhamos fome e nenhum conhecido em Arica. 

 

Marisol usava todo dia um belo poncho boliviano de lã de vicunha que podia abrigar muita coisa embaixo. Na época, o Chile passava por um boicote internacional, e muitas marcas, como a Nestlé, não forneciam mais para o país. Mas tinha um leite condensado russo, com a carinha de um bebê loirinho no rótulo que passou a ser a nossa salvação. Entrávamos num mercadinho de bairro e enchíamos a sua colorida bolsa hippie peruana com latinhas de leite condensado. 

 

Faltava só comer algo salgado, para compensar tanto leite condensado.

 

Os restaurantes chilenos na época, costumavam ter disponível sobre as mesas, antes de se pedir, uma cestinha de pães “ayuyas y marraquetas”, uma garrafa de água e um pote de “pevre”, um molho delicioso feito de pimenta, tomate, cebola e coentro (silantro).

 

Entrávamos com ares de turistas ricos, eu brasileiro e ela (loira de olhos azuis) americana do meio oeste, falávamos português e inglês, comíamos um ou dois pães com pevre cada um, líamos o cardápio e não gostávamos. Pedíamos desculpas e partíamos para outro restaurante.

 

A praia de manhã e o pôr do sol no pacífico continuaram até o último dia da viagem. Sempre com a ajuda de um amigo da hora que nos passava o cigarro para um tapinha. 

 

A volta a Santiago foi um choque, uma ducha de água gelada. Voltamos para enfrentar a conspiração golpista da direita fascista chilena articulada com a CIA para a derrubada final do governo popular. 

 

Veja no próximo capítulo.